Gabriela Garrido e a política da verdade contra o ativismo da calúnia
Gestão do vazio: quando a cidade escolhe esquecer a própria história
Por Joilson Bergher
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Há cidades que escolhem a amnésia como método de governo. Não por ignorância, mas por conveniência. Apagar a memória é mais simples do que enfrentá-la; silenciar a cultura custa menos do que sustentá-la; produzir cenários urbanos rende mais aplausos imediatos do que investir em consciência histórica e legado. Conforme observa Halbwachs (2006), a memória coletiva não se preserva espontaneamente: ela depende de estruturas sociais, institucionais e simbólicas que a sustentem.
Vitória da Conquista parece aprisionada a esse equívoco deliberado. Alimenta-se de uma narrativa provinciana que tenta se apresentar como cosmopolita, ao mesmo tempo em que despreza seus próprios marcos simbólicos. Inventa nomes grandiloquentes para estruturas ordinárias, como se a operação semântica fosse capaz de fabricar modernidade. Chamar terminal de ônibus de estação não inaugura progresso algum; apenas expõe o desejo pueril de parecer aquilo que não se é.
A obsessão por uma Europa imaginada — uma suposta “Suíça baiana” que jamais existiu — convive de forma contraditória com o abandono do que é concreto: o sertão da ressaca, a produção cultural local, a memória política e artística que conferiu relevância histórica à cidade. Tal negação do território expressa aquilo que Choay (2006) define como a ruptura entre patrimônio e projeto de futuro, quando a preservação deixa de ser entendida como valor civilizatório e passa a ser tratada como obstáculo ao marketing urbano.
Nada simboliza melhor esse colapso do que o abandono da casa de Glauber Rocha. Não se trata de uma edificação qualquer, mas de um patrimônio cultural de alcance nacional e internacional. Glauber foi mais do que um cineasta; foi um intelectual radical do Terceiro Mundo, um intérprete do Brasil profundo e um agente cultural inserido nos grandes debates políticos e estéticos do século XX. Sua atuação dialogou diretamente com processos históricos globais, inclusive com o mundo lusófono no contexto das lutas anticoloniais intensificadas após a Revolução dos Cravos, em Portugal.
Receber representantes estrangeiros enquanto o teto simbólico dessa memória desaba não é apenas desleixo administrativo; é uma declaração política. Uma cidade que permite que seu maior nome cultural se degrade em ruínas afirma, de modo inequívoco, que não valoriza nem passado, nem presente, tampouco futuro.
Governos dessa natureza não empobrecem apenas o espaço urbano; empobrecem o imaginário coletivo. Reduzem a cidade a obras pontuais, calçadas novas e placas vistosas, enquanto esvaziam o sentido de pertencimento e continuidade histórica. Produzem marketing, não memória; aparência, não identidade. Como alerta Halbwachs (2006), quando os quadros sociais da memória se rompem, o passado deixa de orientar o presente.
Coaduno com essa assertiva: Vitória da Conquista não é uma cidade ignorante. O que a ameaça não é a ausência de consciência popular, mas a mediocridade de gestões que confundem obra com legado e administração com grandeza. Uma cidade que esquece seus artistas, seus processos históricos e sua inserção no mundo escolhe, conscientemente, governar o vazio.
E o vazio, invariavelmente, cobra seu preço.
Referências
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. 2. ed. São Paulo: Centauro, 2006.
CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. 3. ed. São Paulo: Estação Liberdade; UNESP, 2006.
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Joilson Bergher/Leitor de algumas obras fundamentais para tentar compreender o Brasil.

