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DISSONÂNCIA COGNITIVA Por que as crenças não morrem – ou o efeito “apito de cachorro”

10/11/2022 5 min read

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 DISSONÂNCIA COGNITIVA Por que as crenças não morrem – ou o efeito “apito de cachorro”

Grupo se reúne em frente ao Palácio Duque de Caxias, sede organizacional das Forças Armadas. (Foto: Fábio Rossi)

Acervo Online | Brasil
por Laura de Azevedo Marques e Rômulo Monteiro Garzillo

Os seguidores do atual presidente Jair Bolsonaro, quando confrontados com a quebra de sua crença na reeleição, experimentaram a chamada dissonância cognitiva

Em meados de 1955, o renomado psicólogo social Leon Festinger infiltrou-se em uma célula da seita The Seekers, liderada por Dorothy Martin, a qual alegava ter recebido uma mensagem do planeta Clarion de que um disco voador buscaria seus seguidores para salvá-los de uma imensa inundação prevista para acontecer na aurora do dia 21 de dezembro de 1954. A crença falhou.

O objetivo de Festinger era estudar o fenômeno psicológico por ele batizado de “dissonância cognitiva”. Em resumo, dissonância cognitiva é o que acontece quando pessoas que acreditam muito em algo são contrariadas pela realidade. Como quando uma pessoa que acredita profundamente que seu candidato vai ganhar as eleições (a despeito de pesquisas eleitorais e outros dados objetivos) e no fim ele é derrotado. Ou quando alguém acha que um disco voador vai aterrizar em sua casa, mas nada acontece.

A imersão de Festinger na seita dos Seekers concluiu que quando crenças muito consolidadas se veem refutadas por evidências externas que demonstram que a convicção era equivocada, isso gera a chamada dissonância cognitiva – que é, em última análise, o conflito entre duas cognições: uma informação nova e uma crença já estabelecida.

Ocorre que o cérebro humano não é muito bem equipado para lidar com esse conflito. Segundo Festinger, são três as formas de eliminar a dissonância: i) o indivíduo tenta substituir uma ou mais crenças, opiniões ou comportamentos que estejam envolvidos na dissonância; ii) o indivíduo tenta adquirir novas informações ou crenças que irão aumentar a consonância; e iii) o indivíduo tenta esquecer ou reduzir a importância daquelas cognições que mantêm a situação de dissonância.

E é exatamente esse o fenômeno que assistimos desde que foi declarada a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições do último dia 30 de outubro. Os seguidores do atual presidente Jair Bolsonaro, quando confrontados com a quebra de sua crença na reeleição, experimentaram a chamada dissonância cognitiva. Buscam, agora, formas de mitigar aludida dissonância.

O pronunciamento oficial do presidente não reeleito funcionou como um apito de cachorro para esses ouvidos atentos. Assim como a ferramenta de adestramento – a qual só pode ser ouvida pelos caninos –, a declaração de Jair ressoou apenas naqueles que buscam revalidar suas crenças e esquecer ou reduzir a importância das informações confrontantes.

Enquanto a maioria de nós ouviu apenas três minutos de um candidato derrotado que não consegue seguir o protocolo democrático do país, os cérebros em dissonância escutam que “os movimentos populares são fruto de indignação e de sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral”. Está dada, assim, a nova crença que apazigua os cérebros em sofrimento.

Em dezembro de 1954, a nave extraterrestre não veio para buscar os seguidores da seita The Seekers. Às 5h da manhã, a líder Dorothy Martin pegou lápis e papel e disse que tinha um novo recado do planeta Clarion: segundo ela, deus tinha resolvido salvar a Terra da iminente enchente, graças àquelas pessoas de fé que haviam se reunido. Todos se deram por satisfeitos com a resposta e a crença seguiu.

Agora, em outubro de 2022, eleitores de Jair Bolsonaro recebem seu posicionamento dúbio como um aceno de que o mito não morreu, de que eles seguem unidos pela indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral. E parece ser o suficiente para apaziguar a dissonância cognitiva e manter a crença viva.

 

Laura de Azevedo Marques é advogada criminalista, sócia do escritório Madi Rezende Advogados, pós-graduada em Processo Penal pelo Instituto de Direito Penal Económico Europeu em parceria com o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais. Integrante do Instituto de Defesa do Direito de Defesa, do IBCCRIM e do Innocence Project Brasil.

Rômulo Monteiro Garzillo é mestre em Filosofia do Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), professor de Direito Constitucional da Faculdade Nove de Julho, membro e um dos fundadores do grupo de pesquisa Sistema de Justiça e Estado de Exceção e autor do livro Elementos autoritários em Carl Schmit

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