Entre o cuidar e o soltar: os novos contornos da relação entre mães e filhos
Patroa espanca violentamente doméstica grávida de 6 meses no Maranhão
Em caso brutal, mulher mandou áudio para amiga contando com júbilo as torturas que cometeu contra a jovem, que era acusada de furtar um anel. No fim, anel estava no cesto de roupas
Uma história de horror e barbárie absoluta choca o Maranhão desde que veio à tona e expõe as feridas abertas das relações de trabalho doméstico no Brasil. A Polícia Civil investiga um caso de tortura e agressão brutal contra uma jovem de 19 anos, identificada como Samara, que está grávida de quase seis meses. O crime ocorreu em uma residência no município de Paço do Lumiar, na Região Metropolitana de São Luís, onde a vítima trabalhava havia pouco tempo. O objetivo de Samara era simples e digno: ela aceitou o contrato temporário de apenas um mês para conseguir o dinheiro necessário para comprar o enxoval do bebê que espera. No entanto, o sonho da maternidade foi transformado em um pesadelo de dor sob as mãos de sua então patroa, Carolina Sthela Ferreira dos Anjos.
O estopim para a violência desmedida foi a acusação do sumiço de um anel. Sem qualquer prova, Carolina decidiu instaurar um tribunal de exceção dentro de sua própria casa, agindo com um sadismo que chocou até mesmo os investigadores. Em áudios exclusivos obtidos pela TV Mirante, afiliada da TV Globo no Maranhão, a agressora narra o crime com um tom de celebração e deboche que revela a total ausência de empatia. “Quase uma hora essa menina no massacre, e tapa e murro e pisava nos dedos. Tudo que vocês imaginarem de doidice, era eu e ele fazendo”, jactou-se Carolina em mensagens enviadas a um grupo de amigos, detalhando o “júbilo” de torturar uma mulher grávida.
O “tribunal do crime” doméstico e a arma na boca
A crueldade foi meticulosamente planejada. Na manhã do dia 17 de abril, Carolina convocou um comparsa, ainda não identificado, para ajudá-la na coerção. Em seus relatos gravados, ela descreve a chegada do cúmplice armado: “Eu acordei era 7h30. Aí eu (disse): ‘Samara, arruma logo essa cozinha’, que eu também não sou besta, ‘que eu vou receber um amigo meu aqui em casa’. Aí ele chegou e eu disse ‘entra, amigo’. Ele já veio com uma jumenta de uma arma, chega brilhava”.
Sob o pretexto de uma conversa casual, a armadilha foi armada. A patroa confrontou a jovem de forma intimidadora: 2Samara, faz favor, vem cá. Ontem sumiu meu anel, você sabe, né? Aqui não entrou ninguém de fora, só a gente, a única pessoa estranha é você. E meu anel não tem perna e nem asa pra andar voando. Então eu quero que você vá pegar meu anel de onde você botou, pra gente não ter problema”. A partir desse momento, o que se seguiu foi uma sessão de tortura psicológica e física.
Carolina detalhou como o homem armado agiu para extrair uma confissão inexistente, usando a arma para aterrorizar a gestante: “Puxou a bicha, botou assim, tirou a touca da cabeça dela, pegou no cabelo, botou ela de joelho, puxou a bicha e botou na boca dela. ‘Eu acho bom tu entregar logo esse anel, onde é que tá? Tá aqui? Bora brincar de quente ou frio. Tá aqui em cima, tá aqui embaixo?’ Aí onde ele ia apontando, botava a cabeça dela se tava”.
Sadismo persistente: agressão após o objeto ser achado
A investigação aponta que a tortura durou mais de uma hora. Samara foi obrigada a procurar o objeto pelos cômodos enquanto era espancada. O desfecho da busca provou a inocência da jovem e a precipitação criminosa da patroa: o anel foi encontrado dentro do banheiro de Carolina, em um cesto de roupas sujas da própria agressora. Mas, para o horror da vítima, a localização da joia não encerrou o suplício.
Insuflada por um ódio inexplicável, Carolina continuou o espancamento mesmo após o mal-entendido ser resolvido. “Tapa e tapa, menina, dei. Gente, eu dei tanto que minha mão tá inchada. Até hoje meu dedo chega tá roxo”, confessou a mulher nos áudios, chegando ao absurdo de dizer que a jovem “era para ter ficado com mais hematomas” e que “não era pra ter saído viva”. Samara relatou à polícia que, além dos socos e chutes, recebeu uma coronhada na testa, marca que ficou nítida nas fotos tiradas para o exame de corpo de delito na Casa da Mulher Brasileira.
Reincidência e o perfil da agressora
Este não é o primeiro mergulho de Carolina Sthela em águas criminosas. A Polícia Civil revelou que a suspeita acumula mais de dez processos judiciais, muitos deles envolvendo agressões e acusações caluniosas contra funcionárias. Em 2024, ela já havia sido condenada por um caso idêntico envolvendo uma babá, a quem acusou de furtar uma pulseira de ouro. Naquela ocasião, Carolina olhou as câmeras de segurança, viu que não havia crime, mas seguiu com as ameaças. Ela foi condenada a pagar R$ 4 mil por danos morais e a seis meses de prisão em regime aberto, pena que foi brandamente substituída por serviços comunitários, uma punição que, evidentemente, não surtiu efeito pedagógico.
A ex-babá Sandila Souza, que também denunciou Carolina no passado, relatou que a patroa costumava pagar os serviços através de contas de terceiros para evitar rastreios e que a indenização por danos morais nunca foi paga. “Ela ia falar que eu tinha roubado a pulseira do filho dela. Eu falei ‘eu não roubei’, mas se você quiser ir na delegacia pode ir, que as câmeras nunca ficam desligadas”, relembrou Sandila sobre o modus operandi da agressora.
Atualmente, a Comissão de Direitos Humanos da OAB-MA acompanha o caso de Samara e prepara um dossiê sobre o histórico de Carolina. Em nota enviada à imprensa, a suspeita afirmou que as graves denúncias são apenas uma “distorção do que realmente aconteceu”. Entretanto, diante da materialidade das lesões na gestante de 19 anos e da confissão detalhada e jocosa nos próprios áudios da investigada, a versão de defesa esbarra na brutalidade dos fatos narrados pela própria boca da agressora.
