Três brasileiras centenárias entram no livro de recordes e desafiam o que se sabe sobre longevidade
Gilberto Gil completa 84 anos como uma das vozes mais universais da cultura brasileira
Artista baiano transformou a música popular em pensamento, ponte entre tradição e futuro, Brasil profundo e mundo, arte e política.
O músico, poeta e compositor Gilberto Gil completa 84 anos nesta sexta-feira, 26 de junho de 2026, consagrado não apenas como um dos maiores nomes da música brasileira, mas como uma das expressões mais completas da cultura nacional em diálogo com o mundo. Nascido em Salvador, em 1942, Gilberto Passos Gil Moreira tornou-se cantor, compositor, instrumentista, intelectual público, ex-ministro da Cultura e símbolo de uma ideia de Brasil aberta, mestiça, inventiva e universal.
A trajetória de Gil atravessa mais de seis décadas de criação artística e intervenção pública. Sua obra combina tradição nordestina, samba, bossa nova, baião, afoxé, reggae, rock, pop, música eletrônica, espiritualidade afro-brasileira, experimentação poética e reflexão política. Sua produção mescla elementos aparentemente inconciliáveis, como a tradição nordestina e a modernidade do pop, registrando movimentos musicais e momentos históricos decisivos do país.
Um artista que pensou o Brasil cantando
Gilberto Gil pertence à linhagem rara dos artistas que não apenas fizeram canções, mas ajudaram o Brasil a pensar sobre si mesmo. Em sua obra, a canção popular se torna ensaio, crônica, filosofia, oração, manifesto e celebração. Gil cantou o sertão e a metrópole, a Bahia e Londres, a negritude e a mestiçagem, o terreiro e a tecnologia, a fé e a dúvida, o sofrimento e a alegria.
Poucos artistas brasileiros alcançaram tamanho equilíbrio entre sofisticação estética e comunicação popular. Gil é capaz de construir harmonias complexas e, ao mesmo tempo, falar diretamente ao povo. É um músico de alta elaboração formal, mas também de enorme generosidade comunicativa. Sua grandeza está justamente nessa capacidade de unir o refinamento ao canto coletivo.
Canções como “Aquele abraço”, “Expresso 2222”, “Refazenda”, “Refavela”, “Toda menina baiana”, “Palco”, “Andar com fé”, “Drão”, “Tempo rei”, “Se eu quiser falar com Deus” e “Domingo no parque” tornaram-se parte do patrimônio afetivo do Brasil. Elas não pertencem apenas à discografia de um artista. Pertencem à memória nacional, assim como a sua reinterpretação de No Woman No Cry, um clássico de Bob Marley.
A Tropicália e a reinvenção da música brasileira
Gilberto Gil foi um dos criadores da Tropicália, movimento que, ao lado de Caetano Veloso, Gal Costa, Tom Zé, Os Mutantes, Torquato Neto, Capinam, Rogério Duprat e outros nomes fundamentais, mudou definitivamente a música brasileira no fim dos anos 1960. A Tropicália incorporou guitarras elétricas, rock, psicodelia, cultura de massa, poesia concreta, referências populares e crítica política, rompendo fronteiras entre o nacional e o estrangeiro.
Com “Domingo no parque”, Gil levou para a canção brasileira uma narrativa cinematográfica, urbana, dramática e experimental. A música não apenas inovou pela letra e pelo arranjo, mas também mostrou que a cultura brasileira podia dialogar com o mundo sem perder sua raiz. Esse foi um dos grandes legados tropicalistas: afirmar que a identidade nacional não é uma prisão, mas uma potência de invenção.
A Tropicália enfrentou incompreensões, resistências e repressão. Gil e Caetano foram presos pela ditadura militar e seguiram para o exílio em Londres. Mas, mesmo longe do Brasil, Gil ampliou seu repertório estético e político. O contato com outras sonoridades, especialmente o reggae, o rock e a cena internacional, fortaleceu ainda mais sua capacidade de traduzir o Brasil para o mundo — e o mundo para o Brasil.
A Bahia universal
Embora universal, Gil jamais deixou de ser profundamente baiano. A Bahia, em sua obra, não aparece como folclore, mas como matriz civilizatória. Em Gil, a Bahia é África, Atlântico, catolicismo popular, candomblé, Recôncavo, carnaval, ancestralidade, cozinha, corpo, dança, língua e pensamento.
Sua música ajudou a projetar a cultura afro-brasileira como elemento central da identidade nacional. Ao cantar a Bahia, Gil canta também a diáspora africana, a resistência negra, a mistura cultural e a força popular que moldaram o Brasil. Por isso, sua obra tem dimensão universal: ela parte de um lugar específico, mas fala de temas que atravessam fronteiras — pertencimento, liberdade, fé, exílio, amor, tempo, morte, esperança e transformação.
Em “Refavela”, Gil aproximou Brasil, África e Caribe, apontando uma geografia cultural do Sul Global antes mesmo que essa expressão se tornasse corrente no debate político contemporâneo. Em “Refazenda”, valorizou a terra, o interior, a agricultura simbólica da vida. Em “Realce”, dialogou com a música dançante e cosmopolita, sem abandonar a densidade poética.
O poeta da modernidade brasileira
Gil é também um dos grandes poetas da língua portuguesa. Sua escrita combina coloquialidade, invenção verbal, lirismo e pensamento. Em suas letras, a palavra nunca é mero veículo da melodia. Ela pulsa, dobra, brinca, filosofa. Gil trabalha com aliterações, jogos semânticos, imagens populares e conceitos sofisticados.
Poucos compositores conseguiram tratar do tempo com tanta força quanto Gil. “Tempo rei” tornou-se uma espécie de meditação popular sobre a passagem da vida. “Se eu quiser falar com Deus” desloca a espiritualidade do altar para a experiência radical da humildade e do despojamento. “Andar com fé” transforma uma afirmação simples em síntese de sabedoria popular.
Gil também é um artista da alegria — mas não da alegria superficial. Sua alegria é forma de resistência. É a alegria de quem enfrentou prisão, exílio, perdas pessoais, racismo estrutural, incompreensão estética e disputas políticas, mas nunca abandonou a criação como força vital.
A ponte entre cultura popular e tecnologia
Outra dimensão decisiva de Gilberto Gil é sua relação com o futuro. Diferentemente de artistas que se tornam monumentos imóveis, Gil permaneceu em movimento. Interessou-se por internet, cultura digital, novas formas de circulação do conhecimento, direitos autorais, software livre e democratização do acesso à cultura.
Essa visão ganhou expressão institucional quando Gil aceitou o convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para comandar o Ministério da Cultura entre 2003 e 2008. Sua passagem pelo ministério marcou uma ampliação do conceito de cultura, valorizando não apenas as belas-artes, mas também as culturas populares, periféricas, digitais, indígenas, afro-brasileiras e comunitárias.
Como ministro, Gil ajudou a consolidar a ideia de que cultura é direito, desenvolvimento, soberania e cidadania. Sua gestão deu visibilidade a políticas culturais de base territorial e simbólica, além de abrir espaço para debates sobre diversidade, economia criativa e inclusão digital. O artista que havia reinventado a música brasileira também contribuiu para reinventar o papel do Estado na cultura.
Um brasileiro universal
Gilberto Gil é brasileiro porque sua obra nasce da experiência concreta do país. Mas é universal porque nunca reduziu o Brasil a uma caricatura. Ao contrário, mostrou que o Brasil é complexo, moderno, ancestral, contraditório e capaz de falar ao planeta em linguagem própria.
Sua música circulou por palcos internacionais sem se submeter ao exotismo. Gil não apresentou ao mundo um Brasil decorativo. Apresentou um Brasil pensante, rítmico, poético, negro, mestiço, sofisticado e popular. Por isso, tornou-se uma das faces mais reconhecíveis da música brasileira no exterior, ao lado de nomes como João Gilberto, Tom Jobim, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Gal Costa, Chico Buarque, Maria Bethânia e Jorge Ben Jor.
A universalidade de Gil vem de sua capacidade de fazer o particular vibrar como linguagem comum. Quando canta a Bahia, fala do mundo. Quando canta o sertão, fala da condição humana. Quando canta a fé, fala da dúvida. Quando canta o tempo, fala de todos nós.
A obra como patrimônio civilizatório
A importância de Gilberto Gil vai além da música. Sua obra é patrimônio civilizatório porque oferece uma imagem generosa, plural e criadora do Brasil. Em tempos de intolerância, obscurantismo e ataques à cultura, Gil representa a inteligência sensível de um país que resiste pela arte.
Ele ensinou que a cultura brasileira não é menor diante da cultura europeia ou norte-americana. Ensinou que tradição e modernidade não são inimigas. Ensinou que a guitarra elétrica pode conversar com o berimbau, que o baião pode dialogar com o reggae, que o samba pode encontrar o rock, que a canção pode ser política sem perder beleza, e que a beleza pode ser política sem virar panfleto.
Aos 84 anos, Gilberto Gil permanece como referência ética, estética e intelectual. Sua obra continua iluminando novas gerações de músicos, artistas, pensadores e militantes culturais. Em um Brasil frequentemente marcado por rupturas e apagamentos, Gil é continuidade criativa: um fio que liga passado, presente e futuro.
O Brasil canta em Gil
Celebrar Gilberto Gil é celebrar a potência da cultura brasileira. É reconhecer que a música popular do Brasil produziu alguns dos grandes pensadores do século XX e XXI. Gil é um desses pensadores — não porque escreveu tratados acadêmicos, mas porque sua obra elaborou, em forma de canção, algumas das perguntas essenciais do país.
Quem somos? De onde viemos? Como transformar dor em beleza? Como ser moderno sem renunciar à ancestralidade? Como falar ao mundo sem perder a própria voz? Como fazer da arte um exercício de liberdade?
Gilberto Gil respondeu a essas perguntas cantando. E, ao cantá-las, ajudou o Brasil a se escutar melhor.
Aos 84 anos, Gil não é apenas um gigante da MPB. É uma das grandes consciências culturais do nosso tempo. Um artista que fez da canção uma forma de pensamento, da política uma extensão da cultura e da cultura uma expressão profunda da liberdade humana.
