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A pedido de Alcolumbre, Beto Louco pagou R$ 2,5 milhões por show de Roberto Carlos, diz revista
Investigado na operação Carbono Oculto, por elo da Faria Lima com o PCC, Beto Louco teria apresentado provas contra Alcolumbre e outros políticos do Centrão em proposta de delação premiada na PGR.
Um dos principais alvos da operação Carbono Oculto, que investiga a ligação entre Faria Lima, política e Primeiro Comando da Capital, o PCC, Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, afirma ter desembolsado R$ 2,5 milhões a pedido do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), para bancar um show de Roberto Carlos em Macapá no dia 28 de dezembro de 2024.
A informação – e as provas da negociata criminosa – estaria na proposta de delação feita por Beto Louco à Procuradoria-Geral da República (PGR), segundo reportagem de Breno Pires, João Batista Jr. e Arthur Guimarães, publicada na revista Piauí neste sábado (13).
A proposta de delação de Beto Louco, acusado de comandar um esquema de lavagem de dinheiro para o PCC, estaria sendo negociada pela sua defesa, que tem à frente o advogado Celso Villardi, o mesmo que participa da banca que defendeu Jair Bolsonaro (PL) no julgamento da tentativa de golpe.
Ao lado de Mohamad Hussein Mourad, o Primo, Beto Louco era responsável pela gestão da Copape e da Aster, utilizadas em fraudes fiscais, falsificação de documentos e lavagem de dinheiro para a facção criminosa, segundo a investigação da PF.
A dupla seria responsável ainda pelo lobby junto ao grupo político que dava suporte ao esquema. Por esse motivo, o acordo de delação tem apavorado os bastidores do poder, em Brasília, especialmente entre políticos do Centrão e da base bolsonarista. Além de Alcolumbre, Beto Louco cita na proposta Antonio Rueda, presidente do União. Ciro Nogueira, presidente do PP, também estaria entre os nomes negociados com a PGR.
Muitas emoções
Segundo a reportagem da Piauí, Beto Louco teria dito que negociou pessoalmente, em reunião no gabinete de Alcolumbre no Senado no dia 20 de dezembro de 2024, o desembolso de R$ 2,5 milhões para levar Roberto Carlos à capital Amapaense, após dois patrocinadores do show recuarem há 8 dias da apresentação do artista.
O líder do esquema do PCC teria pedido em troca que Alcolumbre pressionasse para reverter decisão da Agência Nacional do Petróleo (ANP), que havia proibido a Copape de produzir combustível, alegando “perseguição regulatória”.
À época, o governo Lula havia indicado dois nomes para integrar a ANP, que deveriam passar por sabatina no Senado. A questão teria sido levantada por Beto Louco, para que Alcolumbre exercesse sua influência naquele momento.
O presidente do Senado, então, teria acertado o acordo e pediu a Beto Louco para procurar “Cleverson”, identificado pela reportagem como Kleryston Pontes Silveira, que empresaria nomes como Xand Avião, Zé Vaqueiro, Nattan e Mari Fernandez.
Segundo documentos apresentados à PGR, Beto Louco prova que enviou o dinheiro em duas parcelas de R$ 1,25 milhão: uma conta da CINQ Capital Instituição de Pagamentos, no Banco do Brasil, e outra da QIX Transportes Logística Ltda, na Sicredi.
Após realizar os depósitos, Beto Louco ligou para Alcolumbre. Como a ligação estava falhando, o senador teria respondido com a mensagem: “tamo junto sempre!”. Em seguida, em nova mensagem, o político enviou emoji de mãos em prece com um “muito obrigado”.
Em nota à Piauí, Alcolumbre diz que “não mantém relação comercial ou empresarial com os citados” e que “é fato público que o presidente Davi sempre buscou, de forma institucional, correta e transparente, apoio de empresas para iniciativas que fortalecem a cultura e geram empregos no Amapá”.
“O presidente do Senado repudia de forma categórica qualquer tentativa de associá-lo a atos ilícitos, denuncia a distorção dos fatos e reafirma seu compromisso inegociável com a lei e com a verdade”, diz ainda o texto, que ignorou perguntas feitas pela reportagem.
Mounjaro
Reportagem recente de Fábio Serapião, no portal Uol, revelou ainda que Beto Louco providenciou a entrega de canetas de Mounjaro — medicamento usado para emagrecimento então restrito e vendido no mercado paralelo — ao senador Davi Alcolumbre.
As mensagens analisadas são de agosto de 2024, período em que Alcolumbre despontava como principal nome para suceder Rodrigo Pacheco na presidência do Senado. Naquele momento, o uso do Mounjaro para emagrecimento ainda não era autorizado pela Anvisa — a liberação ocorreria apenas em junho de 2025.
Por causa da restrição, o medicamento circulava principalmente no mercado paralelo, com preços em torno de R$ 15 mil por mês de tratamento. A obtenção costumava envolver viajantes frequentes ao exterior ou intermediários especializados.
Um dia antes das conversas, em 5 de agosto, Alcolumbre e Beto Louco participaram de um almoço na casa de Antonio Rueda, presidente nacional do União Brasil, em Brasília, para celebrar seus 49 anos. Segundo relato feito ao UOL, o senador comentou com os presentes a dificuldade que ele e outros parlamentares enfrentavam para comprar as canetas de Mounjaro no Brasil.
Beto Louco então afirmou ter acesso ao medicamento por meio de uma mulher chamada Franciele, que viajava com frequência a Dubai e trazia unidades ao país. Ele prometeu ao senador providenciar as canetas rapidamente.
Nas conversas do dia 6 de agosto, o empresário avisa a um motorista particular de Brasília — que pediu ao UOL para não ser identificado — que precisará de seus serviços para buscar um “medicamento” que chegaria à capital com um contato vindo em voo comercial. O motorista demonstra familiaridade com o contexto e pergunta: “É para o Davi?”.
Mais tarde, às 22h41, o motorista encaminha a Beto Louco uma mensagem de Janduí Nunes Bezerra Filho, então motorista pessoal de Alcolumbre e hoje auxiliar parlamentar sênior do gabinete, com salário bruto de R$ 14,5 mil. No áudio, Janduí afirma:
“Fala pra ele que tá entregue, tá tudo ok. O senador já tá até sabendo. Dei um jeito de falar com ele aqui que recebi, já tá entregue.”
Quatro minutos depois, Beto Louco agradece ao motorista pela entrega.
Em conversa gravada com o UOL, Janduí confirmou ser o autor do áudio, disse lembrar da entrega e afirmou conhecer o motorista que intermediou o trabalho para o empresário.
