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A retórica oficial, já desmentida por documentos apresentados por estudantes, movimento negro e organizações sociais, revela-se uma farsa discursiva a serviço de um projeto excludente, que ecoa valores e práticas da extrema-direita derrotada nas urnas, mas ainda presente nas estruturas locais de poder

13/01/2026 5 min read

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 A retórica oficial, já desmentida por documentos apresentados por estudantes, movimento negro e organizações sociais, revela-se uma farsa discursiva a serviço de um projeto excludente, que ecoa valores e práticas da extrema-direita derrotada nas urnas, mas ainda presente nas estruturas locais de poder

Por Joilson Bergher. Arte como trincheira: estética, memória e resistência na defesa dos estudantes quilombolas de Vitória da Conquista/Bahia.
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Este ensaio analisa o fechamento da Casa de Estudantes Quilombolas Dandara dos Palmares, em Vitória da Conquista, como um ato político de exclusão racial travestido de decisão administrativa. Ao retirar de jovens negros e quilombolas a possibilidade concreta de permanência no ensino superior, o poder público municipal atinge diretamente políticas de reparação histórica e o direito à educação. O texto convoca a arte — na música, na poesia, nos saraus, nas artes visuais e nas performances — como linguagem de denúncia, memória e resistência, capaz de romper o silêncio burocrático e tornar pública uma injustiça estrutural. Defender essa casa é afirmar a educação como direito e a cidade como espaço de vida, diversidade e dignidade, onde no sentido [adorniano], trata-se de impedir a repetição da barbárie sob formas aparentemente racionais, administrativas e legalizadas.
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A tentativa — ou efetivação — do fechamento da Casa de Estudantes Quilombolas Dandara dos Palmares, vinculada ao cursinho pré-vestibular, não é um ato administrativo neutro, tampouco um problema meramente burocrático. Trata-se de uma disputa política e simbólica sobre quem pode ou não acessar o ensino superior no Brasil. Quando o Poder Público Municipal, detentor da tutela dos imóveis, escolhe ignorar a função social dessa casa, ele opera contra uma política histórica de reparação racial, desmontando, na prática, um dos poucos instrumentos que garantem a permanência de estudantes negros e quilombolas na universidade. A retórica oficial, já desmentida por documentos apresentados por estudantes, movimento negro e organizações sociais, revela-se uma farsa discursiva a serviço de um projeto excludente, que ecoa valores e práticas da extrema-direita derrotada nas urnas, mas ainda presente nas estruturas locais de poder.

É nesse cenário que a arte emerge não como ornamento, mas como trincheira. A contribuição dos artistas — do zine à música, da poesia ao violoncelo, da flauta à bateria, dos saraus às artes visuais — consiste em romper o silêncio imposto pela burocracia e transformar o conflito em narrativa pública. A arte tem a capacidade de traduzir dados frios e documentos técnicos em experiência sensível, alcançando tanto quem domina o debate político quanto quem dele foi historicamente afastado. Ao dar rosto, voz e corpo aos estudantes quilombolas, a produção artística humaniza a luta e impede que ela seja reduzida a um “caso administrativo”, expondo seu verdadeiro conteúdo: a negação do direito à educação e à dignidade.

Além disso, a arte cumpre um papel fundamental de preservação da memória e de produção de contra-hegemonia. Em uma cidade onde gestores acolheram publicamente expoentes da extrema-direita — inclusive figuras associadas à violência política e ao ataque direto às instituições democráticas —, os artistas são chamados a construir uma pedagogia estética da resistência. Cada canção, poema, performance ou intervenção urbana afirma que a cidade não é propriedade de um governo de ocasião, mas território de múltiplas vozes, histórias e pertencimentos. A defesa da Casa Dandara dos Palmares, nesse sentido, não é apenas uma pauta estudantil: é uma disputa sobre o significado de Vitória da Conquista e sobre qual projeto de sociedade se deseja afirmar.

Por fim, ao convocar a arte para esse debate, convoca-se também a universidade, a escola, os espaços culturais e a sociedade civil a assumirem posição. A neutralidade, aqui, não é possível: o silêncio favorece a exclusão. A arte, quando aliada à luta dos estudantes quilombolas, cumpre sua função mais radical e necessária — a de desnaturalizar a injustiça e reencantar o mundo com a ideia de que educação, cultura e reparação racial são direitos, não concessões. Defender essa casa é defender a possibilidade de futuro para jovens negros que, sem ela, seriam novamente empurrados para fora dos espaços que historicamente lhes foram negados.

Referência Teórica.

ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento: Fragmentos Filosóficos. Tradução: Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. (1ª edição alemã: Dialektik der Aufklärung, 1947).

ADORNO, Theodor W.
Educação e Emancipação.
Tradução: Wolfgang Leo Maar. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.

[Observações]. As obras aqui usadas pra embasar o ensaio analisa como a razão instrumental e os discursos administrativos podem ser usados para legitimar práticas de dominação e exclusão. Em especial, o conceito de indústria cultural ajuda a compreender como narrativas oficiais e slogans de governo tentam naturalizar injustiças sociais, esvaziando conflitos políticos reais e apresentando decisões excludentes como meras “necessidades técnicas”. No contraponto, Adorno atribui à arte crítica um papel emancipador: ela rompe a falsa neutralidade do poder, revela contradições sociais e devolve voz aos sujeitos historicamente silenciados. Essa leitura dialoga diretamente com a luta dos estudantes quilombolas, ao compreender a arte como forma de resistência ética, política e pedagógica frente à barbárie travestida de gestão.
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Joilson Bergher/Produtor de algum conhecimento na área de África.

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1 Comment

  • Robson Dantas Alves says:
    13/01/2026 at 3:19 pm

    Em nome da Associação dos Estudantes Quilombolas e Pré-Vestibular Dandara dos Palmares, agradecemos profundamente a publicação deste ensaio, que nomeia com clareza e coragem aquilo que temos vivido na pele: o encerramento do apoio à Casa não é um gesto técnico ou administrativo, mas uma decisão política que produz exclusão racial e nega o direito à permanência de jovens negros e quilombolas no ensino superior. O texto reafirma algo fundamental para nossa luta: quando o poder público ignora a função social da Casa Dandara, ele ataca diretamente uma política de reparação histórica e compromete projetos de vida construídos com muito esforço coletivo.

    Reconhecemo-nos na leitura que o ensaio faz da arte como trincheira, memória e denúncia. A arte, assim como a educação, tem sido para nós uma forma de existir, resistir e tornar pública uma injustiça que muitos tentam reduzir ao silêncio burocrático. Ao dar visibilidade às nossas vozes e aos nossos corpos, o texto contribui para que essa luta não seja apagada nem naturalizada, reafirmando que defender a Casa Dandara dos Palmares é defender a dignidade, a diversidade e o futuro de Vitória da Conquista. Seguiremos firmes, porque nossa permanência não é favor: é direito, é história e é compromisso com um projeto de sociedade verdadeiramente democrático e antirracista.

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