As convenções antidemocráticas


Jeremias Macário

Fala-se tanto em democracia e pratica-se pouco no Brasil. Um exemplo mais claro e recente são as convenções partidárias onde as decisões são sempre tomadas de cima para baixo e não ao contrário, como rezam os discursos políticos. Este quadro antidemocrático está entranhado em todos os partidos, quer sejam de direita, de extrema, de centro ou de esquerda.
Como nas audiências que tratam de aprovação de projetos empresariais que vão impactar o meio ambiente, as medidas já são documentadas e levadas prontas, feitas por um comitê que já traçou todos os planos. Nas convenções, ainda é pior porque uma executiva partidária se reúne com outra e, em conversas reservadas de bastidores, resolve se coligar com o partido “A” ou “B”, e apresenta aos filiados e pré-candidatos justificativas pouco convincentes.
VOTAÇÃO EM PLENÁRIA
Por que as convenções, no momento exato do evento, não colocam em votação os pontos decisórios na plenária e seus membros homologam, ou não, com a aliança que foi feita lá atrás? A diretoria do partido apenas apresenta seus argumentos “estratégicos” que levaram a tomar aquela posição, e a grande maioria calada absorve a tabuada feita pelo grupo diretor. Apenas alguns discordam, mas, a esta altura, tudo já está consumado e consolidado.
Como nos Estados Unidos, convenção é como um pacote de produtos misturados que já vem fechado e ali é aberto e distribuído entre os presentes, numa festa de falatórios onde não é bem-visto quem rejeita o item que lhe foi entregue. Sempre nesses pacotes existem as surpresas, por mais que se imagine que pode resultar naquilo que passou pela sua cabeça.
Portanto, as convenções partidárias, no formato em que são feitas, têm sido, em sua grande maioria, antidemocráticas porque, como já disse, elas são aprovadas de cima para baixo. Cálculos financeiros e outros não convencem quando eles contrariam os propósitos ideológicos e a coerência do partido ante seus membros e do eleitor que estava acreditando numa coisa e recebeu outra.
OS MESMOS ERROS
Continua-se repetindo os mesmos erros do passado, quando se deveria partir para uma renovação e mudança em prol do fortalecimento do partido que, infelizmente, no Brasil virou agrupamento de interesses escusos de terceiros. Muito se explica e pouco se convence. Nesse panorama político, fica difícil para a pessoa bem-intencionada e séria entrar na política para fazer a diferença. Os bons terminam ficando de fora porque o sistema é bruto.
Outra questão impressionante nessas convenções, novamente volto a me referir aqui, seja qual for a linha ideológica, são as semelhanças nos discursos. Todos são de cunho socialista, no mesmo nível, que falam de cuidar da gente desamparada, do povo, de inclusão, de investir nos mais pobres e reduzir as desigualdades sociais através de programas públicos voltados para a distribuição de rendas.
Todos prometem defender mais espaço para as mulheres, para os negros, os homossexuais, os deficientes e as chamadas minorias em geral. Na aparência, todos estampam uma linha avançada de esquerda progressista e ai embola o meio de campo, como acontece em nosso futebol.
Acontece que lá na frente, quando saem vitoriosos, as posições de esquerda e de direita vão se afunilando, ficando mais visíveis em seus atos e comprometimentos. Como na análise do cientista biólogo e fisiologista, Jared Diamond, em seu livro “Armas, Germes e Aço”, as eleições nas tribos centralizadas e nos Estados terminam na cleptocracia, isto é, o poder do mais ricos e poderosos, que são os verdadeiros beneficiários. O povo termina sendo relegado a segundo, ou terceiro plano.