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Tiradentes e a mesa da história: um diálogo permanente pela soberania brasileira

22/04/2026 4 min read

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 Tiradentes e a mesa da história: um diálogo permanente pela soberania brasileira

No contexto brasileiro, essa reflexão ganha densidade na obra de Carolina Maria de Jesus, que, ao afirmar o domínio da palavra como instrumento de libertação, recoloca o sujeito marginalizado no centro da narrativa. A escrita, nesse sentido, transforma-se em ferramenta de leitura crítica da realidade e de enfrentamento das opressões historicamente impostas.

Por Joilson Bergher

Tiradentes e a mesa da história: um diálogo permanente pela soberania brasileira.A memória de Tiradentes, evocada no feriado de 21 de abril, não se restringe a um episódio isolado da história brasileira, mas se projeta como um eixo simbólico permanente das disputas em torno da soberania nacional. Inserido no contexto da Inconfidência Mineira, Tiradentes foi alçado à condição de mártir não apenas por sua execução, mas pelo significado político de sua insurgência. A reação das elites coloniais e metropolitanas à sua figura revela um padrão histórico recorrente: a deslegitimação e o silenciamento de vozes que tensionam estruturas de poder. Nesse sentido, a atualidade de Tiradentes reside menos na biografia e mais na permanência do conflito que ele encarnou.

Ao ampliar o debate, é possível situar essa experiência no horizonte mais amplo do Iluminismo, cuja centralidade da razão e da crítica às estruturas absolutistas ecoava nas colônias. A busca por um “homem novo” e por formas mais justas de organização social aproxima, ainda que em contextos distintos, figuras como Diógenes de Sinope — que simbolicamente procurava um homem honesto em meio à corrupção — e processos históricos como a Revolução Russa, que, apesar de suas contradições, também projetou ideais de transformação radical da sociedade. Esses elementos evidenciam que a luta por justiça, dignidade e emancipação atravessa diferentes tempos e geografias, constituindo um fio contínuo de inquietação humana.

Esse mesmo fio pode ser percebido nas dimensões éticas e espirituais do debate, quando se evocam figuras como Jesus Cristo e Nostradamus, frequentemente mobilizado como símbolo de uma inquietação com o destino humano. No contexto brasileiro, essa reflexão ganha densidade na obra de Carolina Maria de Jesus, que, ao afirmar o domínio da palavra como instrumento de libertação, recoloca o sujeito marginalizado no centro da narrativa. A escrita, nesse sentido, transforma-se em ferramenta de leitura crítica da realidade e de enfrentamento das opressões historicamente impostas.

Por fim, ao transpor essa discussão para o campo cultural, a obra de Glauber Rocha oferece uma síntese potente dessa memória insurgente, ao retratar, em linguagem estética e política, as contradições de um país marcado pela desigualdade. Assim, imaginar uma mesa de bar ou uma assembleia onde essas vozes se encontram não é mero exercício retórico, mas uma forma de reconhecer que a construção de um Brasil soberano depende da capacidade coletiva de revisitar criticamente o passado, compreender o presente e projetar um futuro orientado pela justiça social.

Se estivéssemos reunidos em uma grande mesa — com Tiradentes, Glauber Rocha, Nostradamus, Carolina Maria de Jesus, Jesus Cristo, Karl Marx e nós, brasileiros — o que se ouviria não seria um consenso fácil, mas um chamado profundo à responsabilidade histórica. Tiradentes nos lembraria que a soberania tem preço e exige coragem; Glauber tensionaria as estruturas com sua estética da fome, denunciando as permanências da opressão; Carolina reivindicaria a palavra como instrumento de dignidade; Marx apontaria as engrenagens da exploração; Jesus evocaria o valor do humano acima de todas as coisas; e até Nostradamus, entre símbolos e enigmas, insinuaria que o futuro não está dado, mas em disputa. Entre vozes distintas, o que se ergueria como síntese seria a compreensão de que o 21 de abril não é apenas memória, mas convocação: um convite permanente para que o povo brasileiro assuma seu lugar na história, transformando indignação em ação concreta, crítica em consciência coletiva e sonho em projeto de nação soberana.
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Joilson Bergher.
Professor e Analista Crítico de Política e Sociedade.

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