Na cidade de Glauber Rocha a arte a cultura ainda resistem apesar do profundo vazio instutucional
Uma nova geração de retirantes que ocupa espaços de liderança
Rodrigo Medeiros
“Retirante” é uma palavra que perpassa a história brasileira carregada de muitas camadas – sobretudo de dor e resistência. Por muito tempo foi sinônimo de seca, fome e longos deslocamentos forçados, mas uma nova geração vem ressignificando esse termo: jovens nordestinos que migraram não apenas para sobreviver, mas para inovar, liderar e transformar.
Durante décadas, esse movimento foi associado a trabalhos pesados e pouco valorizados, como se o talento e a criatividade desse grupo não tivessem lugar no imaginário nacional. Hoje, no entanto, começa a se desenhar um cenário diferente. Uma nova geração se move por escolha, ambição e propósito. Gente que ocupa posições de liderança em empresas globais, que influencia decisões estratégicas e que mostra, na prática, que o Nordeste é também território de futuro. De vanguarda.
Não se trata de exceções isoladas. Há uma rede de trajetórias que se multiplicam e apontam para uma mudança estrutural. A pandemia e o avanço do home office foram gatilhos decisivos: de repente, a barreira geográfica perdeu força. Empresas que antes só contratavam no eixo Rio-São Paulo começaram a abrir portas para profissionais nordestinos. O avanço da tecnologia criou a possibilidade de acessarmos empregos que, mais do que a execução, pediam visão sistêmica, capacidade analítica, pensamento estratégico.
Os números confirmam essa virada. O Nordeste já concentra quase 24% de todas as startups do Brasil – mais de 4,4 mil ativas, ultrapassando inclusive a região Sul. Polos de tecnologia como a UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), a UFCG (Universidade Federal de Campina Grande) e o Instituto Metrópole Digital da UFRN (Univerisdade Federal do Rio Grande do Norte) têm formado profissionais que já saem das graduações estagiando ou empregados em grandes empresas nacionais, como Itaú e AmBev, ou mesmo internacionais, como Google e Microsoft.
Há, certamente, motivos para que isso aconteça. O Nordeste tem sido, há anos, laboratório de políticas públicas inovadoras na área educacional. Estados como Pernambuco, Ceará, Piauí e Paraíba têm mais da metade de seus alunos da rede estadual em escolas de Ensino Médio Integral (frente a uma média nacional de 22%) – modelo que já mostrou impacto na aprendizagem, no acesso ao ensino superior e na redução da evasão. Foi em escolas desse modelo que muitos desses jovens – e me incluo aí – tiveram contato com laboratórios de informática, iniciação científica, atividades culturais e esportivas que ampliaram horizontes.
A pandemia e o avanço do home office foram gatilhos decisivos: de repente, a barreira geográfica perdeu força
Essa transição não apaga desigualdades históricas, muito menos significa que o preconceito deixou de existir. Ser nordestino em São Paulo ainda é tensionar padrões sedimentados, enfrentar olhares enviesados, explicar sotaques, ouvir piadas preconceituosas. Mas há uma diferença importante: agora ocupamos lugares de influência e decisão. Pessoas que cresceram longe dos grandes centros econômicos estão conduzindo projetos, liderando equipes, desenhando estratégias. É profundamente transformador ver quem antes seria mantido à margem da economia digital ajudando a definir seu rumo.
Chamar esses jovens adultos de “nova geração de retirantes” é, sim, provocador. É reivindicar o direito de dar novo significado à palavra e também ao olhar sobre ela. Não partimos para escapar, partimos para transformar. E seguimos conectados às nossas origens, trazendo para o centro valores que nasceram do Nordeste: a força da comunidade, a inventividade diante da escassez, a capacidade criativa de fazer muito com pouco. Como disse Alice Carvalho, em sua música “Balacobaco,” com Anitta e BaianaSystem, “no Nordeste tem falta de aporte, mas excesso de cultura e raiz”. E é essa mistura que potencializa essa nova geração.
Essa virada, no entanto, ainda precisa ser reconhecida. Há um desconhecimento persistente sobre o que já se faz em tecnologia e inovação no Nordeste, bem como no Norte. Recife, Campina Grande, Natal e Manaus abrigam ecossistemas vibrantes, com talentos que poderiam estar em qualquer lugar do mundo – e que muitas vezes só conseguiram ser vistos durante o auge do trabalho remoto.
Agora, quando cresce o movimento das empresas para o retorno ao presencial, há o risco de que parte desse avanço se perca. Fechar as portas para o trabalho distribuído é também fechar portas para essa diversidade geográfica e potencial criativo que oxigena o país. O que está em jogo é mais do que inclusão, é inteligência coletiva. A inovação brasileira só será de fato robusta se for regional, social e racialmente diversa. E isso começa por reconhecer que há uma potência criativa fora do eixo, em cada canto onde alguém escreve código num laboratório de escola pública ou coordena times globais direto de Campina Grande ou Caruaru.
Se no passado os retirantes eram símbolos da falta, hoje constroem e representam abundância: de ideias, de propósito, de caminhos possíveis. Essa geração não cabe mais nos estereótipos – e talvez esteja nos mostrando o que o Brasil pode se tornar quando decide acreditar em si mesmo.
