Após governo suspender contratos, paciente transplantada teme perder o rim…


A comunicadora Renata Vilela, 34, ganhou um novo rim no dia 17 de julho de 2008. Exatos 11 anos depois, completados nesta semana, ela soube pelo noticiário que o Ministério da Saúde suspendeu os contratos com sete laboratórios públicos que fornecem remédios de alto custo e uso controlado. Embora seu medicamento não esteja na lista, ela teme que o governo o inclua a qualquer momento, já que o laboratório teve contratos suspensos.

O Ministério da Saúde justificou sua decisão alegando “falta de cumprimento dos cronogramas previstos”, segundo nota oficial. As parcerias garantiam a transferência de tecnologia de um laboratório privado para outro público com o objetivo de permitir a produção em solo nacional de remédios estratégicos para o SUS (Sistema Único de Saúde).

Renata passou três anos e meio na fila do transplante depois que seus dois rins pararam de funcionar. Sua mãe já havia doado um dos rins ao marido, e ninguém na família era compatível com o organismo de Renata.

Enquanto aguardava um doador, passava diariamente por uma diálise peritoneal, diferente da tradicional hemodiálise. “Eu tive um cateter implantado e podia retirar em casa as toxinas do corpo. Todo o tratamento foi custeado pelo SUS.”

Apesar da maior autonomia, o tempo dedicado ao tratamento e a restrição alimentar a impediu de concluir seus estudos em uma universidade pública no interior. “Estudava em período integral e foi impossível conciliar as duas rotinas.”

A boa notícia chegou em 2008. Dona Andréa Reusing, sua madrinha, doou-lhe um dos rins. “A partir daí ganhei qualidade de vida. Não preciso mais ficar presa a uma máquina em período nenhum.”

Para continuar assim, no entanto, Renata precisa obedecer a outra rotina. A cada três meses ela faz exame de sangue e urina e passa por uma consulta para saber se o rim está em boas condições. Com a receita em mãos, pode solicitar o remédio em uma farmácia pública. “Sem os medicamentos, meu corpo criaria anticorpos e rejeitaria o órgão. Eu perderia o rim e, talvez, a vida”, conta.

Com o [possível] desabastecimento, eu teria de pedir ajuda aos amigos [no exterior]. Consigo segurar um mês, fazer vaquinha, mas a maior parte das pessoas não é de classe média. Se para mim seria um transtorno, para a maioria é questão de vida. Para mim também é. Não sei por quanto tempo conseguiria ajuda para um tratamento contínuo

Renata retira seus medicamentos em uma farmácia pública uma vez por mês. É preciso chegar no dia e hora marcados, e esperar, em média, três horas na fila. “Tenho sempre de negociar folga com meu chefe porque não há nenhuma lei que regule o assunto.”

“Os remédios são fortíssimos”, diz. Os dois (Tacrolimus e Azatioprina) são produzidos pela Furp (Fundação para o Remédio Popular), um dos laboratórios com o contrato suspenso pelo governo. “A bula é gigantesca. Tive queda de cabelo, aumento de peso e já fui diagnosticada com crise de depressão orgânica.”

Quando falta o remédio
Renata conta que sempre recebeu seus medicamentos no dia marcado, até que eles começaram a faltar em 2016, no governo Michel Temer (MDB-SP). “Foi uma correria. No Brasil esses remédios não são vendidos em nenhuma farmácia tradicional. Peguei alguns comprimidos no consultório do médico, comecei a pedir aos amigos que moram no exterior.”

Há alguns anos ela deixou de receber um relatório que informava o custo dos medicamentos, que somavam R$ 2.500 na época. “Hoje, não faço ideia do quanto custam. Para conseguir no exterior, precisaria de uma receita válida fora do Brasil. Nem sei como fazer isso.”

Ela diz que sem os remédios, seu o rim transplantado pode ser rejeitado e ela pode “até morrer”. “Eu voltaria para a diálise se desse tempo. Agora, imagina uma volta em massa de pacientes para a diálise. As clínicas não dariam conta.”

O que me angustia é não saber se no mês que vem eu conseguirei pegar meus remédios na farmácia.
Quando você faz um tratamento contínuo você lida com a morte o tempo todo. O que não comer, o que não fazer, obrigação de ir ao médico. O governo acrescentou mais uma variável a isso: o medo.

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