A Política do Artifício: O Fenômeno “Quinho” e a Degradação do Cenário Baiano
O cenário político da Bahia assiste, com uma mistura de perplexidade e desdém, à ascensão de figuras cuja relevância não se baseia na competência administrativa, mas na sutil e persistente arte da lisonja. José Henrique Silva Tigre, amplamente conhecido pela alcunha de Quinho, ex-prefeito de Belo Campo e ex-presidente da UPB (União dos Municípios da Bahia), tornou-se o arquétipo desse comportamento: o político que substitui o projeto de estado pela conveniência do privilégio.
A Engenharia do Poder e a Invasão de Vitória da Conquista
Egresso de um município de apenas 18 mil habitantes, Quinho parece sofrer de um descompasso entre sua entrega real e sua ambição. Seu projeto “visionário” de comandar Vitória da Conquista — cidade de importância histórica e econômica vital para o Nordeste — soa como um acinte à tradição política local. A tentativa de transpor um modelo de gestão paroquial para uma metrópole regional revela uma desqualificação que a liturgia do cargo não deveria permitir.
O “Passo de Mágica” Eleitoral
A estratégia de expansão familiar é o exemplo mais nítido de seus métodos. A transferência estratégica do domicílio eleitoral de sua esposa Léa , para Vitória da Conquista, culminando em sua eleição como vereadora com cerca de 4.000 votos, ainda é cercada por nuvens de controvérsia. No xadrez político, o resultado foi visto como fruto de influências que muitos classificam como “duvidosas”, utilizando-se de uma estrutura que prioriza o êxito familiar em detrimento do debate democrático saudável.
A Ciranda dos Municípios
Nessa ciranda de domicílios, Quinho encarna o Macunaíma da política baiana: o herói sem nenhum caráter — nem ideológico, nem ético. Tal qual o personagem de Mário de Andrade, ele é um mutante que troca de forma e de cidade ao sabor do apetite pelo poder. Se o herói folclórico buscava a Muiraquitã perdida, o “ex-cacique” de Belo Campo persegue a capitania hereditária do voto, tratando o eleitorado de Conquista como uma maloca a ser explorada e a democracia como uma brincadeira de conveniência.”
A Sombra dos Gigantes e o Papel de “Porta-Voz”
Filiado ao PSD (Partido Social Democrático), Quinho agora pavimenta seu caminho rumo à Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA). Para isso, utiliza uma retórica de proximidade quase umbilical com nomes de peso: diz-se “irmão” do ministro Rui Costa, íntimo do senador Otto Alencar e interlocutor frequente do governador Jerônimo Rodrigues.
Ao comportar-se como um “porta-voz oficioso”, antecipando obras e investimentos do governo estadual, ele não apenas quebra protocolos, mas tenta cooptar lideranças locais através de uma promessa de acesso facilitado às verbas públicas — uma prática que esvazia a autonomia dos municípios em troca de submissão política.
O Silêncio dos Clássicos e a Realidade Deplorável
Se revisitarmos os pilares do pensamento político, a frustração é inevitável. De Aristóteles, que via a política como a busca do bem comum, a Hannah Arendt, que alertava sobre o perigo do esvaziamento da esfera pública, nenhum filósofo previu um cenário onde o “bajulador de plantão” teria tanto espaço. Vivemos a era da política inexpressiva, onde o apoio de lideranças nacionais serve de muleta para candidatos incapazes.
A última eleição para o Executivo Federal criou uma onda que carregou consigo figuras sem estofo técnico. Contudo, o tempo é o senhor da razão. Espera-se que, no próximo pleito, o eleitorado baiano saiba distinguir entre quem tem serviços prestados e quem possui apenas uma agenda de contatos e uma disposição infinita para a lisonja.
