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Luiz Galvão viveu de apostas no bicho e mesadas de João Gilberto após Novos Baianos

07/11/2022 31 min read

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 Luiz Galvão viveu de apostas no bicho e mesadas de João Gilberto após Novos Baianos
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 01.09.2017 – O músico Luiz Galvão. (Foto: Marcus Leoni/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Daqui para frente, quando você cantar os versos “eu sou amor da cabeça aos pés”, “minha carne é de Carnaval/ o meu coração é igual” e “acabou chorare, ficou tudo lindo”; ou, ainda, “quando eu cheguei tudo, tudo/ tudo estava virado”, “por que não viver?/ se não há outro mundo” e “assim vou lhe chamar/ assim você vai ser”, mesmo que de forma distraída, seu gesto vai conferir eternidade a Luiz Galvão, letrista dos Novos Baianos que morreu em São Paulo, aos 87 anos, neste sábado (22).

Nos anos 1970, sua poética foi uma aparição alienígena na música popular brasileira. Cobertas por melodias de Moraes Moreira, Pepeu Gomes e Jorginho Gomes, suas letras eram joviais, espontâneas, hedonistas, baiano-hippies e plenas de gírias dos cabeludos.

Galvão portava um convite à vida sem a mácula da neurose, da grana e da adequação social. E não deve ser esquecido seu acréscimo de alegria no mundo cultural, em um momento de repressão política, exílio e morte. Na vida comunitária, com psicodelia, os músicos inventavam uma nova família.

A dupla Galvão e Moraes compôs as clássicas “A Menina Dança”, “Acabou Chorare”, “Dê um Rolê”, “Mistério do Planeta”, “Preta Pretinha”, “Tinindo Trincando” e “Besta é Tu”, esta também com Pepeu. Uma atrás da outra, era ferro na boneca. Sem perder a vitalidade nas décadas seguintes, as canções dos Novos Baianos se tornaram uma experiência duradoura e intergeracional.

“Sentíamos uma grande admiração pela arte dos tropicalistas e percebíamos pontos de afinidades, como a vontade de fazer o bonito, de ser ousado e, principalmente, o revolucionário. Fomos despertados por isso”, escreveu Galvão no livro “Novos Baianos – A História do Grupo que Mudou a MPB”. Além disso, como lembra Rubens Carsoni, especialista em contracultura, “os Novos Baianos mostraram o caminho de volta para casa à juventude hippie setentista que não gostava de futebol nem de samba.”

Nascido em Juazeiro, na Bahia, em 1935, Galvão era o mais velho dos Novos Baianos e o único exclusivamente poeta. De seu encontro com Moraes Moreira, em 1968, formou-se o núcleo do grupo, que aglutinaria Paulinho Boca de Cantor, Baby, Pepeu e Jorge Gomes. “Já que a esquerda mais aberta não sacou a nossa periculosidade, logicamente a direita também não vai sacar”, disse Galvão aos parceiros, antes do show de estreia “O Desembarque dos Bichos Depois do Dilúvio Universal”, que ocorreu no Teatro Vila Velha, em Salvador, em 1969.

Conterrâneo de Galvão, João Gilberto desembarcou no apartamento dos Novos Baianos, em 1971, e os atraiu hipnoticamente para a tradição do samba. O álbum “Acabou Chorare”, de 1972, veio dessa simbiose transformadora da sonoridade da trupe e da própria música brasileira. Cinco anos atrás, em entrevista a este repórter, Galvão rememorou a amizade com João e sua importância nas mudanças formais do conjunto.

“Morávamos perto em Juazeiro. Eu era colega de escola de Juveninho, seu irmão da minha idade. Então, não lembro como, o conheci desde sempre. João era mais próximo do meu irmão Dagmar e juntos começaram a tocar violão. Eu assistia a ele cantar em seu primeiro conjunto em Juazeiro, no estilo Orlando Silva. Quando soube do ‘Chega de Saudade’ já estava um reboliço na cidade. Achei uma obra-prima.”

O letrista não esqueceria a solidariedade do amigo. “João foi fundamental, nos mostrou a verdadeira música brasileira. ‘Acabou Chorare’ é o resultado desse olhar de mestre. A ligação é eterna. João é como um pai para mim. Um dia, estava zerado e fui pedir dinheiro emprestado para ele. Rapaz, ele me deu um esporro: ‘Eu sou banco ou agiota, que é quem empresta dinheiro, esperando receber de volta? Amigos repartem o que têm’. A partir daí, sempre que me encontrava, me dava uma grana, às vezes em dólares, ou então telefonava e pedia o número de uma conta.”

O fim dos Novos Baianos, em 1979, teve um impacto emocional e financeiro para Galvão. Durante algum tempo, ele viveu de mesadas de João Gilberto e de apostas no jogo do bicho. “Caso eu tivesse levado o grupo à frente com outros músicos e cantores de qualidade, sobreviveríamos com o texto no mesmo nível, mas faltaria a vida que os Novos Baianos têm no palco, toda a compreensão de nos aceitarmos no aglomerado daquela convivência, recheada de aventuras e de alegria. Foi como se estivéssemos nascendo, porque realmente renascíamos a cada momento”, ele afirmou no livro de memórias.

Internado no Incor, Luiz Galvão se recuperava de um infarto. A cerimônia de cremação acontece nesta segunda-feira (24), em São Paulo. O poeta desejava que uma bandeira do Vasco cobrisse seu corpo e que suas cinzas fossem jogadas na correnteza do rio São Francisco, em Juazeiro.

Luiz Galvão, poeta e fundador dos Novos Baianos, morre aos 87 anos

Luiz Galvão, poeta e fundador dos Novos Baianos, morre aos 87 anos

O músico e poeta Luiz Galvão, fundador do grupo Novos Baianos, morreu na noite de sábado (22), aos 87 anos, em São Paulo.

A causa da morte não foi divulgada, mas Galvão estava internado desde o dia 16 de setembro, quando deu entrada na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, com suspeita de hemorragia gastrointestinal. Após complicações, ele foi internado no Instituto do Coração, também na capital paulista, onde morreu.

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A morte foi confirmada pela esposa do artista. Ainda não há informações sobre o sepultamento.

Luiz Galvão — Foto: Divulgação

Luiz Galvão — Foto: Divulgação

Galvão é fundador do grupo Novos Baianos, 1968, que marcou a música brasileira. Com o grupo, lançou o álbum “Acabou chorare”, que juntava samba, rock, bossa nova, frevo, choro e baião. O disco trazia faixas como “Preta pretinha”, “Mistério do planeta”, “A menina dança” e “Besta é tu”.

A coletânea foi eleita pela revista Rolling Stone como a melhor da história da música brasileira, em outubro de 2007.

Novos Baianos se reencontram no palco do Fantástico

Histórico de saúde

Segundo a família, o músico vinha passando por problemas de saúde nos últimos anos. Ele era diabético, havia sofrido um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e um infarto. Antes da internação, ele já estava acamado.

Galvão foi hospitalizado no dia 13 de setembro após um mal estar, e chegou a receber alta no dia 14. No entanto, no mesmo dia, teve de voltar e ser hospitalizado. Com a gravidade do quadro, acabou foi entubado e foi mantido na UTI.

Durante o período de internação, a família de Luiz Galvão afirmou que ele chegou a passar uma noite no corredor de um pronto-socorro. O artista também passou por uma cirurgia vascular no final do mês de setembro.

Após pouco mais de um mês internado, na noite deste sábado, Galvão não resistiu e morreu.

Amigo de João Gilberto, fundador do Novos Baianos

 

Luiz Galvão durante entrevista nos anos 70 — Foto: ACERVO GLOBO

Luiz Galvão durante entrevista nos anos 70 — Foto: ACERVO GLOBO

Luiz Dias Galvão nasceu em Juazeiro, no norte da Bahia, em 22 de abril de 1935, mas seu nascimento só foi registrado dois anos depois, em 1937. Bom de letras, e bom de bola, Galvão jogou futebol profissional em Juazeiro e chegou a ser campeão baiano de futebol de salão.

Seguiu os estudos, ainda no norte da Bahia, onde se formou e trabalhou por seis anos com agronomia, até deixar a atividade de lado e decidir viver de sua arte.

Anos antes, ainda adolescente em Juazeiro, Luiz Galvão conheceu João Gilberto. A amizade mudaria para sempre a história da música brasileira.

Anos depois, uma nova amizade culminaria em um dos maiores grupos da história da música popular brasileira, os Novos Baianos. Galvão se reuniu, em Salvador, com outros dois jovens saídos de cidades do interior da Bahia. De Santa Inês, no sul da Bahia, vinha Paulo Roberto Figueiredo de Oliveira, o Paulinho Boca de Cantor; e de Ituaçu, no sudoeste do estado, vinha Antônio Carlos Moraes Pires, o Moraes Moreira.

Em 1968, eles criaram o espetáculo que deu origem aos Novos Baianos, Desembarque dos Bichos depois do Dilúvio Universal.

O trio ainda ganharia os reforços Baby do Brasil e Pepeu Gomes. Além de nomes como Jorge Gomes, Dadi, Charles Negrita, Baixinho, Bola Morais e Gato Félix.

Obras

 

Foto clássica dos Novos Baianos que estampou a capa do álbum 'Acabou Chorare' — Foto: Divulgação

Foto clássica dos Novos Baianos que estampou a capa do álbum ‘Acabou Chorare’ — Foto: Divulgação

Em 1970, o grupo lançou seu disco de estreia, “Ferro na boneca”. Em seguida, foram morar em um sítio em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio, onde seguiam a cultura hippie dos EUA e da Europa em plena ditadura militar brasileira.

A grande obra viria após uma visita de João Gilberto à casa em que eles moravam juntos, já no Rio de Janeiro. Era 1972, quando o grupo lança o álbum “Acabou chorare”, que consagrou os Novos Baianos. O trabalho juntava samba, rock, bossa nova, frevo, choro e baião.

Com a regravação de “Brasil pandeiro”, de Assis Valente, além de “Preta pretinha”, “Mistério do planeta”, “A menina dança”, “Besta é tu” e a faixa título, todas de coautoria de Moraes Moreira.

O disco foi eleito pela revista Rolling Stone como o melhor da história da música brasileira, em outubro de 2007. No total, foram oito discos de estúdio. Há ainda dois álbuns ao vivo, de reuniões do grupo, um de 1997 e outro de 2017.

Luiz Galvão escreveu a maioria das canções gravadas pelo grupo, e musicadas por Moraes Moreira. Entre suas composições estão “Acabou Chorare”, “Preta Pretinha” e “Mistério do Planeta”.

Grupo durante apresentação do disco Praga de Baiano, no final dos anos 70 — Foto: ACERVO GLOBO

Grupo durante apresentação do disco Praga de Baiano, no final dos anos 70 — Foto: ACERVO GLOBO

Além da vida musica, o artista também investiu na literatura e deixou registros da história do grupi que marcou a história da música no Brasil. Galvão é autor dos livros: “Novos Baianos: A história do grupo que mudou a MPB”; “João Gilberto: a bossa” e “Anos 80: A história de uma amizade na década perdida”. O juazeirense ainda lançou o disco Galvão, A Palavra dos Novos Baianos.

O poeta sai de cena deixando como legados a paixão pela arte, a poesia, as letras marcantes, e o bom humor. Além de uma defesa intransigente do seu povo e da sua terra.

“O nordestino é um lutador, um vencedor. E Juazeiro é uma cidade brincalhona, de muito humor, é ‘cheguei’. Juazeiro é o cara”, gostava de dizer em entrevistas.

Apesar da saúde frágil com que viveu nos últimos anos, Luiz Galvão se manteve sempre em estado de poesia. Ao lado dos filhos e da esposa Janete, acompanhando o Vasco, time do coração, ou nos mínimos detalhes, Galvão fez valer os versos que deixou eternizados. “Apesar de tudo, a vida é boa e ainda é bela”.

Novos Baianos — Foto: José Araújo / Reprodução caixa de CDs

Novos Baianos — Foto: José Araújo / Reprodução caixa de CDs

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