Moraes diz que Mendonça liberou só o “conveniente” e omitiu 180 peças
Documentos do caso Master ligam Dark Horse ao PCC
Investigações revelam esquema envolvendo o Banco Master, a gestora REAG, o senador Flávio Bolsonaro e recursos do crime organizado.
Documentos cujo sigilo foi retirado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) revelam que a produção do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL), teria sido financiada por meio de um complexo esquema de desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC), informa reportagem do site O Cafezinho. O levantamento do segredo de justiça da Petição 15.556 — investigação principal da Operação Compliance Zero —, assim como de procedimentos conexos sob a relatoria do ministro André Mendonça, ocorreu após cobrança pública do presidente Lula (PT) por total transparência nas apurações da Corte e pedido direto do presidente do Supremo, ministro Edson Fachin.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, sustentava publicamente que os valores destinados ao projeto audiovisual eram 100% privados. No entanto, as investigações do STF e da Polícia Federal indicam a possível presença de verbas originadas de fundos de previdência estaduais e municipais, geridos pelo Banco Master, além de capital proveniente do crime organizado e emendas parlamentares.
Conexão entre o Banco Master, Reag e o PCC
As apurações da Operação Carbono Oculto, conduzida pela Polícia Federal, identificaram a aquisição de créditos de carbono como mecanismo de fachada utilizado pela facção criminosa para movimentar bilhões de reais. A mesma tática foi localizada na estrutura patrimonial do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.
Em decisão proferida em 2 de março no Inquérito 5.026, o ministro André Mendonça registrou que o Banco Master movimentou cerca de R$ 2,8 bilhões em operações de câmbio direcionadas a uma empresa suspeita de lavar capitais para o PCC. O montante total das fraudes sob apuração na Operação Compliance Zero pode alcançar R$ 17 bilhões.
O elo entre os recursos do banco e o patrimônio mantido pela família Vorcaro operava por meio da gestora Reag. Em janeiro, na Petição 15.198, o relator detalhou que o Banco Central notificou o Ministério Público sobre indícios de ilícitos envolvendo a gestora e a instituição financeira, acompanhados de um fluxograma dos fundos de investimento utilizados nas transações. O bloqueio judicial solicitado no âmbito desse processo atinge R$ 5,77 bilhões.
Diante do bloqueio, a defesa de Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, requereu ao STF a liberação de contas mantidas na gestora. Conforme registrado na decisão de 29 de maio, os advogados alegaram que os ativos não possuíam liquidez imediata por estarem “vinculados a ativos de créditos de carbono pendentes de realização”. A Procuradoria-Geral da República (PGR) manifestou-se contra a liberação, assinalando que a definição sobre a origem dos valores constitui o objeto central da investigação, o que levou o ministro Mendonça a indeferir o pedido e manter a constrição dos bens.
Negociações para o filme de US$ 24 milhões
O despacho assinado por Mendonça em 12 de julho detalhou as tratativas para o financiamento da produção cinematográfica. Com base em apurações do Intercept Brasil, o magistrado anotou que Flávio Bolsonaro negociou de forma direta com Daniel Vorcaro o repasse de US$ 24 milhões (equivalente a aproximadamente R$ 134 milhões) para a realização da cinebiografia.
Registros obtidos no aparelho celular de Vorcaro revelam “cobranças incisivas por parte do Senador para a liberação dos recursos”. Além dos contatos remotos, o documento aponta que, no final de 2025, enquanto Vorcaro cumpria prisão domiciliar, Flávio Bolsonaro esteve pessoalmente na residência do banqueiro, localizada em São Paulo. A visita, revelada inicialmente pelo jornalista Igor Gadelha, do portal Metrópoles, foi posteriormente confirmada pelo parlamentar ao jornal O Globo.
As notícias-crime relativas ao senador foram autuadas pelo relator em procedimentos separados, a exemplo da Petição 16.292, que permanece sob sigilo. Em outra frente de apuração, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, citou em decisão de 9 de setembro um procedimento sob a responsabilidade do ministro Flávio Dino, destinado a investigar o “suposto direcionamento de emendas parlamentares” para o financiamento da obra “Dark Horse”.