Zé Raimundo representa ALBA em debate sobre cultura e democracia na Academia de Letras da Bahia
Uma reflexão sobre a sexta-feira da Paixão no mudo ocidental cristão: e a guerra no Oriente Médio
A Sexta-feira da Paixão, ou Sexta-feira Santa, é uma das datas mais sagradas do cristianismo no Mundo
Ocidental, representando o dia em que se relembra a crucificação e morte de Jesus Cristo no Calvário. É um
dia marcado por luto, silêncio, oração e reflexão profunda, integrando o Tríduo Pascal. Alguns dos significados
e práticas associados a este dia: Sacrifício e Redenção: Para os cristãos, a data simboliza o sacrifício supremo
de Jesus pela humanidade para a remissão dos pecados. Representa a dimensão espiritual do amor
incondicional de Deus. Penitência e Jejum: É um dia de abstinência e jejum para muitos fiéis
(especialmente na tradição católica), como forma de humildade, solidariedade com o sofrimento de
Cristo e reflexão. Ausência de Missas: Na Igreja Católica, a Sexta-feira Santa é o único dia do ano em que
não se celebra a Missa. Em vez disso, ocorre a “Celebração da Paixão do Senhor”, focada na adoração da
cruz, leituras bíblicas e orações. Tradições e Via Sacra: Muitas comunidades realizam procissões e encenações
da Via Sacra (os últimos momentos de Cristo). Em muitas culturas, é costume não comer carne vermelha,
substituindo-a por peixe. O “Bom” na Sexta-feira: Embora seja um dia de morte, os cristãos a chamam de
“boa” (Good Friday, em inglês) porque, na teologia cristã, o sacrifício na cruz é o que possibilita a redenção e a
esperança da ressurreição no Domingo de Páscoa. Em síntese, a Sexta-feira da Paixão é o momento de
contemplar o sofrimento de Jesus para, posteriormente, celebrar a sua vitória sobre a morte. Sexta-Feira
da Paixão em (2026), nos convida à uma reflexão profunda sobre o contraste entre o sacrifício, as
guerras e os conflitos, no mundo contemporâneo. Enquanto a tradição cristã recorda o sofrimento de Cristo
como um ato de entrega e redenção, o Oriente Médio continua a ser palco de um sofrimento imposto pela
violência e pela disputa geopolítica. Alguns pontos para conectar essa data ao cenário atual: A
Universalidade da Dor: O Calvário não é apenas um evento histórico; ele se manifesta hoje no rosto das
vítimas civis em zonas de guerra, nas faces das crianças Palestinas a todos os cidadãos Libaneses
mortos/assassinados. Segundo Chacra (2023), “há um vazio interminável da recuperação dos territórios
invadidos dos Palestinos, sem perspectivas de mudanças, a curto prazo”. A Sexta-Feira Santa nos força a
olhar para a fragilidade humana, lembrando que a dor de uma mãe que chora a perda de um filho é a mesma,
independentemente da fronteira ou religião. A Lógica do Poder vs. A Lógica da Entrega: A guerra no
Oriente Médio muitas vezes é alimentada pela busca por domínio e retaliação. A Paixão propõe o
oposto: a interrupção do ciclo de violência através do perdão e do sacrifício pessoal. É um lembrete incômodo
de que a paz exige abrir mão da “razão das armas” em favor da humanidade comum. O Silêncio e a
Esperança: O Sábado de Aleluia que se segue à Sexta-Feira representa o silêncio e a incerteza. Para
muitos no Oriente Médio, a vida é um “eterno Sábado”, uma espera angustiante por um cessar-fogo ou por uma
ressurreição social e política que traga estabilidade. Refletir sobre a Paixão hoje é entender que a
mensagem de “Pai, perdoa-lhes” é um desafio radical para um mundo que ainda prefere a espada à cruz
do diálogo. A relação entre o sofrimento de Cristo (a Paixão) e o sofrimento do povo no Oriente Médio,
especialmente em contextos de guerra, é teologicamente compreendida como uma identificação profunda e
solidária. Na tradição cristã, o sofrimento humano — marcado pela violência, perda e medo — não é visto como
esquecido por Deus, mas como compartilhado por Jesus, que é considerado o “Deus que sofreu”. Alguns
aspectos da relação: do sofrimento do Cristo que sofre com o Oprimido: A teologia da cruz argumenta que,
ao sofrer a morte na cruz, Jesus se solidarizou com todas as vítimas da história. No contexto do Oriente Médio,
líderes religiosos afirmam que os cristãos e o povo que sofrem as consequências da guerra (violência,
deslocamento, morte) estão “partilhando verdadeiramente do sofrimento do Cristo”. A “Humanidade
Crucificada”: O sofrimento atual no Oriente Médio é visto como um reflexo da “humanidade crucificada” hoje,
onde as feridas das vítimas são conectadas às feridas de Cristo. O papa, por exemplo, destaca que as dores
dos povos feridos pela guerra são os “lamentos” que ecoam o sofrimento de Jesus. O Sofrimento como
Consequência da Guerra: As guerras, incluindo as que ocorrem na região onde Jesus nasceu, são vistas
como fruto da “inumanidade” e da “queda humana”, e não como vontade divina. As situações de conflito são
interpretadas como o “princípio das dores” mencionados em Mateus: 24, e não o fim, colocando os fiéis em
um lugar de dor e reflexão. Solidariedade na Oração e na Paixão: Durante a Semana Santa, a Igreja
frequentemente convida à oração especial pelos cristãos e habitantes do Oriente Médio, cujos sofrimentos os
impedem de celebrar a fé, colocando-os diretamente nas orações na “Paixão do Senhor” A Esperança da
Ressurreição: Embora o sofrimento seja intenso, a teologia cristã da cruz não termina na dor, mas projeta uma luz
de esperança (a Ressurreição) sobre o sofrimento atual. A dor vivida no conflito é vista como “temporária”,
enquanto a promessa de glória e paz é eterna. Portanto, para o cristianismo, o sofrimento no Oriente Médio
não é um sinal de ausência de Deus, mas um lugar onde a dor humana se encontra com a dor divina,
buscando conforto, sentido e esperança de paz. Embora, a Sexta-feira da Paixão seja um momento de
profunda reflexão que, mesmo centrado na fé cristã, toca em temas universais de sofrimento e amor,
conectando-se de forma única com as tradições judaica e islâmica, conhecidas coletivamente como religiões
abraâmicas. Algumas Considerações longe da Conclusão: Há uma relação entre essas tradições e o
sofrimento humano neste dia: Cristianismo (Foco na Redenção e Amor): É o dia em que os cristãos relembram
a crucificação e morte de Jesus Cristo. A “paixão” (que significa sofrimento) é vista como um ato
supremo de amor e sacrifício para a salvação da humanidade.
A partir de Hass (2025), “… quanta destruição e morte, quanto ódio dos judeus para com os povos
Palestinos”. É um dia de luto, jejum e oração, onde o sofrimento de Jesus é visto como uma forma de
solidarizar-se com as misérias do mundo, as guerras e conflitos no nosso cotidiano. Judaísmo (Conexão
Histórica e Pessach): A Sexta-feira Santa muitas vezes coincide com a véspera do Pessach (Páscoa
judaica), que celebra a libertação do povo hebreu da escravidão no Egito. Embora o judaísmo não reconheça a
divindade de Jesus, a narrativa compartilha raízes históricas comuns. O sofrimento no judaísmo é entendido
através da aliança com Deus e da história de superação. Islamismo (Sexta-feira como Dia Sagrado): Na
tradição islâmica, a sexta-feira é o dia sagrado semanal, o Jumu’ah, marcado por orações comunitárias. Além
disso, a tradição islâmica ensina que Deus criou Adão na sexta-feira. O sofrimento, na perspectiva islâmica, é
visto como parte do desígnio perfeito de Deus e uma provação que testa a fé, não como algo sem sentido.
Sofrimento Comum à Humanidade: O tema central da Sexta-feira da Paixão atravessa fronteiras religiosas
ao abordar a dor, a morte e a injustiça, experiências comuns a todos os seres humanos. A figura do “Servo
Sofredor” ou a história de um inocente que sofre por amor ao próximo (como Jesus) ressoa como uma
mensagem de solidariedade, resiliência e esperança de redenção diante das tragédias da vida. A desumanização
contemporânea, atingindo desproporcionalmente crianças e jovens. Dados do UNICEF e da ONU revelam que
centenas de crianças morrem mensalmente em ataques diretos, enquanto a infraestrutura civil, incluindo
hospitais e escolas, é sistematicamente destruída, o que pode ser configurado como crime de guerra. A tragédia para
a nova geração manifesta-se em três pilares críticos: Violência Direta e Mutilação: Somente em Gaza, estima-se
que mais de 13.000 crianças tenham morrido desde o início do conflito atual. Além disso, cerca de 21.000
crianças desenvolveram deficiências físicas permanentes devido aos bombardeios. Segundo Sacco (2010), “uma
carnificina proporcionada pelo exército de Israel, contra os povos Palestinos, com a fúria dos ressentidos,
rudes e equivocados, por onde passam vão deixando apenas a sombra da morte”. Colapso de Direitos
Básicos: No Líbano e em Gaza, mais de 700 mil jovens estão sem acesso a água potável, cuidados médicos
ou educação. O deslocamento forçado afeta uma criança a cada cinco segundos na região, expondo-as à
fome e à desnutrição aguda. Trauma e Desumanização Psicológica: Especialistas alertam para “danos mentais
implacáveis”. Quase todas as crianças em zonas de combate precisam de apoio psicológico, com muitas
relatando que sentem que podem morrer a qualquer momento. A desumanização ocorre quando o “outro” deixa
de ser visto como humano, um ciclo muitas vezes ensinado por adultos em conflito. Em síntese, a Sexta-
feira da Paixão celebra a união entre a dor humana e o amor divino no cristianismo, enquanto se alinha
com a importância da sexta-feira no islã e a temática da libertação no judaísmo, criando um diálogo sobre o
sentido do sofrimento na condição humana, ou ainda, o processo da desumanização do humano, para além dos
mandamentos das religiões nas guerras e conflitos da contemporaneidade.
Algumas referências:
Chacra, Guga. – Confinado no front: Notas sobre a nova geopolítica mundial (Edição Amazon/2023).
Coelho, Alexandra Lucas. – Gaza Está em Toda a Parte (Bazar do Tempo, 2025/Caminho, 2025).
Feldman, Ilana. – Explora a experiência palestina de deslocamento e resistência.(Ed.Sasa.2025).
Hass, Amira. – Jornalista israelense que viveu em Gaza, retrata os horrores da invasão judaica.Ed.Zero.2025.
Oliveira, Rafael Domingos. (Org.) – Gaza no coração: história, resistência e solidariedade (Ed. Elefante, 2024).
Pappé, Ilan. – A Limpeza Étnica da Palestina (Clássico sobre o contexto histórico da Nakba). Ed. Cis, 2023.
Pappé, Ilan. – Na sombra do Holocausto: Genocídio em Gaza (Editora da casa/2024).
Sacoo, Joe. – Notas sobre Gaza (2009/2010), analisa os massacres desde (1956), (2010).
Sacoo, Joe. – Guerra em Gaza (Quadrinhos na Cia, previsto para, Ed.Cis., 2025).
Sanbar, Elias.Taam, Flavio.– A última Guerra?: Palestina, outubro de 2023 – abril de 2024 (Amazon/Ed., 2024).
Said, Edward. – A Questão da Palestina (Edições históricas, relevante para contexto histórico).Ed.Cis.2023
Shehadeh, Raja. – Escritor palestino que narra a vida na Cisjordânia sob ocupação Ed. Zero, 2025.
Sobre: Introdução abrangente da história da região, desde o Pré-Islã até as rebeliões árabes e o conflito Israel-
Palestina, com edição revisada sobre a Síria e o Iêmen. Notas sobre Gaza – Joe Sacco , ed. (2021).
Sobre: Obra de jornalismo em quadrinhos que investiga episódios esquecidos do conflito na Faixa de Gaza. A
Segunda Guerra Fria: Geopolítica e dimensão estratégica dos EUA – Luiz Alberto Moniz Bandeira (Ed. Civ. Brasileira,
2015).
Sobre: Analisa o impacto da Primavera Árabe e a política dos Estados Unidos no Oriente Médio.2. Sexta-feira Santa
e Paixão de Cristo A Dolorosa Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo – (Nova terra Editora, 2017).
Sobre: Relatos detalhados baseados nas visões da beata sobre os últimos dias de Jesus, amplamente
estudado na tradição católica. O Poder da Cruz – Raniero Cantala messa (Edições Loyola, 1996).
Sobre: Reflexões do Pregador da Casa Pontifícia sobre o significado teológico e espiritual da morte e ressurreição,
baseadas em sermões da Sexta-Feira Santa, Desvendando o mistério da Última Ceia e da Scott Hahn, (Qa.Ed.,
2025).
Sobre: Explora a conexão entre a Última Ceia e a Sexta-Feira Santa, explicando as raízes judaicas da
Eucaristia. As Últimas Palavras de Jesus: Acreditar na Glória – Jon Meacham (Ed. Farol, 2021).
Sobre: Combina teologia e história para analisar as sete frases de Jesus na cruz, focando no significado da
fé cristã. Sermões do primeiro domingo do Advento à Sexta-feira Santa – São João Maria Vianney (Paulus Editora,
2021).
**contribuição do Professor DsC. Dirlêi A Bonfim, Doutor em Desenvolvimento Econômico e Ambiental,
Professor de Sociologia da SEC/BA**E no Curso/Plano de Formação Continuada
SEC/IAT/BA.**04/2026.**
