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A reinvenção do complexo de vira-latas pela Família Bolsonaro

23/01/2025 5 min read

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 A reinvenção do complexo de vira-latas pela Família Bolsonaro

A expressão foi criada por Nélson Rodrigues logo após a derrota da nossa seleção em 1950, mas nunca fez tanto sentido quanto agora

O constrangimento vem de longe. Para ser mais exato do dia em que, durante a Assembleia da ONU, em 2019, o então presidente brasileiro Jair Bolsonaro (PL), se dirigiu ao presidente americano Donald Trump, que estava em seu primeiro mandato, e disparou um “i love you”, ou seja, “eu te amo”, em bom português.

Trump respondeu com um “nice to see you again” (“bom te ver de novo”). No mesmo ano, poucos meses antes, ao receber o prêmio de personalidade do ano da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, em Dallas, no Texas, Bolsonaro prestou continência à bandeira americana.

As atitudes de Bolsonaro com relação aos EUA e, particularmente, a Trump – e que se multiplicam por toda a sua família, sobretudo o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), são de extrema sabujice, completa subserviência. Algo que o escritor Nélson Rodrigues popularizou na década de 50 chamando de “complexo de vira-latas”.

O surgimento da expressão

A expressão surgiu em uma crônica publicada na revista Manchete, a última antes da estreia do Brasil na Copa de 1958, a primeira vencida pela Seleção brasileira. Nela, Nélson Rodrigues atribuía a derrota de 1950 para o Uruguai, em pleno Maracanã, ao tal complexo de vira-latas. Sobre isso, ele explica em um parágrafo do texto:

“Por ‘complexo de vira-latas’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol.”

O Brasil mudou muito depois disso. O futebol e o alerta de Nélson Rodrigues certamente tiveram a sua participação no processo. O país venceu outras duas copas seguidas, a de 66 e a de 70. O time esplendoroso de Pelé, Tostão entre outros chegava respaldado pelo sanguinário regime militar, com os seus slogans nacionalistas: “Ame-o ou Deixe-o”, “Quem não vive para servir ao Brasil, não serve para viver no Brasil” entre outros.

Nos porões, a ditadura torturava e matava, pelas ruas exibia as cores verde e amarela em carros, fachadas de casas e edifícios. O amor pelo Brasil e suas cores se espalhou por vários regimes, até chegar em Bolsonaro com o seu bisonho e controverso “o Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

O falso patriotismo

As continências, salamaleques e choradeiras que Bolsonaro, sua família e aliados prestam aos EUA vão muito além das atitudes constrangedoras. Há por trás disso tudo um projeto de entrega de nossos bens mais caros. Um projeto, diga-se de passagem, que não é novo e foi gestado há décadas. A ideia baseada na crença de que o Estado brasileiro não tem capacidade de gerir com eficiência seus próprios recursos.

Para ficar em apenas alguns exemplos, foi o “patriotismo” do governo Bolsonaro que arrendou a Base de Alcântara, no Maranhão para os EUA a preço de banana. A Embraer teve sua venda e desmembramento concretizada. Além disso, a Petrobras, símbolo maior do patrimônio e soberania nacionais, teve um desmonte agressivo, com a liquidação da BR Distribuidora e a desativação de refinarias.

Bolsonaro não é nada. É apenas um ex-presidente indiciado por pelo menos três crimes contra o Estado brasileiro. Foi impedido de ir aos EUA por conta disso e seus enviados, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL), tomaram seu lugar e deram grandes vexames, barrados nos principais eventos, reinventando o termo criado por Nélson Rodrigues.

Mas que ninguém se engane. O ridículo, assim como o próprio Trump e seus familiares, tem nome, mas também tem projeto.

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