Cúpula militar avisou STF sobre risco de ruptura e pediu ajuda, diz ex-FAB
Cúpula militar avisou STF sobre risco de ruptura e pediu ajuda, diz ex-FAB
Então comandante da Aeronáutica, o brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Júnior promoveu um jantar em sua casa, em 24 de agosto de 2022, para uma conversa entre os demais chefes das Forças Armadas, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Dias Toffoli e o procurador-geral da República na ocasião, Augusto Aras.
À época ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira não foi chamado. Os chefes militares queriam expressar a preocupação com uma ruptura institucional —críticos à forma como integrantes dos Três Poderes vinham conduzindo a crise que resultaria, meses depois, numa tentativa de golpe de Estado.
“Basicamente, nós falamos para eles o seguinte: ‘Ministro, cada um aqui tem que acalmar a tensão na sua instituição, porque está parecendo que só os militares estão preocupados com a ruptura e que as muitas outras pessoas dessas e outras instituições ainda não entenderam a gravidade do que está acontecendo'”, disse Baptista Júnior em entrevista ao UOL.
O ex-chefe militar disse que havia naquele momento um perigoso “fogo cruzado institucional”. “Quem se pretende ser chamado de ‘excelência’ precisa tomar cuidado com isso —em todas [as instituições], eu não estou mandando recado, estou falando em tese porque vi esse fogo cruzado”, completou.
Baptista Júnior concedeu entrevista ao UOL nesta terça-feira (18) para anunciar a publicação, em setembro, do livro “Eu Disse Não! — Uma Trincheira Antigolpista”, escrito pelo próprio brigadeiro e editado pela Autêntica Editora.
O ex-chefe da Aeronáutica descreve no livro os bastidores do fim do governo Jair Bolsonaro (PL) e as pressões golpistas sofridas por ele e pelo comandante do Exército, general Freire Gomes.
Na entrevista, Baptista Junior disse que o processo da tentativa de golpe de Estado no Supremo foi influenciado por questões políticas. Rastros dessa influência estariam na velocidade da ação penal e na falta de informações sobre a origem das minutas de decreto golpistas.
“Ninguém perguntou ao general Paulo Sérgio quem deu aquilo [minuta do golpe] para ele. Nem o advogado de defesa dele, nem o Ministério Público, nem o ministro do STF. Ele foi julgado e ninguém sabe qual a origem daquele documento”, disse.
“Essas pessoas podem ser condenadas pelo 8 de janeiro? Eu não sei, não tenho entendimento jurídico suficiente para isso. Mas quando olho os grandes juristas brasileiros discutindo isso, eu acho que pode ter sido influenciado [por questões políticas]. Uma tentativa de golpe de Estado é coisa séria. Mas mesmo assim, num Estado Democrático de Direito, nós temos que cumprir todos os passos e ter certeza. Você pode não condenar uma pessoa que cometeu crime, mas condenar alguém que não cometeu é muito perigoso para a democracia.”
Confronto com Bolsonaro
Os chefes militares foram chamados para uma dezena de reuniões no Palácio da Alvorada e no Ministério da Defesa após a derrota de Bolsonaro nas eleições presidenciais para Lula (PT). Com os acampamentos instalados em frente a quartéis e barricadas organizadas por caminhoneiros em rodovias federais, as primeiras conversas da cúpula militar tratavam sobre o possível uso das Forças Armadas para conter uma eventual convulsão social.
As conversas mudaram de rumo a partir de 11 de novembro de 2022, segundo Baptista Junior. O Ministério da Defesa concluiu que não havia identificado fraudes no sistema eletrônico de votação, e Bolsonaro não parecia satisfeito com as conclusões dos militares.
“Nós conversamos muito com o presidente. Colocamos muito claramente frases difíceis com o presidente sobre essas possibilidades que ele vislumbrava”, disse o brigadeiro.
Em uma dessas conversas, sustenta Baptista, o chefe do Exército chegou a expor uma hipótese em que prenderia Bolsonaro. “Ele falou: ‘Se você fizer isso, eu vou ter que lhe prender’. Foi dessa maneira que ele falou. Não deu voz de prisão, mas não foi simples escutar isso. Não é algo que se esquece quando se escuta”, comentou.
A declaração do brigadeiro é diferente da versão contada por Freire Gomes ao Supremo. O general disse ter comentado com Bolsonaro sobre os desdobramentos de uma possível tentativa de golpe de Estado, sem citar a prisão como uma das hipóteses.