AtlasIntel/A Tarde: Jerônimo vira sobre ACM Neto, PT lidera para o Senado e Lula abre 30 pontos
No olhar do passado
Fico aqui olhando cabreiro essas campanhas eleitorais, como um matuto sertanejo desconfiado e calejado de tanto apanhar na vida, e tudo me faz voltar ao passado histórico de um Brasil arcaico e que ainda continua atrasado, num rumo incerto.
Para alguns, não adianta muito olhar para trás senão o sujeito vira uma pedra de sal, se temos que nos agarrar à sobrevivência do dia a dia, à luta renhida para garantir a vida nesse bruto sistema! “Cada um por si e Deus por todos nós”.
Revisito também minha vida desde aqueles tempos de menino na árdua labuta da roça, as primeiras letras do bê-á-bá, com cenas marcantes que se fixaram para sempre em meu subconsciente, como o desespero de encontrar aqueles trocados tostões perdidos no areal calorento dos tropeiros mercantes.
Eram uns simples trocados de umas pequenas compras na venda do vizinho (farinha, sal, feijão e açúcar), mas que faziam grande falta, como ainda até hoje. Traquinagens de crianças que meu pai punia no cinto do couro cru. Hoje os pais não ralham mais com os filhos porque não têm mais tempo para isso e se entretêm com o celular ou com seu cachorro de estimação como se fosse do seu mesmo sangue.
Épocas duras, carrancudas e difíceis e que não mudaram muito, meu camarada! De tantas amarrotadas pelo sol escaldante deste sertão profundo, apenas foram repintadas com outras cores das ilusões. Acreditamos que elas vão nos dar sustança e recarregar nossas esperanças e energias combalidas.
Nascemos com o medo e ele está sempre nos acompanhando. Temos medo do que será, do que virá nesse futuro próximo duvidoso de tanta ebulição na humanidade desumanizada, das catástrofes do aquecimento global e das eleições, que até esquecemos do carrasco da morte batendo de supetão em nossas portas.
Ainda ouço gritos estridentes de seus mandatários colonizadores do poder, tanto de um lado como do outro, dando ordens aos seus escravos e súditos, como donos das extensas sesmarias, ainda apinhadas de índios que foram barbaramente massacrados.
Veio o Senhor Império do monarca absoluto com sua nobreza de elites, seguindo o mesmo rojão no tocar da tropa estropiada de tanta carga pesada sobre o lombo. As masmorras e os troncos para aqueles que contestavam suas arbitrariedades.
Depois nasceu um novo raiar do dia avermelhado cheio de tons no dorso de um cavalo malhado para anunciar a chegada deslumbrante de uma Senhora sorridente chamada de República, prometendo aliviar os gemidos dos doentes das injustiças e até curar as feridas abertas na fraca carne dos esquecidos e abandonados pelos tiranos.
Após um olhar mais capcioso e atento, vimos que na garupa do belo animal de raça desta Senhora da esperança lá estava uma outra dama presunçosa de nome oligarquia trazendo consigo o ferro de ferrar o gado que apenas havia mudado de pasto, mas os donos eram os mesmos.
Os proprietários dessa burguesia só mudaram seus métodos, de acordo com o tempo. Eram ainda mais astutos, brutais, sagazes, luxuriosos, gulosos, avarentos e com mais ganância, apetite e ambição, do tipo do querer mais e mais para empanturrar suas panças gordas cheias de tripas grossas.
Mais mentes malignas e mais ingredientes em seus intestinos de merdas para cagar em nossos pedaços mirrados de chão ou nossos quintais maltratados onde até o orvalho do amanhecer foi ficando cada vez mais seco e escasso. Cadê as flores do nosso jardim? O que fizeram delas? Arrancaram até os nossos sonhos e jogaram no monturo.
Como consequência, o ambiente ficou fedorento, de odor insuportável, mas fomos nos acostumando ao ponto de não sentirmos mais nada, nem raiva, nem indignação e dor de cabeça. O próprio organismo foi se adaptando ao ambiente dos esgotos a céu aberto. Nos criamos sendo produtos do próprio meio.
Nos intervalos desses Senhores e dessa Senhora, com suas botas de chumbo nos esmagaram com suas opressões, ditaduras, torturas e mortes. Rasparam praticamente nossos pratos da liberdade; nos deixaram famélicos; e roubaram nossos maiores bens que foram a educação, a cultura, o conhecimento e o saber.
Oh quanta melancolia! Ainda vivemos e nos alimentamos do sabugo do milho, raspando os últimos farelos do tacho. Dos seus banquetes, sentada na cabeceira da mesa, ainda está lá aquela Senhora, outrora elegante que há muitos anos apareceu em seu cavalo galopante.
Hoje, esta dita Senhora se encontra obesa, troncha, manca, feiosa, toda enrugada, ranzinza e malvada, prostrada em sua surrada poltrona, confabulando e tramando entre seus pares Senhores como usurpar nossas riquezas e surrupiar o pouco que temos. Ela nos afiançou que era coisa pública, mas sempre foi privada.
Como ato de sarcasmo e sadismo, cada um comendo como bárbaros, eles jogam as migalhas para a plebe como forma de diversão e apreciam em gargalhadas a disputa acirrada pelos restos ou sobras, na maioria ossos e cartilagens.
Oh eleição, filhota bastarda daquela Senhora, de olhar vesgo e traiçoeiro, que nos faz voltar ao passado, refletir o presente e buscar o futuro perdido no horizonte! Todas as vezes que aparece em sua janela, nos faz acreditar nas mudanças e em dias melhores para os desamparados e desvalidos.