Analfabetismo na Bahia: Uma herança de séculos que não pode ser explicada por apenas 19 anos de governo petista
A Bahia tem cerca de 15 mil jovens entre 15 e 19 anos analfabetos, porém e preciso considerar que o Estado possui a maior Zona Rural do País e as dificuldades para implantar escolas. Aqui a responsabilidade é do PT
Antes de responsabilizar um governo pelos problemas educacionais da Bahia, é preciso conhecer a história, compreender os números e distinguir a herança social das responsabilidades administrativas de cada época.
A Bahia ainda convive com um problema educacional grave: mais de um milhão de pessoas com 15 anos ou mais não sabem ler e escrever um bilhete simples. Mas será historicamente correto atribuir a um único partido a responsabilidade pela formação desse contingente, ignorando as décadas em que milhões de baianos cresceram sem acesso adequado à escola?

Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ajudam a compreender a dimensão dessa questão. Em 2024, a taxa de analfabetismo no Brasil foi de 5,3% entre as pessoas de 15 anos ou mais. No Nordeste, chegou a 11,1%. Na Bahia, o indicador registrado pelo IBGE foi de 10,8%, evidenciando uma desigualdade educacional que permanece superior à média nacional.
Fonte: IBGE, PNAD Contínua 2024. Consultar os dados oficiais.
1. A idade dos analfabetos revela parte da história
Um dos aspectos mais importantes para compreender o analfabetismo baiano é a idade das pessoas que não tiveram acesso à alfabetização.
Segundo informação divulgada pela Secretaria da Educação da Bahia com base na PNAD Contínua, em 2024 o estado tinha aproximadamente 1,2 milhão de pessoas analfabetas com 15 anos ou mais, e cerca de seis em cada dez pessoas desse grupo eram idosas. A informação reforça a importância de analisar a trajetória educacional de gerações que cresceram quando a oferta de escolas era mais limitada.
Fonte: Secretaria da Educação da Bahia, dados educacionais de 2024.
É necessário observar que a classificação estatística de pessoa idosa geralmente considera a idade de 60 anos ou mais. Portanto, não devemos transformar automaticamente o dado sobre idosos em uma afirmação de que mais de 60% dos analfabetos têm mais de 50 anos. Para sustentar esse número específico, precisamos consultar a distribuição por faixas etárias correspondente.
O que os dados permitem afirmar é que uma parcela expressiva do analfabetismo atual está concentrada em gerações cuja infância e juventude ocorreram muitas décadas atrás.
Uma pessoa que hoje tem 70 anos nasceu em 1956. Quando chegou à idade escolar, o Brasil era um país com profundas desigualdades sociais, enorme concentração de renda e grandes dificuldades de acesso à educação, especialmente nas áreas rurais e nas comunidades mais pobres do Nordeste.
Essa pessoa atravessou a infância e parte da juventude muito antes de 2007, quando o PT assumiu o governo da Bahia. Sua trajetória escolar não pode ser explicada exclusivamente pelas decisões tomadas a partir daquele ano.
2. O PT governa a Bahia desde 2007: o que isso significa?
O PT assumiu o governo estadual em 2007. Considerando o ano de 2026, são aproximadamente 19 anos de administrações estaduais petistas.
Esse intervalo é relevante, mas precisa ser interpretado corretamente.
Se uma pessoa tinha 50 anos em 2007, hoje ela teria aproximadamente 69 anos. Sua infância, período fundamental para a alfabetização, ocorreu predominantemente nas décadas de 1960 e 1970. Se tinha 60 anos quando o PT chegou ao governo, hoje teria aproximadamente 79 anos.
Isso não significa que todos os integrantes dessas gerações tenham sido privados da escola, nem que os governos anteriores sejam os únicos responsáveis pelo problema. Significa que a formação educacional dessas pessoas começou muito antes da chegada do PT ao Palácio de Ondina.
A alfabetização é um processo que depende de oportunidades oferecidas ao longo da vida. Quando a escola não chega a uma criança, quando a pobreza obriga um adolescente a trabalhar ou quando uma comunidade rural não dispõe de ensino acessível, as consequências podem acompanhar aquela pessoa durante décadas.
Por isso, atribuir a um governo iniciado em 2007 a responsabilidade histórica exclusiva por todo o analfabetismo encontrado em 2024 seria uma simplificação.
Mas existe também uma segunda parte dessa análise: os governos que assumem o poder recebem uma realidade preexistente e passam a responder pelas políticas públicas que implementam, pelos recursos que aplicam e pelos resultados que conseguem alcançar.
A história explica a origem de um problema; não elimina a responsabilidade de enfrentá-lo.
3. O analfabetismo não surgiu em 2007
O analfabetismo brasileiro tem raízes profundas. Durante séculos, o acesso à educação foi limitado por desigualdades econômicas, sociais, raciais e territoriais. A população negra, os trabalhadores rurais, as mulheres de famílias pobres e os moradores de regiões distantes dos centros urbanos enfrentaram barreiras especialmente severas.
Na Bahia, essas desigualdades históricas se combinaram com a pobreza, a concentração fundiária, a precariedade dos serviços públicos em determinadas localidades e a necessidade de muitas famílias dependerem do trabalho dos filhos.
O problema, portanto, não pode ser compreendido sem considerar a formação histórica do país.
O próprio IBGE registrou, no Censo de 2022, diferenças expressivas entre grupos raciais: a taxa de analfabetismo das pessoas de 15 anos ou mais era de 10,1% entre pretos e 8,8% entre pardos, contra 4,3% entre brancos. Esses números são nacionais, não exclusivamente baianos, mas demonstram como as desigualdades educacionais estão relacionadas a processos sociais que atravessam gerações.
Fonte: IBGE — Alfabetização no Censo 2022.
A pergunta que precisamos fazer, portanto, não é apenas quantas pessoas ainda não sabem ler e escrever. É também: quantas dessas pessoas tiveram uma oportunidade real de frequentar uma escola na infância? Quantas precisaram abandonar os estudos para trabalhar? Quantas viveram em localidades onde a escola era distante ou insuficiente?
Sem responder a essas perguntas, qualquer tentativa de distribuir responsabilidades políticas corre o risco de ignorar a própria história da Bahia.
4. Reconhecer a herança histórica não significa isentar os governos atuais
Uma análise séria precisa evitar dois erros opostos.
O primeiro é responsabilizar exclusivamente o PT por todos os analfabetos existentes na Bahia, como se a história educacional do estado tivesse começado em 2007.
O segundo é utilizar a herança histórica como justificativa para não cobrar resultados dos governos que estão no poder.