Daniel Vorcaro bancou R$ 11,9 milhões em festas com políticos em NY: da “Noite das Astronautas” à degustações de whiskys e charutos
Planilha apreendida pela PF no celular do ex-controlador do Banco Master cita “Noite das Astronautas”, degustação de whiskys e charutos e jantar de luxo
Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, gastou pelo menos R$ 11,9 milhões em eventos de luxo para políticos e autoridades brasileiras em Nova York, em maio de 2024, segundo planilha apreendida pela Polícia Federal no celular do banqueiro e revelada nesta quarta-feira (3) pela colunista Malu Gaspar, do O Globo.
O documento foi incluído na representação da PF que embasou a oitava fase da Operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, contra o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) e outros alvos. A investigação apura aportes bilionários do Rioprevidência no Banco Master.
A nova revelação dá dimensão financeira à farra internacional que aparece no centro político do caso Master. A Fórum já mostrou que Castro era apontado pela investigação como alguém com “vínculo pessoal estreito” com Daniel Vorcaro e que esse alinhamento teria sido decisivo para abrir caminho aos recursos do fundo previdenciário do Rio no banco.
Daniel Vorcaro bancou “noite das astronautas”
O item mais extravagante da planilha é uma festa realizada em uma suíte presidencial em Manhattan. Segundo a coluna, os convidados eram todos homens e foram entretidos por mulheres russas e ucranianas vestidas com malhas prateadas e adereços de vidro na cabeça, em uma cena que ficou conhecida como “noite das astronautas”.
A festa integrou uma sequência de eventos bancados por Vorcaro durante a passagem de políticos brasileiros por Nova York. Além da “noite das astronautas”, a planilha registra jantar, produção de evento, hospedagem de equipe, som, luz, bebidas, charutos e despesas extras de hotel.
Só a festa, o jantar e a produção associada teriam custado mais de US$ 721 mil, cerca de R$ 3,7 milhões em valores de 2024. Um e-mail enviado a Vorcaro, citado pela reportagem, detalhava despesas de 526,2 mil euros com artistas, performances, logística e equipe de gerenciamento, além de 109,2 mil euros em taxas.
A PF também identificou gastos de US$ 545,2 mil, cerca de R$ 2,8 milhões, com festas, equipamentos de som e luz, produção e hospedagem. Outros US$ 44,6 mil aparecem como despesas de comidas, bebidas, camarim das artistas e extras de hotel entre 12 e 16 de maio.
Whisky, charutos e Macallan 25 anos
A planilha também detalha a degustação de whiskys e charutos no The Carnegie Club, em Manhattan, evento que a Fórum já havia noticiado no contexto da relação entre Cláudio Castro e Daniel Vorcaro.
Segundo Malu Gaspar, o encontro custou pouco mais de US$ 1 milhão, equivalente a R$ 5,3 milhões. Vorcaro teria pago a locação do espaço, bebidas liberadas e charutos. Os convidados deixaram o local com uma garrafa de Macallan 25 anos, avaliada em R$ 30 mil, e uma caixa de charutos.
Apenas os whiskys consumidos ou distribuídos no evento teriam custado R$ 3,5 milhões. Entre os presentes citados pela reportagem estavam Cláudio Castro, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e os deputados federais Hugo Motta (Republicanos-PB), Marcos Pereira (Republicanos-SP), Isnaldo Bulhões (MDB-AL) e Doutor Luizinho (PP-RJ). À época, parte deles já circulava como nome de peso na disputa pelo comando da Câmara.
Jantar de Salt Bae entrou no radar da PF
A coluna também afirma que mensagens obtidas pelos investigadores mostram Vorcaro organizando um jantar para Cláudio Castro no Nusr-Et, restaurante do chef turco Salt Bae em Nova York, conhecido por pratos extravagantes e carnes com folha de ouro.
Ao receber o convite, Castro respondeu: “Você não existe”, segundo a reportagem. Em outra mensagem, Vorcaro orientou um auxiliar a pedir uma carne especial para que o chef fosse até a mesa.
A PF não detalhou o custo desse jantar específico. A representação, porém, menciona outro banquete de Castro no mesmo restaurante, em 2023, também pago por Vorcaro. Nesse caso, o banqueiro teria desembolsado US$ 13,3 mil, cerca de R$ 66 mil.
Farra ocorreu no período dos aportes do Rioprevidência
O ponto central para a investigação é a coincidência entre encontros privados, viagens e eventos pagos por Vorcaro e os aportes do Rioprevidência no Master. A decisão de André Mendonça aponta que a PF viu indícios de que Castro mantinha vínculo próximo com Vorcaro e teria exercido papel político relevante para viabilizar investimentos do fundo no banco.
Segundo a Agência Brasil, a oitava fase da Compliance Zero apura cerca de R$ 3 bilhões transferidos do fundo de previdência dos servidores do Rio para o Master. Desse total, R$ 970 milhões foram identificados em aportes entre outubro de 2023 e julho de 2024; outros R$ 2 bilhões teriam sido aplicados a partir de julho de 2024.
A Fórum também mostrou que Castro trocou a direção do Rioprevidência antes dos aportes bilionários e que o Master recebeu R$ 80 milhões do fundo no mesmo dia de um evento com Castro e Vorcaro, em maio de 2024.
Na decisão que autorizou as buscas contra Castro, o STF registrou que a hipótese da PF envolve possível atuação criminosa de Daniel Vorcaro junto ao Rioprevidência, mediante suposto ajuste político com o então governador do Rio. A medida foi divulgada oficialmente pelo Supremo em 26 de maio.
Londres também aparece na rota de Daniel Vorcaro
A revelação de Malu Gaspar acrescenta outro ponto à trilha internacional de Vorcaro. No mês anterior à farra em Nova York, o Banco Master financiou o Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado em Londres pelo Grupo Voto.
Segundo a coluna, registros encontrados no celular do banqueiro apontam gasto de US$ 640,8 mil, cerca de R$ 3,2 milhões, em uma degustação no clube George, no bairro londrino de Mayfair. A reportagem cita a presença de autoridades do Judiciário, do Ministério Público, da Polícia Federal, de parlamentares e de advogados no evento.
A presença em eventos não significa, por si só, prática de crime. O que a PF investiga é se viagens, encontros privados, jantares e despesas pagas por Vorcaro funcionaram como vantagens indevidas ou como parte de um ambiente de influência para destravar recursos públicos ao Banco Master.
