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Globo Lixo: bolsonarismo vai ter que comer no prato em que cuspiu

05/07/2022 10 min read

AA

 Globo Lixo:  bolsonarismo vai ter que comer no prato em que cuspiu

 

Madeleine Lacsko

Colunista do UOL

Assistir televisão escondido já foi sina da intelectualidade brasileira. Chacrinha, que virou cult agora, fazia muita gente revirar os olhos. Mas nem por isso o pessoal deixava de ver o programa.

Era comum ouvir comentários elitistas asquerosos que começavam com “estava passando na porta do quarto da minha empregada quando vi a cena tal no Chacrinha”. Obviamente era para condenar o programa. E a cena durava mais ou menos uma hora.

Nos últimos anos, é a paquita de populistas quem vê novelas escondida. Foi no governo Lula que começou a moda da militância atacar equipes de televisão, o que foi minimizado pela própria imprensa. Vigorava a máxima que “repórter não é notícia”.

Mas é impossível negar que ninguém encarnou a cruzada contra a Rede Globo e a imprensa em geral de forma tão perfeita quanto Jair Bolsonaro. Obviamente foi mais no discurso que na prática.

Para os militantes, no entanto, pouco importou adotar uma palavra de ordem similar a “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”, entoada pelo petismo. A hashtag #GloboLixo virou um hit da militância bolsonarista.

É um momento em que as críticas extrapolaram o jornalismo em si que, para os militantes, tem como único objetivo desqualificar o presidente da República.

Para parte deste público, as novelas também são uma tentativa de impor costumes que seriam um plano de destruição da família. Depois, o conceito foi extrapolado para programas de auditório e reality shows.

Pode parecer uma narrativa surreal destinada a pessoas completamente desconectadas da realidade. Fosse tão simples assim, não haveria tanta gente que embarca nela.

A narrativa funciona bem porque realmente há um distanciamento entre o que pensa o povo, que é conservador, e o que pensa a maioria da elite da comunicação, que é progressista.

O petismo tratou a mídia golpista pela óptica da luta de classes. Seriam agentes das elites brasileiras tentando manter intactos os privilégios dos donos do poder. Entre eles, obviamente, não estavam os petistas, que seriam único elo direto com os desejos do povo.

Funciona bem e realmente foi efetivo com a militância, mas não é tão figadal. Tem ainda a desvantagem de manter a narrativa restrita ao departamento de jornalismo e não ao projeto de comunicação como um todo.

O bolsonarismo conseguiu encaixar essa diferença de visão de mundo na pauta política, convertendo cada crítica ao governo em uma ameaça velada aos valores mais caros ao cidadão comum.

Diante da realidade desastrosa da economia e de um teto de votação que parece empacado, o presidente resolve dobrar o investimento na Globo, na Globo Lixo. Vai obrigar o bolsonarista a comer no prato em que cuspiu esses anos todos.

Para muitas pessoas, investimento governamental quer dizer noticiário favorável. Pode ser assim em alguns casos, mas não é em todos, para desespero dos políticos. De qualquer forma, diante do perigo de não ir ao segundo turno, vale a pena decepcionar a militância que é fiel e vai engolir seco.

Jair Bolsonaro precisa mostrar realizações a um público que mal tem contato com os blogueiros de aluguel ou as correntes de whatsapp que o idolatram como se fosse a salvação do mundo.

Inserções de propaganda oficial são uma forma de mostrar que algo vem sendo feito. Se o noticiário vai mostrar os desmandos do governo, no meio da novela haverá filmetes mostrando alguma realização.

Comentaristas continuarão fazendo suas análises políticas e econômicas mas, no meio do futebol, uma propaganda falará de alguma realização do governo federal.

Parece pouco, mas é muita coisa para quem tem diante de si um inimigo implacável, a realidade econômica.

 

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