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O moralismo seletivo e a falência da ética como discurso político na Bahia

19/07/2026 5 min read

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 O moralismo seletivo e a falência da ética como discurso político na Bahia
Herbet Sonka

Por Herberson Sonkha

Existe uma diferença profunda entre defender a ética na política e utilizar a ética como instrumento de disputa política.
A primeira postura fortalece a democracia. A segunda a corrói.
Nos últimos anos, o Brasil assistiu à construção de uma narrativa segundo a qual a corrupção possuiria endereço ideológico. A partir dessa lógica simplificadora, consolidou-se no imaginário político a ideia de que haveria partidos naturalmente vocacionados para a corrupção e outros que se apresentariam como guardiões exclusivos da moralidade pública.
A história, entretanto, nunca confirmou essa tese.
A ciência política ensina que corrupção não nasce da ideologia. Ela prospera onde há concentração de poder, baixa transparência, fragilidade dos mecanismos de controle e pouca capacidade institucional de fiscalização. Não importa se o governo se declara de direita, de esquerda ou de centro. Quando essas condições se estabelecem, o risco de desvios cresce.
É justamente por isso que a recente investigação conduzida pelo Ministério Público do Estado da Bahia (MPBA), por meio do Gaeco, merece atenção pública.
Segundo o Ministério Público, estão sob investigação contratos públicos que, somados, alcançam aproximadamente R$ 321 milhões, envolvendo empresas como G3 Polaris Serviços Ltda, Podium Distribuidora, LN Distribuidora e Comércio, WLSP Logística e Transportes e MP2 Construções. As apurações examinam suspeitas de fraude em licitações, direcionamento de contratos, superfaturamento e possível atuação coordenada entre empresas. Essas hipóteses investigativas ainda serão submetidas ao devido processo legal, e não há decisão judicial definitiva sobre a responsabilidade dos investigados.
O aspecto politicamente relevante, contudo, não reside apenas na investigação em si.
Os contratos mencionados alcançam administrações municipais conduzidas por diferentes lideranças políticas, entre elas Bruno Reis e ACM Neto (União Brasil), em Salvador; Zé Cocá (PP), em Jequié; e contratos celebrados durante as gestões de Herzem Gusmão e Sheila Lemos em Vitória da Conquista. Também há referência a contratos firmados em outras administrações municipais e a contratos celebrados com o Governo do Estado.
A existência desses contratos, por si só, não constitui prova de irregularidade. É exatamente isso que cabe à investigação esclarecer.
Mas o debate político que emerge desse cenário é inevitável.
Durante anos, setores da direita brasileira construíram boa parte de sua identidade política sobre uma retórica de superioridade moral. O Partido dos Trabalhadores transformou-se no símbolo permanente de todos os males da República. Muitas vezes, bastava uma operação policial, uma denúncia ou mesmo uma suspeita para que condenações políticas fossem pronunciadas antes das decisões judiciais.
Hoje, quando investigações alcançam administrações vinculadas a partidos como União Brasil e PP — legendas que, em diferentes momentos, integraram alianças e bases de sustentação do governo Jair Bolsonaro no plano nacional — o discurso muda de tom. A cautela jurídica, corretamente invocada agora, deveria ter sido o padrão em todos os episódios da vida pública brasileira.
É justamente essa diferença de tratamento que merece crítica.
Não porque exista prova definitiva contra este ou aquele agente político, mas porque a coerência democrática exige critérios universais.
Quem defendia que toda investigação era suficiente para condenar adversários precisa explicar por que, diante de investigações envolvendo aliados, passa a sustentar que somente a sentença final pode autorizar qualquer juízo político.
A mudança não decorre do Direito.
Decorre da conveniência.
Sob a perspectiva da sociologia política, esse comportamento representa aquilo que diversos estudiosos descrevem como moralismo seletivo: a utilização instrumental da ética pública para produzir capital político, enquanto os mesmos princípios são relativizados quando alcançam grupos considerados ideologicamente próximos.
A consequência é devastadora.
A população deixa de acreditar que o combate à corrupção seja um compromisso republicano e passa a percebê-lo como mera ferramenta eleitoral.
Essa percepção enfraquece as instituições, reduz a confiança na democracia e alimenta um ciclo permanente de polarização.
Também merece reflexão o comportamento de parte da imprensa brasileira.
Em uma democracia madura, investigações envolvendo recursos públicos devem receber cobertura proporcional à sua relevância institucional, independentemente da identidade partidária dos investigados. A independência editorial exige que o mesmo rigor empregado em casos anteriores seja aplicado às investigações atuais, sempre respeitando a presunção de inocência e o direito ao contraditório.
É esse equilíbrio que diferencia o jornalismo da militância.
Ao final, permanece uma lição que a história insiste em repetir.
A corrupção não possui partido.
Não possui ideologia.
Não possui cor.
Ela encontra espaço sempre que controles institucionais falham e sempre que a sociedade aceita substituir o compromisso com a ética pelo conforto das conveniências políticas.
Por isso, o verdadeiro combate à corrupção começa quando abandonamos a ideia de que ela pertence exclusivamente ao adversário.
Enquanto houver dois pesos e duas medidas, não haverá moralidade pública.
Haverá apenas disputa política travestida de virtude.

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