A Sentença silenciosa: o maior crime do ex-presidente presidiário
Por Joilson Bergher
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1.
O crime não foi cometido nas sombras de um beco, ao som de tiros ou ao brilho de um punhal. Foi perpetrado à luz do dia, atrás de uma mesa, diante de câmeras. O instrumento do delito não foi uma arma, mas um microfone. O alvo não foi um indivíduo, mas um corpo inteiro: o corpo febril, ofegante e aterrorizado de uma nação.
2.
Enquanto a sombra longa e úmida da pandemia se estendia sobre o país, cobrindo cidades em um silêncio de medo pontuado pelo rádio de ambulâncias, o carcereiro-mor brincava. A doença era uma “gripezinha”. A esperança, encapsulada em frascos de vidro, era tratada com suspeita e um sorriso de deboche. Vacinas? Potenciais venenos. Marcas da servidão. Negócios obscuros.
3.
Cada dúvida semeada era um grão de terra jogado sobre um caixão que ainda não estava fechado. Cada piada era um golpe no ventilador pulmonar que mantinha viva a esperança. Cada dia de hesitação calculada, cada reunião onde a logística da morte superava a da vida, era um ato de estrangulamento lento.
4.
As vítimas não têm nomes para ele. São apenas números que ele nunca quis ver. São os 400 mil, os 500 mil, os 600 mil… Pilhas de estatísticas que, em sua origem, eram pais agarrando a mão de filhos por uma tela de celular, eram médicos chorando em corredores, eram idosos sussurrando “não me deixem morrer sozinho” antes do último suspiro.
5.
O maior crime de Bolsonaro não foi a morte em si. Foi a sentença. Foi levantar o cetro do poder e, com um misto de negligência, ideologia cega e uma crueldade quase sociopata, negar o antídoto. Assinar, com a caneta da Presidência, a condenação de milhares à asfixia, ao colapso, ao frio de um necrotério improvisado.
6.
Ele não puxou o gatilho. Ele simplesmente trancou o cofre onde estava a chave para desarmar a bomba. E ficou olhando, com os braços cruzados e um discurso de ódio, enquanto o dispositivo de contagem regressiva chegava a zero, vez após vez, em cada canto deste país.
7.
Agora, ele usa o uniforme listrado de presidiário. As grades são de metal, visíveis. Mas suas grades mais sombrias, as que ele forjou para o povo, eram feitas de ignorância, desdém e uma política de morte. Ele habita uma cela concreta. Mas a cela que ele construiu para o Brasil era feita de UTIs superlotadas, covas rasas e o silêncio ensurdecedor de uma população esperando por uma vacina que seu líder se recusava a abraçar.
8.
O ar dentro dessa cela que ele criou ainda é pesado. Ainda cheira a luto, a traição e ao mais profundo dos crimes: o de um pastor que, diante do lobo, entregou o rebanho.
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Joilson Bergher/Trabalhador Público no Estado da Bahia na Secretaria de Saúde!

