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Lula defende agro e energia limpa em feira na Alemanha

20/04/2026 8 min read

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 Lula defende agro e energia limpa em feira na Alemanha
Lula durante cerimônia de Abertura da Feira Industrial de Hanôver. Galeria do Palácio de Herrenhausen, Alemanha.Ricardo Stuckert/PR

Na abertura da feira de Hannover, presidente diz que o Brasil pode ajudar a Europa a descarbonizar sua indústria e critica barreiras aos biocombustíveis.

O presidente Lula defendeu neste domingo (19), em Hannover, na Alemanha, uma aproximação mais forte entre Brasil e Europa em torno da transição energética, da neoindustrialização e da inovação tecnológica. Ao abrir a Hannover Messe, considerada a maior feira industrial do mundo, Lula afirmou que o Brasil pode contribuir diretamente para a competitividade europeia no novo cenário energético.

“O Brasil pode ajudar a União Europeia a diminuir custos de energia e descarbonizar sua indústria. Para isso, é essencial que as regras do bloco levem em conta a matriz energética limpa utilizada em nossos processos produtivos”, afirmou o presidente, ao lado do chanceler alemão, Friedrich Merz.

Recado à Europa

No discurso, Lula também criticou o que chamou de “narrativas falsas” sobre a sustentabilidade da agricultura brasileira e atacou restrições impostas aos biocombustíveis. “É preciso combater narrativas falsas a respeito da sustentabilidade da nossa agricultura. Criar barreiras adicionais ao acesso de biocombustíveis é contraproducente tanto do ponto de vista ambiental quanto do energético”, disse.

A fala foi apresentada como parte da estratégia do governo para vender o Brasil como potência industrial verde e parceira confiável em um cenário internacional marcado por instabilidade geopolítica. Segundo o Planalto, a viagem busca ampliar a visibilidade internacional do país, reforçar sua imagem como destino de investimentos, tecnologia e negócios e consolidar parcerias em áreas como defesa, mudanças climáticas, infraestrutura, inteligência artificial, bioeconomia e energia.

Biocombustíveis, hidrogênio e minerais

Lula associou esse discurso externo à agenda econômica interna. Disse que o Brasil colocou em marcha um “robusto programa de neoindustrialização”, tendo como motores a economia verde e a indústria 4.0. Também afirmou que o país quer atrair parcerias com transferência de tecnologia, inclusive na exploração de minerais estratégicos para a transição energética e a transformação digital.

“Com apenas 30% do potencial mineral mapeado, nosso país já detém a maior reserva mundial de nióbio, a segunda de grafita e terras raras e a terceira de níquel. Esses insumos devem ser instrumentos de desenvolvimento econômico e social. Não repetiremos o papel de meros exportadores de commodities minerais”, declarou.

Ao detalhar o potencial energético brasileiro, Lula ressaltou a dimensão da matriz renovável do país. “Dispomos de matriz elétrica 90% limpa e temos potencial para produzir o hidrogênio verde mais barato do mundo. Essa trajetória consistente em energias renováveis fortaleceu nossa segurança energética. O Brasil é um dos países menos afetados pela atual crise de oferta de petróleo”, afirmou.

O presidente também lembrou que o país já adota mistura de 30% de etanol na gasolina e de 15% de biodiesel no diesel, além de produzir biocombustíveis “de forma sustentável, sem comprometer o cultivo de alimentos ou derrubar florestas”.

Emprego e inteligência artificial

Lula também ligou inovação tecnológica à proteção do trabalho. Disse que a inteligência artificial aumenta a produtividade, mas alertou para os riscos de seu uso sem limites éticos e para o impacto das novas tecnologias sobre os trabalhadores.

“A inteligência artificial nos torna mais produtivos, mas também é utilizada para selecionar alvos militares sem parâmetros legais ou morais”, afirmou em um dos trechos mais duros do discurso. Depois, dirigindo-se a empresários, cientistas e pesquisadores, fez um apelo: “Poucas vezes, quando eu vejo falar em inteligência artificial, eu ouço falar numa pessoa chamada trabalhador. Se a inteligência artificial causar o bem que nós queremos que cause para o desenvolvimento dos países, é preciso que nós lembremos que, por trás de cada gênio, de cada invenção, tem um ser humano. Se ele não tiver mercado de trabalho, o mundo só tende a piorar”.

Lula aproveitou ainda para defender o fim da escala 6×1. “Queremos pôr fim à jornada de trabalho seis por um, para permitir que o trabalhador tenha dois dias de descanso semanal e usufrua dos ganhos de produtividade alcançados pela indústria”, disse.

Guerra, petróleo e multilateralismo

Em outra frente, o presidente usou a tribuna da feira para criticar o cenário internacional. Voltou a classificar como “maluquice” a guerra envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã e afirmou que o mundo vive uma contradição ao gastar trilhões de dólares em conflitos enquanto ainda não resolveu problemas básicos da humanidade.

“Não é possível que nós estejamos gastando 2 trilhões e 700 bilhões de dólares em guerra e nada para acabar com a fome no planeta”, disse. Em seguida, cobrou responsabilidade dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU: “É de se perguntar ao presidente Trump, ao presidente Putin, ao presidente Xi Jinping, ao presidente Macron e ao primeiro-ministro do Reino Unido: para que serve o Conselho de Segurança da ONU? Por que vocês não se reúnem e não param com essas guerras?”.

Ao abordar os efeitos do conflito no Oriente Médio, Lula afirmou que as guerras têm consequências econômicas diretas sobre a vida cotidiana. “Flutuações no preço do petróleo encarecem a energia e os transportes. A escassez de fertilizantes afeta a produção agrícola e aumenta a insegurança alimentar. São os mais vulneráveis que pagam o preço da inflação dos alimentos”, declarou.

O presidente também defendeu uma “refundação” da Organização Mundial do Comércio e criticou o ressurgimento do protecionismo. Segundo ele, “o protecionismo ressurge como resposta falaciosa para problemas econômicos e sociais complexos”.

Mercosul-UE e agenda na Alemanha

Lula aproveitou a viagem para reforçar a aposta do governo no acordo entre Mercosul e União Europeia. “Daqui a menos de duas semanas, entrará em vigor o acordo que cria um mercado de quase 720 milhões de habitantes, com PIB agregado de 22 trilhões de dólares. Mais comércio e mais investimentos significam novos empregos e oportunidades dos dois lados do Atlântico”, afirmou.

A agenda de Lula na Alemanha inclui ainda fórum empresarial, consultas intergovernamentais de alto nível e encontros voltados a inovação, sustentabilidade, geopolítica, indústria de defesa e inteligência artificial. Para o governo, a Alemanha é um dos principais interlocutores do Brasil na Europa e parceiro central em cooperação técnico-financeira, agenda climática e transição energética.

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