Vereador do PL diz que “estudar não deveria ser para todo mundo”
Há 94 anos, governo incinerava estoques de café diante da crise de 29
Medida de Vargas tentou sustentar preços após o colapso da Bolsa de Nova York e selou o fim da “república do café com leite”.
Em 13 de junho de 1931, o cheiro de café queimado invadiu o litoral paulista. No porto de Santos, a fumaça espessa de milhões de sacas incineradas anunciava uma tentativa drástica do governo provisório de Getúlio Vargas de frear a derrocada econômica provocada pela crise mundial iniciada em 1929.
O plano era conter a queda vertiginosa dos preços internacionais do café, que já havia perdido 90% de seu valor em apenas um ano. O produto, que representava mais de 70% das exportações brasileiras, era a espinha dorsal de uma economia ainda rudimentar e dependente de commodities. A alternativa encontrada: eliminar o excesso de oferta com fogo.
A crise que incendiou a economia
Após a quebra da Bolsa de Nova York, em outubro de 1929, o consumo internacional despencou. A crise se alastrou para além dos Estados Unidos e atingiu diretamente o Brasil, que dependia da exportação de produtos como café, cacau, algodão e borracha. A derrocada selou também o fim da chamada “república do café com leite”, dominada pelas elites políticas de São Paulo e Minas Gerais.
Sem crédito no exterior e com estoques abarrotados de grãos encalhados, o governo passou a administrar diretamente a política cafeeira. Em maio de 1931, Vargas retirou a responsabilidade do Instituto do Café do Estado de São Paulo e criou o Conselho Nacional do Café, com representantes dos estados produtores.
Café como lenha
A dimensão da crise era tamanha que chegou-se a cogitar o uso do café como combustível. De fato, locomotivas foram abastecidas com os grãos. Em 1932, uma composição de 610 toneladas rodou durante duas horas movida a 2,9 toneladas de café verde. Já em Santos, trabalhadores portuários despejavam os grãos no mar, prática que logo foi proibida. Ainda assim, parte da carga era recolhida, seca e revendida ilegalmente.
Entre 1931 e 1944, o Brasil destruiu 78,2 milhões de sacas de café. Somente em 1937, cerca de 70% dos estoques foram queimados. Em média, um quarto da produção anual virou fumaça durante esse período. Apesar dos esforços, a medida pouco impediu a falência de cafeicultores endividados e sem acesso a crédito.
Lições e paralelos
Quase um século depois, as exportações nacionais de café voltam a enfrentar ameaças: não mais por falta de consumidores, mas por precariedade da infraestrutura de transporte. Em 2024, o colapso logístico impediu a exportação de 1,83 milhão de sacas de café. O prejuízo estimado chegou a R$ 51,5 milhões. Nos primeiros quatro meses de 2025, o problema persistia. 738 mil sacas encalhadas e R$ 22 milhões em perdas.
A situação atual evidencia um contraste gritante. Enquanto antes se queimava café para controlar os preços, hoje perde-se café por falta de estrutura ferroviária e portuária para escoá-lo. A incapacidade do Estado em dar conta da demanda portuária ameaça a competitividade do agronegócio e reproduz, com outros contornos, os gargalos históricos da economia brasileira.

Símbolo do improviso
As chamas de 1931 foram símbolo de improviso, desespero e voluntarismo. A medida de Vargas visava salvar a economia à custa de um produto que simbolizava o próprio Brasil, inclusive visualmente: desde o período imperial, o ramo de café é parte do brasão de armas nacional.
A memória dessa política extrema permanece como alerta. Decisões econômicas apressadas, ainda que embasadas em boas intenções, podem ter efeitos duradouros e controversos.
Setenta anos depois da última grande queima, os desafios de infraestrutura, planejamento e coordenação entre entes federativos persistem. A história do café queimado é, também, a história de uma economia que ardeu por não saber como se reinventar.