“Irmão”: Vorcaro trata Cláudio Castro de forma íntima como Flávio Bolsonaro em novas mensagens obtidas pela PF
“Canta demais. Arrebentou”, escreveu Vorcaro ao ver vídeo. “Você é meu amigo. Não conta. Hahahaha”, respondeu, de forma graciosa, Cláudio Castro. PF avança sobre grupo político comandado por Flávio Bolsonaro após apreensão de 5 celulares do ex-governador.
Novas mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF) revelam que Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, mantinha com Cláudio Castro (PL-RJ) a mesma intimidade das conversas com Flávio Bolsonaro (PL-RJ), tratando ambos como “irmãos”.
As mensagens, divulgadas pelo site G1, da Globo, foram extraídas de celulares de Vorcaro e também do ex-governador fluminense, alvo de duas operações em 11 dias, dos casos Master e Refit, que fizeram com que ele desistisse da candidatura ao Senado.
Conforme a Fórum antecipou, a PF apreendeu ao menos cinco celulares durante os mandados de busca na cobertura de luxo onde o ex-governador mora, na Barra da Tijuca. A devassa no conteúdo dos aparelhos deve desnudar de vez a ação do grupo político comandado por Flávio Bolsonaro e o tráfico internacional de fuzis, principalmente AK-47 e AR-15, que municiava a guerra entre traficantes e polícia no Rio de Janeiro.
As novas mensagens mostram que Vorcaro enviava convites frequentes para festas a Castro, que era tratado como “meu irmão” pelo banqueiro – o mesmo tratamento dispensado ao filho “01” de Jair Bolsonaro (PL), conforme revelou o site The Intercept Brasil.
“Fala, meu irmão. Tudo bem? Vamos nos ver essa semana algum dia. Amanhã vou fazer uma feijoada, se puder ir com a esposa”, escreveu Vorcaro a Castro em 1º de março de 2025, durante o Carnaval.
“Fala, irmão. Manda o endereço que vou sim. Te dou um abraço lá”, respondeu o então governador fluminense, convidado também para um churrasco três dias depois “na casa” de Vorcaro.
Bife de ouro e “canta demais”
Outro diálogo revela o convite de Vorcaro a Castro para um regabofe em Nova York no restaurante Nusr-Et Steakhouse, do chefe turco conhecido nas redes como Salt Bae por servir cortes de carnes revestidos de folhas de ouro 24 quilates.
“Você não existe. Qual o nome do restaurante mesmo?”, diz Castro ao responder o contato do banqueiro, que responde com o nome do restaurante.
Castro, que foi cantor católico antes de entrar definitivamente para a política, também recebeu elogios do amigo quando resolveu soltar a voz novamente em um vídeo publicado nas redes sociais.
“Canta demais. Arrebentou”, escreveu Vorcaro. “Você é meu amigo. Não conta. Hahahaha”, respondeu o governador, de forma graciosa.
“Vínculo pessoal estreito”
a decisão em que deu aval ao desencadeamento da oitava fase da Operação Compliance Zero, que cumpriu mandados de busca e apreensão na cobertura do ex-governador Cláudio Castro (PL) na Barra da Tijuca, no Rio, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirma que o aliado do clã Bolsonaro tinha “vínculo pessoal estreito com o controlador do Banco Master”, Daniel Vorcaro.
“Segundo a representação, a atuação do ex-Governador não se limitou a contatos institucionais, mas envolveu vínculo pessoal estreito com o controlador do Banco Master, caracterizado por encontros frequentes, inclusive em ambientes privados e no exterior, custeados pelo banqueiro, com elevada coincidência temporal em relação aos aportes bilionários do RioPrevidência”, diz Mendonça.
Segundo o ministro, “esse relacionamento teria viabilizado o alinhamento político necessário para a liberação dos investimentos, bem como a nomeação estratégica de dirigentes do RioPrevidência em cargos-chaves (Presidência, Diretoria de Investimentos e Gerência de Investimentos), assegurando que as decisões de credenciamento e de aplicação de recursos previdenciários fossem conduzidas em desconformidade com a política de investimentos e com as normas regulatórias, mas em consonância com os interesses do Banco Master. Os indícios apontam, ainda, para a continuidade das aplicações mesmo diante de alertas formais de órgãos de controle e pareceres técnicos desfavoráveis, viabilizando-se a manutenção do fluxo de recursos públicos para operações classificadas como temerárias e desprovidas de justificativa técnica”, segue o ministro.
A decisão afirma ainda que conversas encontradas no celular de Vorcaro indicam que a liberação de determinados investimentos dependia de alinhamento político com o ex-Chefe do Executivo estadual.
Segundo informações da Polícia Federal, Castro teria transferido cerca de R$ 3 bilhões ao grupo Master. O dinheiro teria saído principalmente do caixa da Rioprevidência, o fundo que gere os benefícios de 235 mil aposentados e pensionistas do estado.
Celulares e o elo de Flávio com o CV
As duas ações da Polícia Federal (PF) contra Cláudio Castro (PL-RJ) em 11 dias, ligando o ex-governador ao caso Refit e ao escândalo do Banco Master, acendeu um alerta vermelho na campanha de Flávio Bolsonaro, que vê as investigações avançarem sobre o elo dele próprio e de seu grupo político com lideranças do Comando Vermelho (CV), especialmente no fornecimento de fuzis, vindos dos EUA, para a facção criminosa.
Nas ações de busca e apreensão na cobertura de luxo de Castro, avaliada em mais de R$ 5 milhões, agentes federais apreenderam cinco telefones celulares. A devassa no conteúdo dos aparelhos deve desnudar de vez a ação do grupo político comandado por Flávio Bolsonaro e o tráfico internacional de fuzis, principalmente AK-47 e AR-15, que municiava a guerra entre traficantes e polícia no Rio de Janeiro.
Especialistas no combate às facções criminosas, como PCC e CV, como o promotor Lincoln Gakyia, do Ministério Público de São Paulo, e Mário Sarrubo, ex-secretário Nacional de Segurança Pública, afirmam que a medida anunciada pelo governo Donald Trump, de classificar as facções brasileiras como organizações terroristas, podem blindar aliados do presidente dos EUA, especialmente o clã Bolsonaro, dessas investigações.
Com a classificação, o tema sai da esfera de instituições como o DEA (Drug Enforcement Administration (Agência Antidrogas dos Estados Unidos) e FBI, que tinham acordos de colaboração com a PF e outros órgãos brasileiros, e vira assunto de defesa, caindo na alçada dos militares e da CIA, a agência de Inteligência estadunidense, que são subordinadas à Casa Branca, ocupada por Donald Trump.
O travamento da colaboração de órgãos nos EUA, no entanto, não deve impedir que a PF chegue ao grupo político que dá sustentação às facções, em conluio com as fintechs da Faria Lima. Os cinco celulares apreendidos com Castro devem expor a teia que liga traficantes como Gabriel Dias de Oliveira, o “Índio do Lixão”, chefe do Comando Vermelho, o ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Joias, o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar, ao grupo político comandado por Flávio Bolsonaro.
Preso em setembro de 2025, TH Joias aparece em vídeo íntimo com Índio do Lixão, e em fotos sobre montanhas de dinheiro. Os dois seriam os responsáveis pela receptação dos fuzis ao Comando Vermelho.
TH Joias, segundo a PF e a Polícia Civil do Rio, usava o mandato e a blindagem do presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, para atuar como uma espécie de parlamentar do CV, defendendo os interesses da organização criminosa.
Em março, a PF indiciou o ex-Secretário Estadual de Esportes do Rio de Janeiro, Alessandro Pitombeira Carracena, aliado de Flávio Bolsonaro no governo Castro.
À época, o então secretário do Consumidor, Gutemberg Fonseca, que deixou o cargo em abril para se candidatar a deputado federal pelo PL, tomou à frente e disse que a indicação de Carracena foi responsabilidade dele – e não de Flávio Bolsonaro.
Tratado como porta-voz de Flávio Bolsonaro e investigado por ser o elo do chamado “corredor do Rio”, uma ponte entre o Palácio da Guanabara e o ex-governo Bolsonaro – que passava pelo gabinete do senador – para defender interesses de Ricardo Magro, Fonseca teria se reunido com o traficante do Comando Vermelho, que cobrava indicações de cargos.
O nome do porta-voz de Flávio Bolsonaro aparece em mensagens interceptadas pela PF em que Luiz Eduardo Cunha Gonçalves, o Dudu, assessor do ex-deputado TH Joias, marca uma reunião de Fonseca com Índio do Lixão.
Com os celulares de Castro nas mãos, a PF deve chegar a todos os nomes do grupo político que dava sustentação e municiava, com fuzis, o Comando Vermelho. E desencadear novas operações, que devem ter como alvo aliados ainda mais próximos de Flávio Bolsonaro, como Gutemberg Fonseca.
