Patamar histórico de 103 milhões de ‘pessoas ocupadas’ no Brasil enfrenta barreiras de melhorias no mercado de trabalho; entenda
Dados divulgados pela PNAD Contínua conflitam com mudanças na dinâmica entre os players do mercado, voltadas agora para qualidades interpessoais, em vez das técnicas.
Galgar a ‘escada do sucesso’ no mundo corporativo está cada vez mais distante das habilidades puramente técnicas. De acordo com o novo estudo da Harvard Business Review, que analisou aproximadamente 1 mil ocupações e 70 milhões de transições de carreira, a chance de conquistar salários mais altos e ascender a cargos sêniores ficou com os players que se destacavam nas ‘habilidades básicas’, as chamadas soft skills – a exemplo da capacidade em articular um bom trabalho em equipe.
Embora pareça simples, a comunidade global ainda vive um mercado de trabalho semelhante ao longa ‘Tempos Modernos’ (1936), de Chaplin. Com as habilidades interpessoais saltando de prioridade, um levantamento do Observatório de Carreiras e Mercado, do programa PUCPR Carreiras, revelou que, atualmente, as skills mais procuradas pelas corporações são: relacionamento interpessoal, buscado por 15,5% dos recrutadores; solução de problemas (14,7%); e comunicação escrita (9,3%).
Essas habilidades, valiosas aos olhos dos gestores, têm transformado o mercado de trabalho no Brasil. O país, que alcançou mais de 103 milhões de pessoas ocupadas, maior patamar histórico registrado pela PNAD Contínua, caminha para mudanças significativas nas dinâmicas do mercado, assim como nos processos de crescimento e na ascensão profissional.
Esse fenômeno é acompanhado pelo Mestre em Gestão e Tecnologia Industrial, Relações Públicas e Diretor da Agência CRIATIVOS, Rodrigo Almeida, que vê a desatenção em competências sociais, criatividade e inovação como armadilhas para barrar promoções na esfera profissional. “Isso costuma ocorrer com frequência, não necessariamente por falta do reconhecimento para com o agente, mas por falta de uma autoanálise do seu próprio posicionamento. Embora muitos profissionais sejam admiráveis na entrega do que foram contratados para fazer, progredir na carreira envolve mais do que consistência técnica. Crescer de cargo exige estar apto para lidar com pessoas, e sobretudo, ser percebido como ‘esse alguém’ capaz de operar em ambientes complexos de decisão, influência e articulação”, comenta.
Apesar do debate ter ganhado força nos últimos anos, não é de agora que o apelo às ‘soft skills’ são desejadas pelo mercado. Desde 1918, segundo a ata histórica “A Study of Engineering Education”, publicada por Charles Riborg Mann, mesmo na área de exatas (engenharia), as qualidades pessoais foram classificadas como sete vezes mais determinantes para o sucesso ou fracasso da empreitada, ao invés do próprio conhecimento na área.
Para Rodrigo Almeida, esse sucesso está pautado na forma como nos relacionamos com os ambientes corporativos. Exemplificando na prática, o Diretor da CRIATIVOS cita a comunicação assertiva, inteligência emocional, escuta ativa e empatia como a base dos degraus para ascender ao cargo almejado. À medida que se desenvolvem líderes, o profissional destaca novos desafios como influência social, capacidade de motivar, gestão de pessoas, adaptabilidade, gestão de conflitos e autocontrole.
“Essas são características básicas (e urgentes) para que a liderança não seja entendida como chefia. Mais do que isso, trata-se da capacidade de construir capital relacional e simbólico dentro das organizações, elementos invisíveis, mas decisivos nos processos de ascensão. Há, em alguns casos, uma dedicação quase exclusiva à execução, em detrimento da construção de presença, narrativa e percepção de valor. Fato é que não existem fórmulas prontas, existem cenários, contextos, pontos frágeis, potencialidades e objetivos. Existem possibilidades e cenários específicos para cada sujeito, que precisam levar em conta características pessoais, ambições, ambiente e disposição”, explica.
Reconhecido como figura central no mercado de assessoria e RP em Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro, Rodrigo explica que não há uma linearidade nas carreiras, o que implica em um debruço íntimo em meio aos cenários contemporâneos. “Tudo precisa ser visto, analisado, reconhecido e estruturado, não apenas para performar melhor, mas para ocupar, de fato, lugares de maior impacto e decisão. Porque, no fim, crescer na carreira não está restrito a fazer bem o que já se faz”, conclui.
