Marrocos se “vinga” dos seus colonizadores
Carlos González – jornalista
Os deuses do futebol estão proporcionando neste momento ao Marrocos a oportunidade de se “vingar” dos colonizadores, que ocuparam seu território desde o período das Grandes Navegações, financiadas pelos monarcas portugueses e espanhóis, a partir dos primeiros anos do século XV. Na surpreendente campanha na XXIIª Copa do Mundo, a seleção marroquina eliminou os dois países da Península Ibérica, e, se depender do apoio do mundo do futebol, “dará o troco” à França na segunda semifinal de amanhã (dia 14).
Ao contrário dos métodos ambiciosos e opressivos de belgas e britânicos, que exploravam as riquezas do solo dos territórios invadidos, ou a exploração da mão de obra dos seus povos, portugueses, espanhóis e franceses se sentiram atraídos pela posição geográfica do Marrocos, cujo imenso litoral é banhado pelo Atlântico e pelo Mar Mediterrâneo, e pela facilidade de acesso ao sul da Europa através do Estreito de Gibraltar.
A vitória dos Aliados na 2ª Guerra Mundial causou a desocupação de territórios ocupados na África. Antes, uma insurreição popular expulsou os colonizadores portugueses, mas França e a Espanha só aceitaram a independência do Marrocos em março de 1956, e a consequente volta ao país do sultão Maomé V, que se achava no exílio. A Espanha mantém sob sua jurisdição em território marroquino as cidades de Melilla e Ceuta (porto de grande importância comercial situado na entrada do Estreito de Gibraltar).
Marrocos conseguiu envolver sob sua bandeira uma enorme legião de torcedores, não somente o mundo árabe e a África Negra, mas legiões de imigrantes que vivem na Europa. Uma das virtudes dos torcedores marroquinos, que têm lotado os estádios no Catar, é o de ter abraçado a causa palestina, cujo território no Oriente Médio é reconhecido como Estado pela FIFA, mas não pela ONU, devido a pressão de Israel e Estados Unidos.
Após a desclassificação de sua seleção e a de Portugal, os brasileiros vestiram a camisa do Marrocos. Está provado que nove entre dez brasileiros escolhem a cidade de Buenos Aires quando planejam fazer sua primeira viagem ao exterior, mas, nem por isso, sugira a um torcedor da amarelinha dar seu apoio hoje aos “nuestros hermanos argentinos”,
“Pachequismo” e “vira-latismo”
“Acorda Pacheco e vai trabalhar porque o Brasil já está fora da Copa do Mundo”. O fanático torcedor ainda não tinha tomado consciência de que nesta terça-feira, dia 13, sua seleção já havia deixado o Catar. O chamado da mulher desfez o seu sonho. Comércio e indústria funcionarão normalmente; os órgãos governamentais não decretarão ponto facultativo; professores e alunos estarão nas salas de aula; e a campanha de vacinação não será interrompida.
“Pacheco”, personagem desconhecido para os que nasceram neste século, foi criado por uma agência de propaganda um ano antes do Mundial 82 da Espanha, estimulada pelo clima de euforia dos torcedores. Ninguém duvidava que a seleção que tinha Júnior, Falcão, Zico, Cerezo e Sócrates traria o “caneco”.
A Gillette do Brasil abraçou “Pacheco” e até selecionou um dos seus funcionários, o carioca de 40 anos, Natan Pacanowski, para dar vida ao personagem, que, vestido a caráter, desfilava pelo Rio de Janeiro, incentivando os torcedores e promovendo um produto comercial.
Contrariando o técnico Telê Santana, Pacheco (ou Natan) estava presente em toda a programação da seleção, viajando inclusive no mesmo voo para a Espanha e se hospedando nos mesmos hotéis. Medrado Dias, chefe da delegação da CFB, comentou que “Pacheco” estava “aparecendo mais dos que os jogadores”.
Depois dos três gols do italiano Paolo Rossi, que decretaram a eliminação do Brasil, “Pacheco” despiu a fantasia e assumiu sua verdadeira identidade. Decepcionado, trocou os jogadores de futebol pelos cavalos e foi ser comentarista de turfe num rádio carioca. “Pacheco” deixou milhões de descendentes, que a cada quatro anos jogam suas fichas na bilionária seleção brasileira.
O “pachequismo” teve pelos menos a virtude de desmistificar (talvez) o conceito de vira-lata atribuído ao brasileiro pelo dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues, após a derrota de 50, no Maracanã: “Entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol”, escreveu.
Num ano marcado pelo ódio bolsonarista e religioso – será que vão chamar Sherlock Holmes para descobrir quem incendiou a escultura de Mãe Stela de Oxóssi, em Salvador, quando todos nós sabemos? -, os brasileiros mais humildes, moradores das periferias, que levam dias sem ter o que comer, fazem um esforço e compram no camelô a “amarelinha” da seleção, e ornamentam de verde e amarelo os becos onde moram.
Esse ritual vem se repetindo desde 2006, mas sempre há um time da Europa (pela ordem, França, Holanda, Alemanha, Bélgica e Croácia) para impedir o tão sonhado hexa – o técnico Tite se recusou a fazer amistosos contra seleções europeias -, sob os mais diversos motivos.
A imigração africana e a desvalorização das moedas sul-americanas, principalmente o real e o peso argentino, vêm contribuindo para a evolução do futebol europeu, um cenário que não vai mudar nem a longo prazo. É o velho capitalismo, o mesmo sistema que na Copa de 54 derrubou a Hungria (soviética) diante da Alemanha Ocidental, em plena Guerra Fria.
A terra e a grama dos campos de futebol no Brasil, se procuradas, não seriam encontradas nas solas das chuteiras de 23 dos 26 jogadores que estavam no Catar.
