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Datafolha mostra Lula e Flávio Bolsonaro empatados em SP
Levantamento realizado em julho mostra os dois pré-candidatos com 35% no primeiro turno e em empate técnico no segundo, no maior colégio eleitoral do país. Mas o que os números revelam é apenas parte da história.
A pesquisa Datafolha divulgada nesta quarta-feira (8) mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) empatados com 35% das intenções de voto no primeiro turno entre eleitores de São Paulo para a eleição presidencial de 2026. No segundo turno, o empate se repete: Flávio aparece com 46% e Lula com 43%, diferença dentro da margem de erro de 2 pontos percentuais. O levantamento, encomendado pela Folha de S.Paulo, ouviu 1.608 eleitores distribuídos em 71 municípios paulistas entre 1º e 3 de julho, com nível de confiança de 95%, e está registrado no TSE sob os números SP-01703/2026 e BR-06481/2026. Os dados confirmam a polarização no estado, mas deixam de fora fatores que moldam a disputa tanto quanto as intenções de voto.
Empate técnico em São Paulo
São Paulo concentra mais de 30 milhões de eleitores e é o maior colégio eleitoral do Brasil. Qualquer candidatura que aspire ao Palácio do Planalto precisa, no mínimo, não sangrar demais no estado. O Datafolha de julho mostra que, por ora, nenhum dos dois líderes das pesquisas consegue abrir vantagem expressiva por lá: Lula e Flávio Bolsonaro chegam ao mesmo patamar de 35% no primeiro turno, com todos os demais candidatos testados muito abaixo, nenhum passando de 3%.
No segundo turno, a diferença de três pontos percentuais a favor de Flávio, 46% contra 43% de Lula, está inteiramente dentro da margem de erro de 2 pontos para mais ou para menos. O empate técnico é, portanto, o retrato mais preciso que os dados permitem: nenhum dos dois domina o eleitorado paulista, e a disputa segue aberta a mais de três meses do primeiro turno, marcado para 4 de outubro de 2026.
Rejeição e outros cenários
Se as intenções de voto colocam os dois candidatos lado a lado, os índices de rejeição revelam uma assimetria relevante. 51% dos eleitores paulistas afirmam que não votariam em Lula de jeito nenhum, o maior índice entre todos os nomes testados. Flávio Bolsonaro aparece logo atrás, com 43% de rejeição. A distância de oito pontos entre os dois é significativa: o presidente carrega, em São Paulo, um teto mais baixo do que o do principal adversário.
Os demais nomes testados ficam bem abaixo nesse indicador. Aécio Neves (PSDB) tem 23% de rejeição; Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) registram 13% cada. Nos cenários alternativos de segundo turno simulados pela pesquisa, Lula também não consegue sair do empate: perde para Caiado por 43% a 42% e para Zema por 44% a 41%, ambas as diferenças dentro da margem de erro. O padrão se repete em todos os confrontos testados: Lula competitivo, mas sem vantagem, e com rejeição que limita o crescimento.
As lacunas da pesquisa e o contexto político
O levantamento entrega um retrato preciso do momento, mas não explica os mecanismos que sustentam os números. A competitividade de Flávio Bolsonaro em São Paulo não surge do nada: ela é, em boa medida, herdada do capital político construído por Jair Bolsonaro ao longo de anos de mobilização da direita radical no estado. A pesquisa não analisa em que medida essa transferência de votos e de identidade política está consolidada, nem se ela é suficientemente estável para resistir ao desgaste de uma campanha longa.
Outro ponto ausente é o impacto das investigações judiciais que envolvem a família Bolsonaro sobre a imagem do senador junto ao eleitorado. Trata-se de uma variável com potencial de interferência direta na percepção pública, mas que o levantamento não mensura. Da mesma forma, o papel do financiamento privado e das redes de impulsionamento de conteúdo na manutenção da competitividade de candidatos da extrema direita não aparece em nenhuma análise metodológica do estudo. Esses mecanismos não são detalhes operacionais: são parte estrutural da disputa eleitoral contemporânea.
Há ainda o dado dos indecisos. Somando brancos, nulos e quem afirma não saber em quem votar, o primeiro turno registra 33,1% do eleitorado paulista fora do campo dos candidatos declarados. É um contingente enorme, capaz de redefinir o resultado, e que a pesquisa não aprofunda. Por fim, o recorte exclusivamente paulista deixa de fora a força consolidada de Lula em outras regiões do país, especialmente no Nordeste, e a resiliência de sua base em segmentos demográficos específicos. Ler São Paulo como espelho do Brasil é um erro metodológico que a cobertura dos resultados frequentemente comete.
Implicações para a estratégia eleitoral
Para o campo petista, a rejeição de 51% em São Paulo é o dado que mais exige resposta estratégica. Não se trata de uma desvantagem conjuntural, facilmente revertida com uma boa campanha de imagem: reflete um distanciamento estrutural entre Lula e parcelas relevantes do eleitorado urbano paulista, que inclui setores de classe média e trabalhadores formais historicamente disputados. Qualquer estratégia de comunicação do governo que ignore esse diagnóstico corre o risco de chegar a outubro sem ter movido o ponteiro no estado mais importante do país.
Para Flávio Bolsonaro, o empate técnico confirma que a herança política do pai ainda sustenta uma base sólida em São Paulo, mas não resolve o problema da rejeição própria, que já chega a 43%. O senador precisa ampliar seu eleitorado para além do núcleo bolsonarista, e os números atuais não indicam que esse movimento esteja em curso. A polarização que os dados descrevem é, portanto, uma armadilha para os dois lados: mantém ambos competitivos, mas impede qualquer um de construir uma vantagem decisiva. Vencer em São Paulo em 2026 vai depender menos de consolidar bases já conquistadas e mais de disputar o terço do eleitorado que ainda não se decidiu.