Lula vence no primeiro e no segundo turnos, aponta nova pesquisa BTG/Nexus
O isolamento do Nordeste
Carlos Albán González – jornalista
O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais irrompeu entre os seguidores fanáticos de Jair Bolsonaro uma onda de insultos contra os nordestinos. O nazifascismo tropical, que usa desrespeitosamente o verde e o amarelo, quer transformar a terra berço do Brasil num imenso campo de concentração. Costurada por um presidente que há quatro anos faz de conta que trabalha, uma cortina de ódio foi erguida nas nossas divisas.
“Morte (a bala ou de fome) aos nordestinos”, esbravejam os mais exaltados. Os parâmetros de retaliação criados por mentes poluídas vão desde a venda das nossas praias (a idéia do ministro Paulo Guedes, da Economia, esbarra na Constituição), à morte – seria em câmeras de gás como nos campos de concentração nazistas ? . Houve até quem sugerisse a construção de muros nas divisas dos estados nordestinos (o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump seria consultado).
Se uma barbárie desabar sobre a cabeça dos brasileiros no dia 30, o nordestino, no futuro, vai precisar de salvo-conduto para ir a uma cidade do Sul ou Sudeste, ou a Brasília. O capim será nosso alimento, como induz o presidente, mesmo porque, os que passam fome, imaginaram um dia comer carne humana.
O incitamento à violência, à intolerância religiosa, à xenofobia – que não é de hoje – contra o nordestino revelam que o Brasil pode se tornar o bastião da extrema direita no continente. A cruzada antidemocrática do militar expulso do Exército foi reforçada pela eleição para o Congresso do que há de mais retrógado neste país, em termos de política.
Antes mesmo da posse os radicais escarrados das urnas já falam em alterar a Constituição para tornar permanente o orçamento secreto, o que significa seqüestrar as verbas da merenda escolar, das pesquisas, das universidades, da cultura e da saúde.
Além dos assédios moral e sexual, a classe trabalhadora vem sendo vítima de um novo tipo de assédio, o eleitoral. A opressão do empregador bolsonarista tem ocorrido principalmente no meio rural. Uma produtora de Luís Eduardo Magalhães (um dos dois municípios baianos onde o ex-capitão venceu) divulgou um vídeo pedindo a “demissão sem dó do eleitor de Lula”.
Servidores da Prefeitura de Salvador reclamam de que estão sendo pressionados para votar em ACM Neto. Esse tipo de coação, que pode ser denunciado ao Ministério Público do Trabalho e aos sindicatos, está enquadrado no artigo 301 do Código Eleitoral, sujeito a pena de quatro anos de reclusão,
Separatismo
No Brasil nunca houve uma forte tendência separatista entre regiões, muito menos entre os nordestinos, embora a cantora paraibana Elba Ramalho tenha sugerido oficializar a música “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, como hino da região. Lá pelas bandas do Sul, o gaúcho, de tempos em tempos, reúne seus vizinhos do Paraná e de Santa Catarina, para reacender o sonho de criação de uma nação que se chamaria Pampas..
A Espanha, minha segunda pátria, convive há quase um século com os movimentos de independência da Catalunha e do País Basco. Líder de uma das mais longevas ditaduras (1936-1975) no mundo, Francisco Franco procurou sufocar os opositores, inclusive proibindo que os povos de diferentes etnias que unificaram o país se comunicassem em suas próprias línguas, no caso, o catalão, o basco e o galego.
O Generalíssimo, como gostava de ser chamado, enfrentou uma guerra civil, que matou 500 mil espanhóis, nos seus três primeiros anos no poder, graças ao apoio que recebeu de outros dois ditadores europeus, Adolf Hitler e Benito Mussolini. Para demonstrar força, Franco pediu ao III Reich que bombardeasse uma das cidades do norte da Espanha.
A pequena Guernica, no País Basco, com apenas 5 mil habitantes, foi atacada em 26 de abril de 1937. A aviação nazista lançou 22 toneladas de bombas, matando 1.645 pessoas. O massacre inspirou o artista andaluz Pablo Picasso a pintar “La Guernica”, a mais famosa tela do século XX, mantida num museu de Nova Iorque até o fim da ditadura franquista.
O sentimento separatista de catalões e bascos não se rompeu com a morte de Franco em 1975 e a conseqüente volta da Espanha ao regime democrático. O ETA, organização nacionalista basca, que evoluiu para o terrorismo, vive hoje na clandestinidade. A Catalunha optou pelo repúdio à monarquia, ao hino, à bandeira e ao idioma espanhóis.
“Matar, em nome de Deus”
Para evitar uma punição após a passagem da faixa presidencial pelos crimes cometidos durante seu mandato, Bolsonaro vai usar de todos os meios, lícitos e ilícitos, para vencer no segundo turno. Neste fim de semana, desagradando seus apoiadores evangélicos, compareceu ao Círio de Nazaré.
O arcebispo de Belém, Dom Alberto Taveira, divulgou nota informando que Bolsonaro não foi convidado e que não permitiria que o evento da Igreja Católica fosse usado com fins políticos. Contrariado, o “penetra” ficou confinado num navio da Marinha..
Afinal, qual a religião professada pelo genocida? Isso não importa para os líderes evangélicos do Brasil. Leonel Brizola, um dos mais brilhantes políticos brasileiros, ex-governador do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, perguntou certa vez: “Qual a legitimidade de tantos pastores no governo fluminense? Assumem posição ambígua, se queixam de tudo, fazem denúncias, mas não deixam os cargos que ocupam”. E profetizou: “Se necessário, matarão em nome de Deus, para chegarem ao poder”
“Fundamentalismo evangélico ameaça a democracia”, título do artigo assinado há nove anos pelo Reverendo Carlos Calvani, publicado num jornal de Campo Grande (MS). Membro da Igreja Anglicana no Brasil, Calvani advertiu que os pentecostais “têm um projeto político muito perigoso para o Brasil, utilizando as Escrituras Sagradas como lhes convém”.
Calvani comparou o movimento evangélico carismático com o fanatismo islâmico do talibã, movimento nacionalista e fundamentalista difundido no Paquistão e Afeganistão, países asiáticos onde a mulher é humilhada.
Carlos Albán González é jornalista
