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Plural e o Jardim de Epicuro

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Plural e o Jardim de Epicuro

23/04/2026 8 min read

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 Plural e o Jardim de  Epicuro

Afonso Silvestre

Tive a honra de participar da IV Feira Cultural Plural, ocorrida recentemente, idealizada pela médica e filósofa Rosa Aurich. A feira ocupou os espaços do Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima durante dois dias inteiros, reunindo artistas, pensadores, estudantes e jovens iniciantes nas linguagens das artes. Livros, música, teatro, cinema, moda, culinária, artes visuais e feira de artesanato, tudo convivendo num mesmo espaço, com espírito de partilha e criação. A Plural é uma experiência viva de cultura, feita de encontros e trocas que ultrapassam os limites da arte como produto.
Participei de uma mesa sobre as memórias da Serra do Periperi, tema que atravessa a história e a identidade de Vitória da Conquista. Conversamos sobre a importância simbólica e ambiental da Serra, águas, vegetação, fauna e sua presença como marco de pertencimento coletivo. Estiveram à mesa o mediador Elton Becker (historiador e radialista), Gilvandro Oliveira (historiador e escultor), Armênio Santos (médico e escritor), Jeremias
Macário (jornalista e escritor) e Itamar Aguiar (antropólogo e pesquisador das tradições locais). Foram expressos diferentes pontos de vista, compondo um debate rico em memória e afetos.
Em certo momento, Rosa Aurich me disse algo que ressoou. “A Plural é um jardim de Epicuro.” A imagem é precisa e poderosa. Epicuro, filósofo grego do século IV a.C., criou um jardim onde se reuniam amigos para pensar, conversar e cultivar o prazer sereno da existência. Era um refúgio, mas não um isolamento. Tratava-se de um espaço de liberdade interior e de convivência. Chamar a Feira Plural de jardim de Epicuro é reconhecer nela um
território de pensamento e afeto, um lugar em que o fazer artístico se mistura à reflexão sobre quem somos e como queremos viver em sociedade. A feira propõe uma estética do encontro. E, no contexto de Vitória da Conquista, isso tem um peso que deve ser levado em consideração.
Ainda não se consolidou uma tradição de políticas públicas de cultura capazes de refletir a riqueza simbólica do povo. As causas são históricas. Desde os tempos de formação, a cidade foi marcada por um tipo de progresso comercial e patriarcal, vindo dos tropeiros, da Rio-Bahia e da ascensão de famílias tradicionais pouco ligadas às artes ou mesmo, até o início do século XX, à alfabetização. Esse traço moldou uma vida pública voltada mais à economia do que à imaginação. Some-se a isso um crescimento urbano rápido e desordenado, sem que houvesse planejamento cultural ou valorização do sensível como dimensão do desenvolvimento.
Ainda assim, alguns gestores plantaram sementes. Régis Pacheco, entre 1939 e 1946, por exemplo, teve um papel pedagógico ao demarcar o espaço público, introduzir uma ideia de cidade e diferenças entre público e privado. Mais tarde, Jadiel Mattos incluiu em seu Plano Diretor (1976) um projeto de integração entre Cultura e Educação, um núcleo cultural urbano, que previa a área hoje ocupada pela Escola Normal e o Centro de Cultura, e se estendia até a rotatória da Olívia Flores. O projeto não se completou. Parte do terreno foi vendida posteriormente e, com o tempo, o sonho de um eixo cultural se desfez. A Biblioteca Pública Municipal, símbolo dessa descontinuidade, perdeu seu espaço original para o mercado de automóveis e foi parar, literalmente, no Brejo.
Esses episódios ilustram uma questão mais ampla: a distância entre o desejo dos artistas e o desejo institucional da cidade. Enquanto o poder público se dispersava em ações fragmentadas, sem planejamento ou justificativa, entre elas até mesmo venda de terrenos, as pessoas ligadas à arte e à reflexão continuaram a produzir, muitas vezes sozinhas,
sustentadas apenas pelo sentido daquilo que fazem. O escultor Cajaíba é um emblema disso. Criou com as próprias mãos um museu na Serra do Periperi, na tentativa de preservá-la pela força da comunidade. Sua morte, anos depois, marcou também o fim de um ciclo de esperança que o poder público não soube compreender. O uso da Serra, que
deveria ser para preservação e memória, acabou sendo tomado politicamente em atos de assentamento de pessoas, sem planejamento e a troco de votos.
Entre os anos de 1964 e meados de 1990, com, talvez, uma ou duas interrupções, houve uma sucessão de governos, não apenas conservadores, mas reacionários e retrógrados. Naquele período, a cidade acumulou dívidas impagáveis, depreciou e dilapidou seus bens, e o governo municipal ficou conhecido como um “governo de tretas”, sem pagar salários e sem credibilidade no comércio.
Após este período, durante cerca de 20 anos, Conquista acumulou grande quantidade e sorte de conhecimentos sobre si, seu passado e memória, através da visibilidade dada a comunidades tradicionais e costumes folclóricos que estavam sendo afastados do meio urbano. Modernizou-se, e também modernizaram-se as formas de gestão, inclusive da cultura. Novos espaços capazes de abrigar manifestações e planejamento de políticas criaram uma consciência do território.
A própria Universidade contribuiu com esta condição, produzindo conhecimento, participando dos governos e promovendo extensão dos seus saberes até as comunidades. Depois deste período para a consolidação das políticas de cultura, um prefeito ainda desejou realizar atos em prol da preservação da memória simbólica e material, e este
trabalho chegou a ser iniciado. Infelizmente, após produção extensa, a gestão seguinte interrompeu a ação e o que foi produzido se perdeu. Embora se tenha tentado consolidar essa herança simbólica, quando políticas começam, mas não se mantêm, a cidade se fragmenta novamente, e o que foi aprendido se perde no silêncio institucional.
Mais recentemente, o quadro agravou-se. Setores responsáveis pela cultura foram entregues a agentes com baixo preparo técnico. Recursos deixaram de ser aplicados e tiveram que ser devolvidos, outros sequer foram acessados por falta da qualidade técnica necessária. Projetos se perderam, o diálogo com a sociedade se enfraqueceu muito a partir
do momento em que oitivas públicas foram desrespeitadas, e o próprio Conselho de Cultura deixou de cumprir o papel de representação. Demonstra desconhecimento sobre o próprio regimento, abriga cargos irregularmente e dá suporte a expressões de ignorância e falta de tato. A interrupção das transmissões de reuniões do órgão, ou mesmo das atividades anteriormente promovidas, foi feita sob a alegação do governo de “verificar a legalidade” desta ação de obrigatoriedade constitucional. Esse descompasso entre o talento dos criadores e a omissão administrativa cria uma ferida simbólica: uma cidade cheia de artistas, mas órfã de política cultural.
No entanto, há movimento. Há vida nas bordas, nos coletivos, nos espaços autônomos e nas feiras independentes. A Feira Plural surge desse lugar que é o da sociedade civil decidindo agir onde o poder público falha, ou até mesmo, como ocorre, agindo em seu lugar, nos espaços deixados pela omissão. É uma resposta estética e política, mas sem
rancor, uma resistência pela beleza, política pela delicadeza. Um gesto coletivo que transforma o desamparo em criação.
No jardim de Epicuro da Plural, o artesanato, a poesia, a música e o pensamento se entrelaçam como formas de autoconhecimento e liberdade. Cada participante é convidado a pensar sobre si e sobre o mundo. Não como quem foge, mas como quem pausa para respirar, obs
ervar através de um distanciamento axiológico e reconstruir.
Em tempos de pressa e ruído, a Plural oferece o contrário. Dispõe um espaço de escuta e convivência, onde a cultura não é espetáculo, mas vínculo. E é por isso que, de algum modo, o espírito da Serra do Periperi atravessa tudo: cuidar dela é também cuidar da cidade e da própria memória.
No fim, a Feira Plural nos lembra que ainda é possível cultivar jardins, mesmo quando tudo ao redor parece tão árido e incerto. Jardins de ideias, de amizade, de arte e esperança. E, quem sabe, de inspiração para que o Município reencontre o caminho da escuta e se aproxime de quem produz com qualidade estética, técnica e humana.
Afonso Silvestre é historiador, escritor e tradutor. Pesquisador de comunidades tradicionais, autor dos documentários As Cores da Sagrada Família (2024), sobre o branqueamento da pele dos santos; Omô Inã, os Filhos do Fogo (2025), sobre o cotidiano de um terreiro; e Memórias do Teatro em Conquista entre 1910 e 1920 (2025), sobre o teatro enquanto primeira manifestação artística em Conquista. Foi coordenador e responsável pela modernização e regulação do Arquivo Público Municipal (2012–2016) e Conselheiro de Cultura (2019–2021).
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