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A (I)mobilidade urbana de Vitória da Conquista: via de mão única?
O assunto mobilidade urbana, pouco abordado no passado de nosso país, cujas cidades permitiam o deslocamento com certa facilidade e em um curto espaço de tempo, ganha importância e incita debates, na medida em que o crescimento dos municípios traz consequências delicadas à locomoção urbana. A regulamentação do tema data de aproximadamente uma década. Com o Estatuto das Cidades (Lei 10.257/2001), municípios com mais de 500 mil habitantes foram obrigadas a elaborar um plano de transporte urbano integrado compatível com o Plano Diretor. Em 3 de janeiro de 2012 foi sancionada a Lei 12.587 que instituiu as diretrizes da política nacional de mobilidade urbana e impôs aos municípios com mais de 20 mil habitantes o prazo de três anos para elaborar seus planos, sob pena de não receber mais recursos federais destinados à mobilidade. Entretanto, apesar das referidas leis, as cidades brasileiras não dispõem de infraestrutura adequada à mobilidade de seus cidadãos.
A cidade de Vitória da Conquista merece especial atenção no tocante a esse problema. Lamentavelmente, o projeto de expansão urbana padrão do município pauta-se no aproveitamento das vias de transporte já existentes e apenas depois de consolidados os malefícios de tal estratégia é que se cogita a construção de novas vias. Depois de instalado o problema, é lógico que são gerados gastos públicos superiores aos que teríamos (sim, porque somos nós os pagadores!) se tais obras fossem realizadas com zelo e planejamento.
Tomemos por exemplo a construção dos conjuntos habitacionais de luxo Reserva Imperial na zona sul do município (sentido Ilhéus) e Alphaville na área nordeste (sentido Barra do Choça), com previsão de 1.200 e 1.034 residências, respectivamente. A implementação de tais empreendimentos implica, pois, na necessidade de circulação de seus moradores e, por certo, dificilmente os moradores farão uso do transporte público. Assumindo que o trabalhador realiza duas viagens de ida e volta diárias entre residência e trabalho, o Reserva Imperial representaria um acréscimo de aproximadamente 4.800 veículos trafegando no sentido sul, através de uma única avenida: a Juracy Magalhães. Do outro lado, cerca de 4.136 veículos trafegariam pela estrada Conquista-Barra do Choça diariamente, numa estrada que a grosso modo não permite duplicação, posto que sequer acostamento possui.
Essa breve análise é feita apenas encima dos veículos particulares, mas não se pode desconsiderar que o Poder público também vem construindo moradias populares nas cercanias dos condomínios fechados e de luxo, aproveitando a leva de expansão urbana. E para este público, não necessariamente proprietário de veículos particulares, resta o transporte público, o ônibus sem manutenção e sem escala de horários a contento, uma alternativa de transporte cada vez mais sucateada face à ausência de firmeza da prefeitura na exigência de um serviço concessionado de qualidade. De qualquer modo, o tráfego de ônibus, que idealmente mereceria uma faixa exclusiva, pede também a adaptação estrutural ante a expansão urbana. Mas as vias de transporte existentes não acompanham o ritmo das novas construções. Nesse particular, caso não haja abertura de novos corredores, o abastado ficará estressado em seu carro do ano e o pobre do proletariado, além de estressado vai suar e chorar mais no seu sofrimento cotidiano dentro dos engarrafados ônibus de Vitória da Conquista.
O crescimento de Conquista é irreversível e muito bem-vindo, todos concordamos. Porém, ante a desordem que a imobilidade urbana causa na vida dos cidadãos, é preciso planejar a expansão urbana com responsabilidade, dando especial destaque à infraestrutura, fundamentalmente nos corredores de transporte, o que fica a cargo do poder público.
