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O legado social da Revolução Cubana: como uma pequena ilha transformou saúde, educação e solidariedade internacional
Políticas desenvolvidas sob Fidel Castro fizeram de Cuba referência em alfabetização, formação médica e cooperação internacional, apesar das dificuldades econômicas enfrentadas pela ilha.
Quando Fidel Castro e os guerrilheiros do Movimento 26 de Julho chegaram ao poder, em janeiro de 1959, Cuba era um país profundamente desigual. Cem anos depois do nascimento do líder da Revolução Cubana, uma das questões centrais para avaliar seu legado está fora dos campos de batalha e dos grandes confrontos da Guerra Fria: o impacto social do modelo construído pela Revolução.
Saúde e educação tornaram-se dois dos principais pilares da legitimidade interna e da projeção internacional cubana. Ao longo de décadas, o governo concentrou recursos na universalização dos serviços públicos, ao mesmo tempo em que a ilha enfrentava limitações econômicas, escassez de bens, baixa produtividade e o prolongado embargo dos Estados Unidos.
O resultado é uma experiência social que continua provocando interpretações opostas, mas que exerceu influência muito além do território cubano.
A campanha contra o analfabetismo
Uma das primeiras grandes mobilizações sociais da Revolução foi a campanha nacional de alfabetização de 1961.
Professores, estudantes e voluntários foram enviados a zonas rurais e comunidades pobres com a missão de ensinar pessoas que haviam permanecido à margem do sistema educacional.
A alfabetização assumiu desde o início uma dimensão política. Para o novo governo, o acesso à educação deveria ser entendido como direito e também como instrumento para transformar a estrutura social herdada do período anterior à Revolução.
A expansão do ensino público continuou nas décadas seguintes, acompanhada da formação de professores e da ampliação do acesso ao ensino superior.
Essa prioridade educacional tornou-se uma das marcas internacionais de Cuba.
A medicina como política de Estado
A saúde seguiu caminho semelhante.
Cuba desenvolveu um sistema público de caráter universal, baseado especialmente na atenção primária e na medicina preventiva. A formação de médicos passou a ocupar posição estratégica na política nacional.
A experiência produziu um fenômeno incomum: um país pequeno e de renda relativamente baixa passou a formar profissionais de saúde em escala suficiente para atender sua população e enviar milhares deles ao exterior.
A criação da Escola Latino-Americana de Medicina, em Havana, ampliou esse projeto. Jovens de diversos países passaram a receber formação médica em Cuba, incluindo estudantes provenientes de comunidades de baixa renda.
A medicina transformou-se, dessa forma, em instrumento simultaneamente social e diplomático.
Médicos cubanos pelo mundo
Desde os primeiros anos da Revolução, Cuba enviou equipes de saúde a outros países.
Ao longo das décadas, profissionais cubanos trabalharam na América Latina, Caribe, África e outras regiões, inclusive em cenários de catástrofes naturais e epidemias.
Essa política tornou-se uma das faces mais conhecidas do internacionalismo cubano.
No Brasil, sua expressão mais conhecida ocorreu com o programa Mais Médicos, lançado durante o governo da presidente Dilma Rousseff. Milhares de profissionais cubanos atuaram em municípios e comunidades com dificuldade histórica de acesso regular a médicos.
A presença dos cubanos tornou-se objeto de forte disputa política, mas também levou para o centro do debate nacional um problema estrutural: a distribuição extremamente desigual dos profissionais de saúde pelo território brasileiro.
O preço da resistência econômica
Os indicadores sociais cubanos, porém, não podem ser analisados isoladamente das dificuldades materiais enfrentadas pelo país.
O embargo econômico imposto pelos Estados Unidos há mais de seis décadas restringiu transações financeiras e comerciais e tornou mais difícil o acesso cubano a determinados mercados, tecnologias e fontes de financiamento.
Havana atribui ao bloqueio parte central das dificuldades econômicas da ilha.
Críticos do governo cubano, por outro lado, sustentam que problemas internos do modelo econômico — incluindo baixa produtividade, centralização excessiva e limitações à iniciativa privada — também tiveram papel importante na escassez e no baixo crescimento.
As duas dimensões fazem parte da realidade cubana.
A situação tornou-se especialmente dramática depois do desaparecimento da União Soviética, que durante décadas havia sido o principal parceiro econômico e estratégico da ilha.
Um modelo que virou instrumento diplomático
Uma das características mais singulares do projeto construído durante a liderança de Fidel foi transformar capacidades sociais internas em instrumentos de política externa.
Cuba não podia competir com as grandes potências em recursos financeiros, comércio ou poder militar global. Passou, entretanto, a exercer influência por meio da medicina, da educação e da cooperação técnica.
Essa estratégia deu à ilha uma presença internacional desproporcional ao tamanho de sua economia.
Também contribuiu para construir relações políticas profundas com países da África, América Latina e Caribe.
A experiência cubana continua sendo objeto de disputa justamente porque reúne dimensões difíceis de separar: conquistas sociais, limitações econômicas, solidariedade internacional, centralização política e resistência a uma pressão externa excepcionalmente prolongada.
No centenário de Fidel Castro, saúde e educação permanecem entre os terrenos mais concretos para avaliar a Revolução que ele liderou. Mais do que discursos ou símbolos, são áreas nas quais o projeto iniciado em 1959 deixou marcas que atravessaram as fronteiras de Cuba.