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José Dirceu na festa de Yemanjá: afeto, política e a Bahia nas Eleições de 2026
Por Joílson Bergher
Resumo: este ensaio analisa a presença de José Dirceu na festa de Yemanjá, na Bahia, como fenômeno político-afetivo que transcende a biografia individual e se insere no imaginário simbólico da esquerda brasileira. Argumenta-se que sua figura, em um contexto ritualístico de forte apelo popular e ancestral, opera como catalisadora de memórias afetivas e lealdades políticas, ao mesmo tempo em que evidencia a posição geoestratégica decisiva do estado da Bahia no cenário eleitoral de 2026. A análise, de caráter interdisciplinar, articula conceitos de antropologia política, ciência política e estudos culturais para decifrar a ressonância desse evento singular.
Palavras-chave: José Dirceu. Yemanjá. Bahia. Eleições 2026. Afeto político. Simbolismo.
1-Introdução.
A aparição pública de figuras políticas em cenários de grande carga cultural e religiosa nunca é um ato inocente. Quando se trata de José Dirceu – personagem histórica de trajetória marcada pela militância, pelo exercício do poder central e por intensos conflitos jurídicos – participar das celebrações para Yemanjá, em Salvador, o evento adquire camadas complexas de significado. Mais do que uma simples aparição, trata-se de um ato de imersão e pertencimento que conecta a trajetória de um homem à história coletiva de um povo e de um território. Este texto propõe uma reflexão sobre o significado político e afetivo desse gesto e, a partir dele, projeta a importância fundamental do estado da Bahia no processo eleitoral de 2026, entendendo que a política eleitoral no Brasil, e especialmente neste estado, é feita tanto de programas e alianças quanto de símbolos, afetos e memórias compartilhadas.
2-A Festa de Yemanjá como palco político-afetivo.
Yemanjá, orixá das águas, mãe de todos, é a senhora da gestação, do cuidado e da reconciliação. Sua festa, no dia 2 de fevereiro, é um dos maiores eventos populares da Bahia, reunindo fiéis de diversas matrizes e turistas em um espetáculo de fé, cor e oferendas ao mar. É um espaço de comunhão, onde o pessoal e o coletivo se fundem. A presença de um líder político como Dirceu nesse ambiente não é mera “visita”; é um ritual de reinserção e reconexão.
Do ponto de vista afetivo, Dirceu carrega, para um segmento significativo da população, a aura do militante da esquerda histórica, do exilado, do ministro que implementou políticas sociais estruturantes nos governos Lula. Sua imagem está ligada a uma nostalgia afetiva por um projeto político específico. Ao comparecer à festa de Yemanjá, ele não fala apenas como indivíduo, mas como uma ponte para essa memória coletiva. O afeto, aqui, é uma força política: é a capacidade de mobilizar sentimentos de identificação, lealdade e pertencimento que transcendem análises racionais imediatas. Nesse sentido, atua no campo do que Boaventura de Sousa Santos (2010) chamaria de uma “gramática do tempo” emocional, onde passado e presente se fundem para projetar futuros políticos.
Politicamente, seu gesto é um ato de territorialização. Ao se colocar no coração da cultura baiana mais autêntica e massiva, ele sinaliza pertencimento e respeito à identidade local. Reafirma, simbolicamente, um alinhamento com as bases populares que constituem o núcleo duro do petismo e da esquerda na região. É uma mensagem não-verbal poderosa: “Estou aqui, com vocês, nas suas lutas e nas suas festas”. Este movimento se insere na dinâmica analisada por Bombarolo (2018), para quem a dimensão simbólica da ação coletiva é constitutiva da política, especialmente em contextos onde a cultura popular é um repertório vital de comunicação e mobilização.
3-A Bahia como arena decisiva em 2026: para Além dos números. A centralidade da Bahia no tabuleiro eleitoral de 2026 pode ser compreendida em alguns níveis interligados:
3.1-Dimensão quantitativa e geoestratégica.
A Bahia possui o maior colégio eleitoral do Nordeste e o quarto do país. Qualquer projeto nacional vitorioso precisa passar por uma performance sólida no estado. Aqui se redefiniu alianças e forçou uma reavaliação estratégica. Reconquistar a hegemonia (ou, no mínimo, uma competitividade acirrada) no estado é, portanto, questão fundante e política. A Bahia é o berço da brasilidade mestiça, da cultura negra e da resistência popular. É um símbolo nacional. Vencer na Bahia não significa apenas somar votos; significa conquistar uma chancela simbólica poderosa, a de ser legítimo representante das raízes profundas do país.
A política na Bahia é feita de corpo, música, fé e festa. Como aponta Prandi (2005), os orixás, e Yemanjá de forma destacada, estão profundamente inscritos na vida social brasileira, constituindo um sistema de referência ético e comunitário. Campanhas que ignoram essa linguagem e se restringem ao plano discursivo-racional estão fadadas ao insucesso. A aparição de Dirceu em Yemanjá é uma exemplificação prática dessa gramática política alternativa.
3.2-Dimensão dos afetos políticos: o eleitorado baiano, especialmente nas camadas populares, vota com uma lógica relacional e afetiva. A política é percebida através de vínculos de longo prazo, de presença, de compartilhamento de códigos culturais. A figura de Lula, por exemplo, é imbricada num afeto familiar (“Lulinha”). A reconstrução de pontes afetivas, é tarefa primordial. A cena de Dirceu na festa é um insumo para essa reengenharia afetiva, relembrando vínculos passados e os reatualizando em um cenário sagrado e emocionalmente carregado, o que remete à análise de Almeida (2015) sobre a permeabilidade entre a esfera política e a esfera do sagrado na formação da opinião pública no Brasil.
4-Conclusão: a sinfonia do Rio Vermelho.
A imagem de José Dirceu no Rio Vermelho, em meio ao povo, no dia de Yemanjá, é um microcosmo da complexa política brasileira. Ela sintetiza a inseparabilidade entre o político e o cultural, entre o cálculo eleitoral e a gestão dos afetos. Demonstra que, na Bahia, a disputa pelo poder se dá tanto nos palanques e nos programas de governo quanto nos terreiros, nas ruas e nas festas populares.
Para 2026, a Bahia se apresenta não como um Estado qualquer, mas como o campo de batalha decisivo onde se definirão os rumos do país. Sua reconquista exigirá muito mais do que plataformas econômicas; exigirá uma imersão genuína em sua cultura, uma escuta atenta de seus anseios e uma habilidade de falar a linguagem do coração e do símbolo. A festa de Yemanjá, e aqueles que nela sabem se inserir com autenticidade, nos lembra que, na Bahia, o futuro político do Brasil também se decide na oferenda que se lança ao mar, na fé que se deposita na Mãe d’Água e no afeto que se tece na areia da praia. É a aplicação concreta da “gramática do tempo” afetiva e simbólica, sem a qual a política se reduz a um exercício estéril.
Referências.
ALMEIDA, Ronaldo de. A política e o sagrado: religião e esfera pública no Brasil. Novos Estudos CEBRAP, n. 103, p. 117-133, 2015.
BOMBAROLO, Félix. Política e cultura: a dimensão simbólica da ação coletiva. São Paulo: Edunesp, 2018.
MISSE, Michel. A Bahia é o coração político do Brasil? Ensaios de sociologia política. Salvador: Edufba, 2021.
PRANDI, Reginaldo. Segredos guardados: orixás na vida brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
SANTOS, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez, 2010.
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Joilson Bergher. Profissional da Área de Filosofia.
