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Ex-comandante da Aeronáutica revela pressão de Bolsonaro por golpe: “dois cartões amarelos”
O ex-comandante relata ainda ter dito diretamente ao então presidente que ele não permaneceria no cargo depois de 1º de janeiro de 2023, data da posse de Lula.
O ex-comandante da Aeronáutica Carlos de Almeida Baptista Júnior afirma que Jair Bolsonaro tentou pressioná-lo após a derrota nas eleições presidenciais de 2022. Em uma das reuniões entre o então presidente e a cúpula das Forças Armadas, Bolsonaro teria dito ao militar: “Já te dei dois cartões amarelos”.
O episódio é relatado por Baptista Júnior no livro “Eu disse NÃO: uma trincheira antigolpista”, da Autêntica Editora. A obra reúne relatos sobre as tensões, divergências e pressões enfrentadas pela cúpula militar no período posterior à eleição de Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo o ex-comandante, a declaração de Bolsonaro representava uma tentativa de pressioná-lo por causa de sua postura em defesa do cumprimento da legislação e da transição democrática. Ainda em 2022, Baptista Júnior havia afirmado, em entrevistas ao GLOBO e à Folha de S.Paulo, que as Forças Armadas respeitariam o resultado das urnas e prestariam continência ao presidente eleito, independentemente de quem fosse.
As declarações contrariavam as expectativas de Bolsonaro e, de acordo com o relato do militar, teriam motivado os chamados “cartões amarelos”.
Recusa de minutas golpistas
Baptista Júnior também relata que se recusou a assinar e até mesmo a receber documentos que apresentavam propostas de ruptura institucional. Entre as minutas levadas para avaliação da cúpula militar estavam textos que previam medidas como Estado de Sítio ou Estado de Defesa.
Segundo o ex-comandante, em uma reunião realizada no Ministério da Defesa, ele percebeu o teor de um dos documentos apresentados e decidiu deixar o local imediatamente. A postura, segundo seu relato, fazia parte de sua decisão de não participar de qualquer iniciativa que pudesse resultar em uma ruptura da ordem constitucional.
O episódio teria ocorrido no contexto das discussões mantidas pela cúpula das Forças Armadas após a derrota eleitoral de Bolsonaro, quando integrantes do governo e aliados do então presidente discutiam alternativas diante da vitória de Lula.
Alinhamento com Freire Gomes
Baptista Júnior afirma que manteve uma posição de resistência ao lado do então comandante do Exército, general Freire Gomes. Os dois teriam defendido que as Forças Armadas não poderiam participar de uma eventual tentativa de golpe.
De acordo com o relato do ex-comandante da Aeronáutica, Freire Gomes chegou a advertir Bolsonaro de que teria de prendê-lo caso o então presidente tentasse efetivamente consumar uma medida ilegal.
As posições dos dois militares contrastavam com a postura atribuída ao então comandante da Marinha, almirante Almir Garnier, que, segundo depoimentos e investigações posteriores, teria demonstrado disposição favorável às iniciativas discutidas por Bolsonaro. Garnier, no entanto, também apresentou sua versão sobre os acontecimentos.
Pressão e ataques
Baptista Júnior afirma ainda que sua postura legalista provocou uma série de pressões políticas e ataques nas redes sociais. Segundo ele, as ofensivas partiram de pessoas próximas a Bolsonaro e também de outros integrantes das Forças Armadas.
Entre os militares citados no relato está o general Walter Braga Netto, que foi ministro da Defesa e candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro em 2022.
O ex-comandante afirma que as intimidações e ofensas não ficaram restritas a ele e chegaram também à sua família. Os ataques teriam ocorrido em meio à pressão exercida sobre os militares para que apoiassem alguma medida contra o resultado das eleições.
“Grupo dos quatro”
Baptista Júnior descreve ainda as reuniões que passaram a ocorrer com frequência entre os principais integrantes da cúpula militar. Participavam dos encontros o próprio comandante da Aeronáutica, o general Freire Gomes, comandante do Exército, o almirante Almir Garnier, comandante da Marinha, e o general Paulo Sérgio Nogueira, então ministro da Defesa.
O grupo ficou conhecido informalmente como “grupo dos quatro”. Segundo Baptista Júnior, os encontros foram marcados por confrontos e divergências sobre a reação das Forças Armadas à contestação do resultado eleitoral promovida por Bolsonaro.
Em meio às discussões, o ex-comandante relata ter dito diretamente ao então presidente que ele não permaneceria no cargo depois de 1º de janeiro de 2023, data da posse de Lula.
O livro apresenta a versão de Baptista Júnior sobre os bastidores do período posterior à eleição de 2022 e sobre sua atuação para impedir que as Forças Armadas fossem utilizadas em uma tentativa de ruptura institucional.
“Eu disse NÃO: uma trincheira antigolpista” será lançado pela Autêntica Editora em 15 de setembro.
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