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O vazio que nos habita: Ensaio sobre a dor, o nada e a perda, corpos dóceis, dores silenciadas, a medicalização do sofrimento humano

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O vazio que nos habita: Ensaio sobre a dor, o nada e a perda, corpos dóceis, dores silenciadas, a medicalização do sofrimento humano

04/08/2026 52 min read

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 O vazio que nos habita: Ensaio sobre a dor, o nada e a perda, corpos dóceis, dores silenciadas, a medicalização do sofrimento humano
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  (Prof. Dirlei A Bonfim).*

 

Esse ensaio, se inicia, depois de um momento estanque de grande impacto, muitas reflexões, silêncio, vazio, provocado pela dor, essa eterna companheira, que por vezes se esconde pelos recônditos labirintos do cerebelo, ou mesmo da memória, dos lugares mais profundos da (consciência/inconsciência) o sofrimento, que nos remete à necessidade de buscar amparo (nas leituras, análises, pesquisas, releituras dos novos e dos clássicos, dos pensadores, intelectuais) e suas contribuições históricas e valiosas, (à compreensão mais profunda sobre a dor humana), para tentar entender, a sua origem, as suas marcas profundas no universo psicanalítico, biológico, neural, emocional, psicótico, corpóreo, do vazio, humano. O sofrimento, nesse cenário, deixa de ser um mero afeto passageiro e passa a figurar como o testemunho vivo de uma ausência concreta. A perda de um ente querido opera uma quebra radical na continuidade da existência, onde o mundo familiar subitamente emudece. Segundo Sigmund Freud (1930), “A vida, que nos é imposta, é demasiadamente pesada para nós; traz-nos dores, decepções, tarefas impossíveis. Para suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas.” “O selvagem, como o animal, é cruel, mas não tem a maldade do homem civilizado.” — Entrevista a George Sylvester Viereck (1926, publicada posteriormente). Para Carl Jung (1935),  o sofrimento humano não é uma anomalia patológica a ser eliminada às pressas, mas o motor e a matéria-prima do processo de individuação. Em sua psicologia analítica, a dor representa a tensão de opostos necessária para que a consciência se expanda e integre os conteúdos ocultos da Sombra e do inconsciente. Sentido do Sofrimento: A partir de Jung (1935), vai dizer que a dor e o sofrimento não são erros ou desvios, mas elementos centrais e necessários do processo de individuação (a busca pela totalidade do si-mesmo). O Instinto e a Psique: O afastamento do homem de sua base animal instintiva gera neurose. A dor psíquica surge quando ignoramos nossa “sombra” e nossa conexão com a natureza primordial. Ao mesmo tempo que, “Não há despertar de consciência sem dor.” — Conceito recorrente em sua obra sobre os confrontos com o inconsciente (amplamente consolidado em A Energética Psíquica, 1928). A diferença exata entre dor física e sofrimento mental em Freud. Já a dinâmica junguiana da dor: A psicologia analítica vê o sofrimento como um processo:
[sintoma] ──> [colapso da persona (crise)] ──> [confronto com a sombra] ──> [individuação]. Jung destacava que evitar o luto legítimo, que é a reação natural do psiquismo para reorganizar o amor, transforma o sofrimento em sintomas psicossomáticos destrutivos, em vez de apenas medicalizar a dor, a abordagem clínica visa integrar a experiência ao processo de individuação. Já segundo o Edwin Shneidman (2010), O Conceito de Psychache (Dor Psíquica Infinitamente Intolerável) Shneidman foi o maior psicólogo clínico focado na ciência do comportamento autodestrutivo e delineou por que a dor extrema gera o gatilho de escape. Conceito: O gatilho para a autodestruição não é o desejo biológico de morrer, mas a necessidade psicológica urgente de fugir de uma dor mental impossível de suportar (psychache). Se a dor diminui, o gatilho desaparece. “A dor psicológica é o componente central. O suicídio ocorre quando a dor psicogênica é considerada pelo sujeito como totalmente insuportável e imutável. É o tormento de uma mente que não consegue mais encontrar repouso no existir.” Enquanto Jacques Lacan desdobra as ideias de Freud a partir da linguagem e da estrutura do inconsciente, Michel Foucault (que não era psicanalista, mas sim filósofo e historiador) segue um caminho diferente. Foucault analisa como a medicina, o poder e as instituições moldam, controlam e dão significado político e social às dores e às perdas humanas. Jacques Lacan: A Dor, a Perda e o “Gozo”. Para Lacan, a dor e a perda não são acidentes, mas fundamentais para a construção do sujeito humano. O ser humano perde o contato direto com a realidade puramente instintiva (animal) ao entrar no mundo das palavras e da linguagem. O Conceito de Perda e o Objeto a: Ao entrarmos na linguagem, sofremos uma perda original. Lacan chama o resto dessa perda de objeto petit a (objeto a). Esse objeto é a falta eterna que nos move a desejar. A perda, portanto, gera o próprio motor da nossa existência. A Dor e o Gozo (Jouissance): Lacan distingue o prazer (que busca o equilíbrio e a paz) do Gozo (um excesso que cruza a linha do prazer e se torna doloroso). Sentir dor ou manter um sofrimento psíquico (como um sintoma repetitivo) é uma forma paradoxal de o inconsciente obter uma satisfação excessiva e destrutiva.

Vai afirmar Lacan (1968), “Não há outra coisa a dizer — não forçosamente à dor, e sim ao desprazer, que não quer dizer outra coisa senão o gozo, descontextualizado na dor.”.  A partir de Hannah Arendt, em homenagem prestada a Isak Dinesen (pseudônimo da escritora dinamarquesa Segundo Karalítien Blixen, (1885-1962), citou o que a romancista dissera sobre a dor: “Todas as dores podem ser suportadas se você as puser em uma história ou contar uma história sobre elas” (Arendt, 2010, p. 115). A dor é constitutiva da espécie humana, desde a função biológica protetora contra a automutilação ou mesmo pelas referências à dor e ao sofrimento encontradas na cultura, arte, religião. A dor sempre esteve presente nas formulações humanistas em geral – e, em particular, na psicanálise, pela possibilidade de transformação, por meio da simbolização, das vivências humanas geradoras de sofrimento, de modo a lhes dar sentido. Para uma compreensão sobre o que leva o disparar de gatilhos que levam o animal racional a um processo dorido de fortes sofrimentos, desencadeando uma desumanização neural psíquica humana. Segundo o Professor Stephen Porges (Teoria Polivagal, 2011), ele vai detalhar o papel do nervo vago na regulação emocional e nas respostas automáticas de luta, fuga ou imobilização diante da dor severa. Mostra como os gatilhos de estresse extremo desconectam o sistema de engajamento social, gerando um colapso na segurança neurobiológica do indivíduo, desencadeando os sofrimentos muitas vezes insuportáveis aos indivíduos, no processo de conexões neurais, biológicas, corporais, psíquicas com o mundo externo social, fragilizando o(s) indivíduos e muitas vezes tirando-os a capacidade de reação, dado ao processo biológico já fragilizado e não  conseguem reagir e os próprios tratamentos medicamentosos disparam novos quadros e gatilhos. A dor das perdas, o temor, as frustrações a depressão sempre estiveram no cotidiano humano, ao longo imemorial dos tempos, essa exposição ä dor e todas os males e infortúnios causados pela dor, como algo quase insolúvel. Segundo Bessel van der Kolk (O Corpo Guarda o Score, 2014), explica de como o(s) trauma(s) crônico(s) e o sofrimento intenso alteram permanentemente regiões cerebrais como a amígdala e o córtex pré-frontal. Demonstra que a dor extrema desorganiza a capacidade de elaborar narrativas racionais, mantendo o corpo em estado constante de defesa e ameaça. Alguns dos principais autores e pensadores que abordam os impactos da dor, do trauma e do sofrimento na saúde psíquica e neural humana são (Bessel van der Kolk, Stephen Porges e Antonio Damásio). Afirmam que a distinção entre dor física e psíquica talvez seja um tanto artificial. Toda experiência de dor física traz repercussões psíquicas, do mesmo modo que o sofrimento psíquico é também acompanhado por sensações corporais. É um problema complexo: dor física e dor mental, o que remete para uma questão de grande pertinência, que é a continuidade versus descontinuidade psiquismo-soma. Segundo Fleming (2003), essa foi uma das interrogações que perpassou todo o percurso freudiano. No “Projeto para uma psicologia científica” (1895/1988), a dor é tratada como entidade global; no trabalho “Inibição, sintoma e angústia” (1926/1988) há uma discriminação entre os conceitos de dor corporal e dor psíquica. A diferença é compreendida de acordo com a natureza do investimento: enquanto na dor física predomina o investimento de natureza narcísica, na dor mental predomina o investimento libidinal do objeto, ou seja, o hiperinvestimento deste. A autora assinala que há um consenso de que a dor seja simultaneamente um fenômeno psíquico e somático. Freud introduziu o conceito na literatura psicanalítica como “dor na alma” (Seelenschmerz) e no “Projeto” (1895/1988) passou a distinguir dor e sofrimento, dor e desprazer, dor e angústia, bem como a ligação entre dor e desamparo. Para ele, a dor primordial é a condição de desamparo do bebê humano. Ao abandonar o “Projeto” e a concepção quantitativa, Freud passou a se dedicar ao estudo da angústia. Em “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental” (1911/1988), ele se pergunta do que depende a capacidade de tolerar a frustração; em “Sobre o narcisismo: uma introdução” (1914/1988), apresenta o investimento na dor corporal; mas é em “Luto e melancolia” (1917/1988) que abordará a dor relacionada à perda do objeto amado. Mais tarde, em “Mais além do princípio do prazer” (1920/1988), Freud retoma a concepção quantitativa entre dor e prazer, bem como em “O problema econômico do masoquismo” (1924/1988). Finalmente, em “Inibição, sintoma e angústia” (1926/1988), traz novas concepções teóricas, ao diferenciar dor corporal, narcísica, da dor mental, envolvida em uma relação de objeto. Para Fleming (2003), apesar de nesse trabalho Freud ter se indagado sobre as situações em que a separação do objeto produz angústia, luto ou dor, o tema ainda não foi suficientemente abordado nas conceituações psicanalíticas. Ainda voltando à uma análise de Foucault sobre a morte por desespero: A Geometria do Vazio e do Silêncio: A dor do luto não ocupa espaço; ela cria um espaço vazio. Quando o vínculo biográfico com o outro é cortado pela morte, o psiquismo depara-se com uma paisagem devastada. As palavras comuns perdem a utilidade. O silêncio que se instala não é a ausência de som, mas a densidade de uma pergunta que não obterá mais resposta. O Estanque do Tempo: O trauma da perda suspende a linearidade cronológica. O sujeito enlutado habita um presente perene, onde o futuro foi cancelado e o passado se recusa a passar. A Consciência e o Inconsciente: Na superfície consciente, busca-se racionalizar e organizar o cotidiano. No entanto, nos labirintos da inconsciência, a perda ecoa através de sonhos, repetições e lapsos, lembrando que a fratura permanece ativa.As mortes por desespero decorrem da erosão institucional e econômica que alimenta a depressão e o suicídio juvenil global. 

Os principais pensadores do tema são os economistas Anne Case e Angus Deaton, além de teóricos da biopolítica inspirados em Michel Foucault.(1975/1976). Na perspectiva foucaultiana, o sofrimento social decorrente da precarização econômica é transmutado em patologia individual gerida por saberes médicos. Em sua obra Vigiar e Punir (Editora Vozes, 1975), Michel Foucault cunhou o conceito de corpos dóceis, adaptados à utilidade econômica. Complementarmente, em Microfísica do Poder (Edições Graal, 1979), ele examinou o biopoder. “O homem, durante milênios, permaneceu o que era para Aristóteles: um animal vivo e capaz, além disso, de existência política; o homem moderno é um animal na cuja política está em questão a sua vida de ser vivo.” — Michel Foucault (História da Sexualidade I: A Vontade de Saber, 1976). A extensão desses conceitos para a medicalização do sofrimento humano — o processo em que dores sociais, o luto, o vazio existencial e a falta de perspectiva econômica viram distúrbios psiquiátricos controlados por fármacos — é debatida por comentadores contemporâneos da arqueologia de Foucault. A perspectiva da Arqueologia de Foucault e dos pensadores da “ordem foucaultiana” (ou pós-foucaultianos) oferece uma lente poderosa para entender a morte prematura e o suicídio de jovens hoje. Para a Arqueologia fustigante de Foucault, os fenômenos mentais e comportamentais não são “naturais”: eles são produzidos por formações discursivas, regras históricas e saberes institucionais que definem o que é ser um sujeito “normal” ou um “fracasso”. Na contemporaneidade, os pensadores que dão continuidade a esse método analisam como a racionalidade neoliberal molda a subjetividade dos jovens, transformando-os em “empresários de si mesmos”. Quando esses jovens falham em alcançar o sucesso econômico e social em um mundo precarizado, as próprias ferramentas de governabilidade transformam esse fracasso em depressão, automutilação e, no limite, em morte prematura. Segundo McDougall (1991) afirma que “na posição de analistas, é a dor e o mal-estar psíquico que constituem a dimensão fundamental do nosso campo de observação e de exploração cotidiana” (McDougall, 1991, p. 152). De fato, a dor é o que leva uma pessoa à procura de análise e – pela impossibilidade de suportá-la – promove a formação de sintomas. O conceito de dor mental tem adquirido maior importância na teoria e na clínica psicanalítica, principalmente em razão da contribuição de Bion (1963), que considera a dor psíquica um dos elementos de psicanálise e pressupõe ser a capacidade de continência e tolerância à dor um dos pilares do desenvolvimento do indivíduo. Quanto à diferença entre dor e sofrimento, ambos dizem respeito a experiências afetivas. Segundo Fleming (2003) assinala que “etimologicamente, sofrer se refere à capacidade de suportar, tolerar e conter no espaço psíquico da experiência, enquanto a dor, proveniente de um verbo intransitivo, não contempla a tolerância e transborda da área psíquica” (Fleming, 2003, p. 37). Algumas discussões teóricas científicas para compreensão dos sofrimentos causados pela(s) dor(es). Várias são as concepções que abordam a relação entre as emoções e o corpo.  Para McDougall (1991), as manifestações corporais são expressões corriqueiras tanto de conflitos internos quanto de acontecimentos externos da vida cotidiana. Assinala essa autora que a resposta a situações estressantes envolverá aspectos variados de organização e integração da personalidade. A doença surgirá quando as condições internas para enfrentar e manejar frustração e tensão forem insuficientes. McDougall (1994) compreende o fenômeno da somatização como um mecanismo mental de defesa. Usa o termo “potencialidade psicossomática”, ou seja, qualquer indivíduo, neurótico ou psicótico, pode somatizar se um limiar de conflito ou de dor psíquica for ultrapassado. Os pacientes somatizadores muitas vezes “não têm palavras para dar nome a seus estados afetivos ou não conseguem distinguir um estado afetivo do outro” (McDougall, 1991, p. 26). A esse fenômeno, Nemiah e Sifneos (1970) denominam alexitimia, incapacidade para descrever com palavras os sentimentos, dadas as dificuldades para localizar sensações corporais, diferenciar os afetos e integrar fantasia e experiência afetiva. Segundo Marty (1994) introduz a noção de pensamento operatório como subjacente ao fenômeno e à queixa somática recorrente de pacientes “psicossomáticos”, conceito que enfatiza pobreza da vida imaginativa e da afetividade, e presença de bloqueios na capacidade de representar ou elaborar as demandas pulsionais que o corpo dirige à mente. Quando falham as possibilidades de sonhar, fantasiar, pensar, restam ao indivíduo a via orgânica e a ação como descarga da excitação que não pode ser elaborada psiquicamente. O autor usa a expressão “falha no processo de mentalização” como impossibilidade das representações psíquicas – fantasias, sonhos, associações de ideias – base da vida psíquica, já que permitem o pensar, o elaborar, o refletir. Segundo a teoria de Bion (1962), é função do pensamento transformar as experiências, emocionais e sensoriais de um estado bruto em uma forma mais elaborada e simbolizada. Essa transformação dos aspectos desprovidos de significado em algo que possa ser utilizado para pensar, discriminar, avaliar e decidir é designada como função α. Os dados sensoriais e as emoções em estado bruto são denominados elementos. Se as experiências emocionais não são transformadas pela função α, acumulam-se sob forma de estímulos que tendem a perturbar o aparelho mental e devem por isso ser eliminados. E não deveriam em tese, se transformarem em quadros de sofrimentos normais e ou agudos demais. Essa eliminação pode ocorrer por várias vias, por exemplo, pelas alucinações ou pelas perturbações psicossomáticas. Ainda, segundo Bion (1963), propõe que a doença psicossomática encontra-se fora da área da função simbólica e desprovida de significado, e se relaciona ao fracasso das representações da vida emocional, dada a impossibilidade de transformação por meio da função.

Algumas Considerações finais, longe da Conclusão : Com relação aos estudos e pesquisas apresentadas demonstram um modo de funcionar pela descarga por uma capacidade de simbolização, podemos perceber que é um processo longo e construído de modo artesanal. É possível caminhar da dor física à dor psíquica? Procuramos na literatura algumas hipóteses que pudessem ajudar a pensar essas características observadas por vários Pensadores, Filósofos, Psicanalistas, como o Valenstein (1973) refere-se ao apego à dor como uma dificuldade para processar as mudanças psíquicas. Os afetos de qualidade dolorosa referem-se a eventos ocorridos precocemente na vida desses pacientes, provavelmente durante o primeiro ano de vida. Outras considerações quase finais: cartografando linhas de força, asfixia e resistência: Aproximar-se do fenômeno das mortes por desespero e do suicídio juvenil contemporâneo por meio do método da cartografia exige, antes de tudo, recusar a ilusão de uma conclusão fechada ou de um diagnóstico definitivo. Como nos ensina a esteira pós-foucaultiana, cartografar não é fotografar uma realidade estática, mas acompanhar um processo em pleno movimento: o embate contínuo entre as forças de assujeitamento do capitalismo tardio e os fluxos de vida que resistem nos corpos dos jovens. Ao mapear a paisagem psicopolítica atual, esta pesquisa não encontrou um “vazio individual abstrato” ou um mero defeito neuroquímico isolado nos cérebros juvenis. O que se desenhou nesta cartografia foi uma intrincada linha de segmentaridade dura, onde o mercado, a racionalidade neoliberal e os saberes psiquiátricos normatizadores operam em consórcio. Os jovens que hoje recorrem ao ato trágico do suicídio sofrem os efeitos diretos de um território existencial asfixiante, delimitado por três grandes blocos de forças cartografados ao longo deste estudo: A Captura da Subjetividade como Capital: As linhas de força da governamentalidade neoliberal (Foucault, 2008) incitam o jovem a cartografar a si mesmo exclusivamente como um “empresário de si”. Sob o império do desempenho e da visibilidade algorítmica, o horizonte do futuro foi privatizado; a falta de inserção econômica e social deixa de ser vista como uma falha do sistema para ser internalizada como uma vergonha íntima e incurável. A Malha da Medicalização e do Silenciamento: Diante do colapso psíquico gerado por essa hipercompetitividade, os dispositivos biopolíticos e os saberes “psi” contemporâneos (Rose, 2018) atuam anestesiando os sintomas. Em vez de se escutar a dor como um sintoma político de uma época adoecida, o sofrimento é despolitizado e enclausurado em diagnósticos clínicos. Os corpos dóceis são dopados para que continuem funcionando, ocultando a precarização estrutural sob o manto da patologia individual. A Necropolítica da Obsolescência: Para além da regulação da vida, a cartografia do desespero juvenil revelou a atuação de forças necropolíticas (Mbembe, 2018). Em um cenário de uberização e desmantelamento de garantias sociais, vastas parcelas da juventude enfrentam uma “morte social” programada. A ausência de perspectivas econômicas reais atua como um vetor que empurra esses corpos para zonas de descarte, transformando o suicídio em uma resposta extrema e desesperada diante de uma vida reduzida à obsolescência. Portanto, longe de encerrar esta discussão, estas considerações, permeadas do exercício da Cartografia, servem como um mapa de alertas e urgências. O aumento alarmante das mortes por desespero entre os jovens denuncia o esgotamento dos modos de vida propostos pela nossa atual episteme. Se a dor e o nada habitam a juventude, é porque o tecido social comunitário foi intencionalmente desfeito para dar lugar ao isolamento mercantil. Cartografar este cenário de dor silenciosa não é um exercício de resignação, mas um ato de convocação política. Ao dar visibilidade às engrenagens discursivas que produzem o desespero, esta pesquisa busca fissurar o realismo capitalista. O desafio que permanece aberto para investigações futuras — e para as práticas clínicas e sociais — não é o de criar novas formas de adestramento ou fármacos mais eficientes, mas sim o de tecer novas redes de solidariedade e acolhimento coletivo. É preciso abrir linhas de fuga que permitam aos jovens reapropriarem-se de seus futuros, inventando modos de existência onde o valor da vida jamais seja mensurado pela sua utilidade econômica. Assinala o autor que se os afetos – sobretudo aqueles mais primitivos, associados com as experiências do self – tomam, predominantemente, uma direção da dor, então um padrão é estabelecido, no qual afetos dolorosos marcam as primeiras relações e, provavelmente, mais tarde, as representações de objeto e as representações de si mesmo. Esses aspectos formam-se mais em bases afetivas do que cognitivas – o que também contribui para que as mudanças sejam mais lentas. Nesse sentido, é possível que haja o apego à dor, porque as experiências associadas representam o self e os primeiros objetos. Desistir desses afetos é como ter que renunciar a uma parte de si mesmo. Para Costa (2008), as carências de um vínculo empático na primeira infância – que permita o desenvolvimento da subjetividade e da atividade fantasmática – têm como uma de suas consequências clínicas a manifestação de patologias nas quais um narcisismo, com atividades mentais empobrecidas, é acompanhado de uma tendência a somatizações. Costa aborda pacientes com queixas corporais, bem como outros, regredidos, no contexto da “clínica do desvalimento“.  Mostra ele a necessidade de um novo paradigma capaz de ampliar a psicanálise para uma mente primitiva, carente de instruções psíquicas e de subjetividade. Conforme outros já assinalaram, ressalta esse autor que todas as pessoas apresentam pontos de vulnerabilidade em seu desenvolvimento arcaico e, em momentos de maior exigência, podem regredir e apresentar uma patologia do desvalimento. Tais pacientes apresentam uma forte tendência a desenvolver sintomas somáticos, que costumam ser subestimados e podem levá-los à morte.

Com relação ao modo como os pacientes se relacionam com seus afetos, o autor recomenda que o trabalho deva ter como meta a construção das experiências não sentidas, para que sejam significadas na relação analítica. A atitude do analista deve ser facilitadora, reanimadora, explicativa, discriminativa e inter-relacionada. Para que esse tratamento seja bem-sucedido, afirma Costa (2008), deve ser necessária uma permanente e ativa vitalidade do analista, sem comprometimento da neutralidade. Muitas vezes, temos percebido o empenho dos terapeutas em mostrar novas possibilidades aos pacientes; outras vezes, os terapeutas negam lados mais perturbados do funcionamento psíquico dos pacientes, presos ao desejo de mudança e de evolução, o que nem sempre acontece. Quanto à possibilidade do trabalho psicanalítico com essas pacientes, é preciso pensar na contratransferência, que se refere ao próprio psicanalista e a seu sofrimento, sua tolerância à dor mental. Para Bion, a possibilidade de “psicanalisar” depende da condição do analista de suportar a dor mental. Ainda a partir de Fleming (2003), mostra a importância de que “o analista possa reconhecer sua própria dor psíquica e revela que muitos analistas têm se dedicado a falar sobre sua própria dor mental”. Considera ele que a possibilidade da mente do analista acolher, sentir a dor mental suscitada é que torna possível o reconhecimento e a elaboração das emoções contra transferênciais, sem o perigo da ação ou da paralisia. Horn (2008) também considera o trabalho da contratransferência fundamental nos pacientes psicossomáticos. Assinala que esses pacientes “inúmeras vezes têm necessidade de que seja feito um trabalho preliminar, no sentido de criar condições que lhes permitirão alguns vínculos, com a esperança de que um trabalho analítico possa acontecer posteriormente” (Horn, 2008, p. 56). Segundo Milheiro (1996) enfatiza que a transformação da dor física em dor moral, e desta em sofrimento (ansiedade), pode ocorrer se a dor física for contida em uma relação com o outro, objeto externo (mãe) ou objeto interno, protetor e suficientemente bom. A dor mental ou física é um fenômeno-limite entre corpo e mente, em um complexo de emoções e sensações de ansiedade, aflição, desamparo, para os quais a pessoa não encontra palavras ou representações, e que pode posteriormente ser contido na situação terapêutica. A relação terapêutica ocorre com um terapeuta disponível, que não vai julgar nem retaliar, e nem se deixar destruir pela destrutividade do paciente (Fleming, 2003). Segundo essa autora, a retomada aos lugares da dor mental é um longo processo, em que o analista procura acompanhar de perto o paciente, para aumentar seu grau de tolerância à frustração, relacionar emoções e pensamentos e reconstruir ou mesmo construir as histórias pessoais, a identidade e a capacidade de ressonância emocional. O atendimento dessas pacientes tem mostrado que é possível contribuir para a construção de uma mente capaz de conter emoções e experiências intensas, que até então não puderam ser representadas, significadas e simbolizadas. Por outro lado, o desenvolvimento dessa condição psíquica é lento, artesanal, não linear e com diversos obstáculos em seu percurso. De qualquer forma, a possibilidade para os pacientes de ter um encontro humano, com uma escuta privilegiada, que os acolha em sua angústia, solidão e desamparo psíquico, representa uma chance de atingir uma condição de vida mental que vá mais além da pura sobrevivência e dê sentido à existência. Para os membros da equipe, é uma oportunidade de ampliação do contato humano com outras realidades, da percepção além da clínica mais tradicional, constituindo um desafio, no sentido de se aventurar por terras brutas, mas férteis. Portanto, continuaremos em nossa caminhada na direção das possíveis transformações da dor em crescimento. Ainda que comunguemos com algum vazio que nos habita e sempre nos remeterá a novos ensaios sobre a dor, o nada e a perda, corpos dóceis, dores silenciadas e a medicalização dos sofrimentos humanos. Nos velórios e nos ritos de passagem de quem se antecipou, o silêncio que se instala não é o vazio da ausência pura, mas a densidade das perguntas sem respostas e o eco de uma dor que a nossa sociedade — acelerada, produtivista e anestesiada pelo discurso da felicidade compulsória — recusa-se a escutar e acolher. Cartografar o “vazio que nos habita” não é um ato de desespero ou resignação, mas sim uma convocação ética e política. O texto nos convoca a desacelerar, a resgatar a capacidade de simbolizar nossas perdas, a reabilitar a escuta clínica e humana, e a criar frestas de resistência e solidariedade contra uma época que tenta transformar a dor da existência em descarte ou mercadoria.

Algumas Referências:   

 

ARENDT, Hannah. Homens em tempos sombrios. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Companhia de Bolso, 2010.

BION, Wilfred R. Learning from Experience. London: Heinemann, 1962.                                                                               BION, Wilfred R. Elements of Psycho-Analysis. London: Heinemann, 1963.                                                         CASE, Anne; DEATON, Angus. Deaths of Despair and the Future of Capitalism. Princeton: Princeton University Press, 2020.                                                                                                                                                                     COSTA, Gerson Pinto. Psicopatologia psicanalítica contemporânea: clínica do desvalimento. Revista Brasileira de Psicanálise, v. 42, n. 2, p. 89-101, 2008.                                                                                                                DAMÁSIO, Antonio R. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.                                                                                                                                                               FLEMING, Márcia. Dor sem nome: pensar o sofrimento. Porto: Edições Afrontamento, 2003.                           FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 1975.                                                                                                                                                                FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: A vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1977 [1976]. FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.                                                                                                                                                                FOUCAULT, Michel. 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**contribuição do Professor DsC Dirlei A Bonfim, Doutor em Desenvolvimento Econômico e Ambiental, Professor da Rede Estadual da Bahia, Professor Formador IAT/SEC/BA.*08/2026.2

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