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“Vendilhões da pátria”, “traidores”, “covarde”: Lula diz que Flávio e Eduardo conseguem ser piores que Bolsonaro; vídeo

02/06/2026 14 min read

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 “Vendilhões da pátria”, “traidores”, “covarde”: Lula diz que Flávio e Eduardo conseguem ser piores que Bolsonaro; vídeo
- Flávio, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo com Donald Trump: Lula denuncia "vendilhões da pátria" (Divulgação/ Ricardo Stuckert PR)

Lula expôs ação de Eduardo e Flávio Bolsonaro junto a Donald Trump que resultou em novo tarifaço contra produto o Brasil. Presidente afirmou que nenhum grupo político que já enfrentou “teve a sordidez política que a gente vê com essa família metralha”.

Em forte discurso em Catalão, em Goiás, nesta terça-feira (2), o presidente Lula expôs o lobby de Flávio e Eduardo Bolsonaro (PL) junto ao governo Donald Trump, que resultou em um novo tarifaço de 25% sobre os produtos brasileiros, e afirmou que “que esses filhos do Bolsonaro conseguem ser pior do que ele”.

“Ontem eu soube da notícia que o Comércio Americano resolveu taxar o Brasil em 25% quando nós estávamos em negociação, quando eu tinha tido uma reunião com o presidente Trump. O que eu quero dizer com isso? É que esses filhos do Bolsonaro conseguem ser piores do que ele. E são, na verdade, vendilhões da pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras. É isso que vocês têm que dizer alto e bom som: são traidores”, disparou Lula.

O presidente voltou a comparar Flávio Bolsonaro com Joaquim Silvério dos Reis, traidor dos inconfidentes mineiros, e chamou o adversário de “covarde”, por mentir dizendo que não pediu a atuação de Trump contra o Brasil.

“Por menos do que isso, Joaquim Silvério dos Reis, que delatou Tiradentes, foi enforcado. O que merece os traidores da pátria que vão pedir intervenção de um país no nosso país? Pensem, meditem. Porque esse cidadão hoje aparece lá em frente dizendo: “Eu não falei nada, eu não falei nada”. Todo covarde é assim, fala a merda que fala, depois não tem coragem de assumir o que fala, fica tentando mentir”, disparou o presidente, que deu detalhes da negociação com o governo Trump no início do discurso.

Lula ainda falou que nenhum grupo político que já enfrentou “teve a sordidez política que a gente vê com essa família metralha, que assumiu o governo de 2018 a 2022”.

“Hoje [Flávio] foi dizer que não falou nada. Ele falou! Ele foi pedir arrego. Foi dizer: ‘porra, Trump, dá uma porrada no Lula, ataca o Lula porque o Lula vai ganhar tranquilo, prejudica o Lula’. Imbecil. Ele não sabe que ele não vai prejudicar o Lula. Ele vai prejudicar é o povo brasileiro. Ele vai prejudicar são os empresários brasileiros. Ele vai prejudicar é o agronegócio”, afirmou.

Veja o discurso na íntegra

Entenda

O governo dos Estados Unidos formalizou, em 1º de junho de 2026, a conclusão de uma investigação contra o Brasil conduzida pelo Escritório do Representante Comercial (USTR) e propôs a aplicação de tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.

A medida, determinada por ordem do presidente Donald Trump, classifica como “irrazoáveis” políticas brasileiras que vão do sistema Pix a decisões do Judiciário sobre redes sociais, e ocorre dias após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o irmão Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o fiel escudeiro Paulo Figueiredo se reuniram com Trump e o secretário de Estado Marco Rubio em Washington para pressionar por sanções contra instituições brasileiras. O prazo legal para que os EUA adotem medidas corretivas definitivas encerra-se em 15 de julho de 2026.

A investigação havia sido aberta em 15 de julho de 2025 por determinação direta de Trump e se apoia na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, instrumento que permite ao governo americano retaliar países cujas práticas sejam consideradas injustas ou prejudiciais ao comércio dos EUA. A proposta ainda depende de decisão final do presidente americano para entrar em vigor.

Antes de qualquer sanção definitiva, o USTR abriu o processo para consulta pública. Audiências estão agendadas para 6 de julho, e o prazo legal para a adoção das medidas corretivas expira em 15 de julho de 2026. A fase inicial da investigação já havia reunido mais de 30 depoimentos e quase 300 comentários, segundo informações disponíveis nas fontes do processo.

A lista de isenções, que ocupa 73 páginas do documento, preserva setores estratégicos para a própria economia americana: aeronaves civis, motores, peças e simuladores de voo estão fora da taxação, assim como produtos farmacêuticos, fertilizantes, químicos orgânicos, terras raras e uma série de alimentos tropicais. As exceções revelam que a ofensiva é calibrada para pressionar o Brasil sem provocar desabastecimento ou inflação interna nos EUA, o que evidencia o caráter político, e não estritamente comercial, da iniciativa.

Os alvos da ofensiva

O relatório do USTR vai muito além de tarifas sobre bens físicos. O documento explicita críticas ao sistema de pagamentos instantâneos Pix, alegando que o modelo representa favorecimento estatal em detrimento de provedores americanos de serviços financeiros. A acusação ignora que o Pix é uma infraestrutura pública regulada pelo Banco Central do Brasil, aberta a todos os participantes do sistema financeiro, nacionais e estrangeiros. O posicionamento formal do Banco Central sobre essas alegações ainda não foi divulgado publicamente.

Na prática, o lobby de Trump acordado com o clã Bolsonaro sobre o Pix acontece porque o sistema de pagamentos brasileiro afeta os negócios de bancos e do sistema financeiro dos EUA, especialmente das operadoras Visa e Mastercard, que estimam perdas de R$ 12 bilhões com seus cartões de créditos em razão dos pagamentos pelo método criado no Brasil. O motivo é a diferença nas taxas cobradas dos lojistas: enquanto o Pix custa em média 0,22% a 0,33%, os cartões de crédito cobram taxas médias superiores a 2,2%.

Outro afetado foi Mark Zuckerberg, já que o Pix impôs restrições para o WhatsApp Pay, da Meta. Recursos de transferência comercial no WhatsApp foram temporariamente retidos pelo Banco Central para análises regulatórias, o que a empresa alega ter servido para blindar a consolidação do Pix.

Outras gigantes da tecnologia, como Apple e Google também enfrentam perdas com o Apple Pay e Google Pay, ao perderem a centralidade das transações com o Pix e perdem dinheiro com taxas dos cartões Visa e Mastercard.

O relatório divulgado pelos EUA também classifica como “irrazoáveis” decisões judiciais brasileiras que determinaram a remoção de conteúdos políticos e a suspensão de perfis em plataformas digitais, além de contestar o sigilo imposto a ordens judiciais contra essas plataformas. Ao enquadrar decisões soberanas do Judiciário brasileiro como barreiras comerciais, o governo americano ultrapassa o terreno do comércio e adentra o da interferência institucional direta. O documento ainda aponta barreiras em propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e políticas de combate ao desmatamento como práticas que prejudicariam interesses americanos.

O conjunto dos alvos escolhidos pelo USTR não é aleatório. A regulação de plataformas digitais e o Pix são exatamente os temas que mais incomodam empresas de tecnologia americanas com operações no Brasil. Embora o relatório não cite nominalmente quais empresas foram ouvidas durante a investigação, o padrão de queixas reproduz com fidelidade a agenda que o setor de tecnologia dos EUA tem levado a Washington há anos.

O contexto político

A ofensiva tarifária não surgiu no vácuo. Entre os dias 26 e 29 de maio de 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) esteve em Washington, onde se reuniu com o presidente Donald Trump e com o secretário de Estado Marco Rubio. Segundo a representação protocolada na Procuradoria-Geral da República por parlamentares do PSOL e da Rede Sustentabilidade, o senador solicitou ao governo americano a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, além de ter articulado pressões contra o STF. A proposta de tarifas foi anunciada pelo USTR apenas três dias depois do encerramento da visita.

Paulo Figueiredo, empresário que acompanhou os irmãos Bolsonaro nas reuniões em Washington, confirmou à imprensa que ele e Eduardo Bolsonaro defenderam junto ao governo Trump a aplicação de sanções contra o ministro Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky, mecanismo que prevê punições financeiras e restrições de entrada nos EUA. “Fiz esse pedido em todas as reuniões que nós tivemos”, declarou Figueiredo. Segundo ele, Flávio Bolsonaro preferiu se “abster” desse tema específico, mas participou dos encontros.

Parlamentares do PSOL e da Rede acionaram a PGR pedindo a instauração de inquérito para apurar eventual prática do crime de “atentado à soberania nacional”, previsto no artigo 359-I do Código Penal, e solicitaram ao TSE análise sobre possível influência estrangeira no processo eleitoral.

A seletividade da medida americana também gerou críticas. A decisão dos EUA de classificar PCC e CV como organizações terroristas ignorou completamente as milícias, grupos paramilitares que atuam há décadas no Rio de Janeiro e que já tiveram lideranças homenageadas pela família Bolsonaro. Quando era deputado estadual, Flávio Bolsonaro concedeu homenagem a Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão da PM acusado de liderar uma das milícias mais violentas do estado. A omissão das milícias da lista americana reforçou suspeitas sobre a seletividade política da medida.

A resposta do governo

O governo brasileiro mantém negociações com Washington, mas enfrenta dificuldades concretas para reverter a postura americana. O próprio representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, admitiu publicamente que “continuamos a ter divergências substanciais na resolução das questões identificadas nesta investigação”, mesmo após o que descreveu como um “diálogo intenso” com o governo Lula. A declaração foi feita no mesmo comunicado em que o USTR anunciou a proposta de tarifas, esvaziando qualquer leitura otimista sobre o estado das negociações.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, refutou as críticas ao Pix, defendendo a autonomia do sistema e rejeitando a caracterização de favorecimento estatal contida no relatório americano. Celso Amorim, assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, foi mais direto ao reagir à classificação das facções criminosas como organizações terroristas: “Pretexto para intervenção é inaceitável”, afirmou em nota, ressalvando que a cooperação internacional em temas como lavagem de dinheiro e contrabando de armas é bem-vinda, mas que interferência nos assuntos internos do Brasil não será tolerada.

A frustração é visível. O grupo de trabalho bilateral criado após o encontro entre Lula e Trump na Casa Branca, em 7 de maio, foi constituído exatamente para evitar esse desfecho. As negociações estavam previstas para se encerrar em 5 de junho, mas os integrantes admitiram que não houve avanços suficientes. A estratégia de diplomacia direta com Trump, apostada por Lula, não impediu o anúncio da proposta tarifária e coloca o governo brasileiro numa posição defensiva às vésperas do prazo final de julho.

Implicações e riscos

Os riscos da ofensiva americana vão além das tarifas sobre exportações. A classificação do PCC e do CV como organizações terroristas pelos EUA abre caminho para que bancos e empresas brasileiras com operações ou correspondentes nos Estados Unidos sejam afetados por sanções secundárias, criando o que analistas descrevem como um efeito bumerangue sobre a própria economia do país. A extensão desse impacto depende de como Washington decidir aplicar a legislação antiterrorismo americana, mas o risco já é suficiente para gerar preocupação no setor financeiro.

No campo institucional, o STF busca mecanismos de defesa. Em agosto de 2025, o ministro Flávio Dino suspendeu a eficácia de decisões judiciais e normas estrangeiras que não tenham sido incorporadas ao ordenamento jurídico brasileiro, em decisão tomada na ADPF 1178, apresentada pelo Instituto Brasileiro de Mineração. O precedente representa uma barreira jurídica contra o intervencionismo externo e sinaliza que o tribunal não aceitará imposições que violem a soberania nacional. Ministros do STF, no entanto, evitam críticas públicas mais contundentes, cientes de que podem se tornar alvos de sanções como as previstas na Lei Magnitsky.

O debate sobre uma “lei anti-embargo” ganhou força como resposta à vulnerabilidade institucional exposta pela ofensiva americana. Propostas nesse sentido foram discutidas no passado, mas não avançaram no Congresso. A pressão atual pode mudar esse cálculo. O que a ofensiva do governo Trump deixa claro é que a política interna brasileira, das decisões do STF ao modelo do Pix, passou a ser tratada como variável de negociação comercial por Washington, com o auxílio ativo de parlamentares brasileiros que percorreram a capital americana pedindo sanções contra as próprias instituições do país.

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