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Por que Lula foi preso em 1980?
Depois da prisão de Lula e de outras lideranças, em 1980, o movimento sindical do ABC iniciou o primeiro “Lula livre” da história

Em abril de 1980, em plena ditadura militar, então sob o governo do general João Baptista Figueiredo, Luís Inácio Lula da Silva liderava uma greve de 41 dias entre os trabalhadores fabris do ABC paulista, um dos principais centros industriais e metalúrgicos do país.
A região reunia milhares de trabalhadores em fábricas como Volkswagen, Ford, Mercedes-Benz e Scania, e a legislação da ditadura tornava extremamente restrita a realização de paralisações e greves por reajuste salarial.
Lula era, então, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, que reivindicava aumento salarial para os trabalhadores, baseado no índice oficial de inflação acrescido de 15% de produtividade, além de garantia de estabilidade no emprego por 12 meses, redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais e reconhecimento de representantes sindicais nas empresas.
Entre 1978 e 1979, os metalúrgicos já haviam passado por campanhas de paralisação, mas estruturaram, para o começo da década de 1980, um comando de greve e uma ampla comissão de salários formada por representantes das fábricas, a fim de demandar a presença de representantes sindicais nas empresas.
Depois de horas de negociações insuficientes na Delegacia Regional do Trabalho, em que os empresários rejeitaram as reivindicações apresentadas pelo sindicato, os trabalhadores decidiram iniciar a paralisação geral em 1º de abril de 1980.
Segundo documentos do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, a paralisação reunia números superiores a 200 mil trabalhadores. A greve atingiu o principal polo industrial do país e passou a representar uma face nascente do novo sindicalismo brasileiro.

Lula discursa a metalúrgicos de cima de uma mesa no estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, em assembleia que decidiu pelo início da greve. Créditos: Memorial da Democracia
O Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo inicialmente se declarou incompetente para julgar a questão, mas posteriormente determinou o fim da paralisação e declarou a greve ilegal, em decisão que permitia a intervenção direta do Ministério do Trabalho nos sindicatos. Com a decisão, as diretorias dos sindicatos dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Santo André foram afastadas, numa tentativa do governo de desmobilizar a estrutura da paralisação.
Os trabalhadores usavam a Igreja Matriz de São Bernardo do Campo para as reuniões da greve, com a colaboração do então bispo da Diocese de Santo André, dom Cláudio Hummes. As assembleias eram acompanhadas, segundo os registros, por helicópteros do Exército, em demonstrações de intimidação dos trabalhadores.
Na madrugada de 19 de abril de 1980, agentes do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo prenderam Lula em casa.

Capa do Jornal da Vila, de abril de 1980, que afirma que a greve deve seguir mesmo sem a presença de Lula. Créditos: Memórias da Ditadura
Ele e outros dirigentes sindicais foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional (LSN), utilizada pela ditadura para tratar determinadas mobilizações políticas e sociais como ameaças à segurança do Estado. Os sindicalistas ficaram presos no Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DEOPS, conhecido como Dops), em São Paulo, por 31 dias, e foram libertados em 20 de maio, quando a prisão preventiva foi revogada pelo juiz auditor Nelson da Silva Machado Guimarães.
A documentação reunida pela Fundação Getulio Vargas registra a prisão de Lula junto a outros dirigentes e informa que dois advogados que estavam entre os detidos foram liberados ainda naquele dia, enquanto os sindicalistas permaneceram incomunicáveis por vários dias.
Em depoimento posterior ao Museu da Pessoa, Lula explicou que os dirigentes tinham consciência de que a legislação sobre greves poderia ser utilizada para enquadrá-los na Lei de Segurança Nacional, mas decidiram manter a paralisação mesmo assim.

Ficha de Lula no DOPS. Créditos: Instituto Lula
Depois da prisão de Lula e de outras lideranças, o movimento sindical do ABC iniciou o primeiro “Lula livre” da história: a paralisação geral passou a ter a libertação dos sindicalistas como pauta central, e as assembleias continuaram com a ajuda de líderes religiosos como Cláudio Hummes.
No dia 1º de maio, milhares de policiais cercaram São Bernardo do Campo, bloquearam os acessos à cidade e posicionaram tropas para impedir a realização de manifestações.
Artistas também aderiram à mobilização com um show que havia sido proibido pelas autoridades, e Chico Buarque, que apoiava o movimento,

cuja renda foi destinada ao fundo de greve dos sindicalistas.

Linha De Montagem. Créditos: divulgação
Na Igreja Matriz da cidade, Hummes e outros bispos celebraram uma missa de apoio aos trabalhadores e, após a celebração, uma multidão de mais de 100 mil pessoas saiu pelas ruas de São Bernardo para protestar contra a prisão.
Em 9 de maio, ainda presos, Lula e outros sindicalistas decidiram iniciar uma greve de fome para pressionar pela reabertura das negociações. O jejum durou seis dias e, por influência de Hummes, que visitou Lula na prisão, foi encerrado.
Décadas depois, ao comentar outra greve de fome de um religioso, Lula recordou que havia adotado a mesma estratégia quando esteve preso em 1980.
Em 11 de maio, após 41 dias de paralisação, os trabalhadores decidiram suspender a greve e adotar uma estratégia de “operação tartaruga”, que consistia em manter a pressão nas fábricas por meio da redução do ritmo da produção.
A greve terminou sem a concessão, pelos empresários, das principais reivindicações salariais pretendidas pelos trabalhadores. Mais de mil deles foram demitidos, e dirigentes como Osmar Mendonça, o “Osmarzinho”, foram presos nos últimos dias do movimento.
Em 20 de maio, 31 dias depois da prisão, todos os sindicalistas, inclusive Lula, foram libertados, por decisão do juiz auditor Nelson da Silva Machado Guimarães, que revogou a prisão preventiva.
A libertação não encerrou o processo judicial, e Lula continuou a responder a acusações baseadas na Lei de Segurança Nacional perante a Justiça Militar.
Em 1981, ele foi condenado em primeira instância a três anos e seis meses de prisão. O processo, no entanto, chegou ao Superior Tribunal Militar (STM), que posteriormente anulou a sentença. A anulação ocorreu após a defesa recorrer da condenação e a Justiça Militar reconhecer questões relativas à competência para o julgamento dos sindicalistas e aos procedimentos adotados no processo.