Após Ramagem ser preso nos EUA, governistas defendem deportação de ex-deputado
Caetano e Gil não foram anistiados, foram sequestrados pela ditadura
O mesmo ocorreu com Geraldo Azevedo, que chegou a ser torturado; Chico Buarque, por sua vez, estava fora do país e foi avisado que se voltasse seria preso
A extrema direita repetiu à exaustão nas redes sociais que havia uma contradição na manifestação do último domingo (21), na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Segundo eles, artistas que foram anistiados estariam agora cantando contra a anistia. Mentira.
Eles não foram anistiados. Nem sequer julgados. Caetano Veloso e Gilberto Gil, por exemplo, foram sequestrados pela ditadura durante o governo do general Artur da Costa e Silva, em 1968.
Encarcerados durante 54 dias no quartel de Deodoro, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, sem saber a razão, sem nenhuma acusação formal, tiveram as cabeças raspadas no local. A seguir, ficaram quatro meses em confinamento domiciliar obrigatório em Salvador, na Bahia. De lá, foram mandados para o exílio em Londres. Após quatro anos e meio, voltaram para o Brasil, em 1972.
Geraldo Azevedo
Algo ainda pior aconteceu com o cantor pernambucano Geraldo Azevedo. Em 1969, ele foi preso com a esposa durante a ditadura militar, sendo torturado por 41 dias na Ilha das Flores, na Baia da Guanabara.
Em 1975, já sob o governo Ernesto Geisel, o cantor voltou a ser preso. Após permanecer por quatro dias preso no quartel da Barão de Mesquita, ele foi transferido para o Dops. “A gente ficava dentro de um frigorífico, tudo coberto de gelo, uma sirene tocando sem parar e um breu absoluto”, rememora. “Sofri muito para provar que não era (um militante). Até que me safei. Durante muito tempo, tive vergonha disso – é muito humilhante.”
Chico Buarque
No dia 4 de janeiro de 1969, Chico Buarque partiu em uma turnê na Itália. Por lá, foi avisado que, se voltasse ao Brasil, seria preso pelos militares. Ficou 14 meses exilado com a sua então esposa, a atriz Marieta Severo, que estava grávida da primeira filha, Sílvia, que tinha 11 meses quando voltou.
Chico não recebeu aval para a sua volta e muito menos algo que se possa chamar de anistia. Ele foi aconselhado pelo poeta e amigo Vinícius de Moraes a regressar fazendo “barulho”, para não correr o risco de desaparecer na calada da noite. Por conta disso, foi recebido com uma grande festa no Rio de Janeiro.
Lei da Anistia e o fim da ditadura
A Lei da Anistia, no Brasil – a denominação popular dada à lei n° 6.683 – só veio mesmo a ocorrer alguns anos depois, após grande mobilização popular. Ela foi sancionada pelo então presidente João Batista Figueiredo em 28 de agosto de 1979 e abriu as portas para o fim da ditadura militar, que só veio a acabar formalmente em 1985, quando José Sarney assumiu a presidência, marcando o início da chamada Nova República.
