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As 96 mensagens entre Flávio e Vorcaro, 90 dias antes da prisão

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As 96 mensagens entre Flávio e Vorcaro, 90 dias antes da prisão

03/10/2026 22 min read

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 As 96 mensagens entre Flávio e Vorcaro, 90 dias antes da prisão

Nas 50 mensagens do senador, 46 do banqueiro e oito ligações atendidas, um universo de encontros e milhões de dólares – eis o que mostra o chat encontrado pela PF.

Ana Clara Costa, do Rio de Janeiro, João Batista Jr., de São Paulo, e Breno Pires, de Brasília 01 Out 2026

Onze meses decorreram entre a primeira e a última tentativa de Flávio Bolsonaro de falar com Daniel Vorcaro, segundo mensagens registradas no celular do banqueiro. O primeiro contato ocorreu às 22h10 do dia 16 de dezembro de 2024, por iniciativa do senador. Quase um ano depois, em 16 de novembro de 2025, às 15h46, Flávio Bolsonaro escreveu a última mensagem: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!” Referia-se aos dólares que vinha recebendo do banqueiro. No dia seguinte a essa mensagem, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal.

A extração de informações e documentos do celular de Vorcaro feita pela PF, e obtida com exclusividade pela piauí, permite reconstituir essa relação de ponta a ponta. O diálogo entre os dois tem 110 registros. São 50 mensagens de Flávio, 46 de Vorcaro e 14 ligações – oito delas atendidas. Entre as mensagens do senador, há cinco fotos e vídeos de visualização única, enviados na semana anterior à prisão do banqueiro, e uma mensagem apagada, em 23 de setembro de 2025.

Role a tela abaixo e acesse a troca de mensagens

Chat entre Flávio e Vorcaro, extraído do celular do banqueiro pela PF em 18 de novembro de 2025. Relógio ilustrativo: 9h40, hora de conclusão da cópia.

O conjunto mostra um clima de camaradagem entre os dois, com troca de amabilidades e sondagens. Das mensagens, pode-se depreender que a entre o senador e banqueiro tinha um certo grau de afinidade pessoal (as expressões “irmão”, “irmãozão” e “mermão” aparecem dezesseis vezes), mas se concentrava no âmbito dos interesses mútuos. No caso do banqueiro, era garantir sua influência junto à família Bolsonaro. No caso do senador, era o dinheiro: a intrincada negociação sobre remessa de dinheiro aos Estados Unidos e as insistentes cobranças que o senador fazia para o banqueiro para que liberasse os dólares atrasados.

As conversas se concentram entre agosto e novembro de 2025, mas isso não significa que não tenham existido diálogos nos meses anteriores. É que, após a primeira interação, o recurso de mensagens temporárias foi acionado por Flávio Bolsonaro, e as mensagens eram apagadas depois de 90 dias. Por isso, não é possível ver as interações de 16 de dezembro de 2024 a 17 de agosto de 2025. Foi nessa janela temporal que Vorcaro depositou 10,6 milhões de dólares com a justificativa de patrocinar a cinebiografia de Jair Bolsonaro – o nome Dark Horse não aparece nas conversas, mas eles se referem ao projeto como “o filme”.

Ainda assim, a partir de diálogos encontrados no celular do banqueiro com outros interlocutores e intermediários de Flávio pode-se concluir que eles mantiveram contato nesse hiato. Era um momento-chave na concepção da candidatura do senador. Flávio Bolsonaro sondava Vorcaro não apenas por meio de terceiros, mas também pessoalmente. Já se sabe que, após a primeira prisão de Vorcaro, já solto e com tornozeleira eletrônica, o banqueiro recebeu Flávio em sua casa, em São Paulo, no dia 4 de dezembro. No dia seguinte, Flávio confirmou a pré-candidatura à Presidência da República.

A relação entre os dois ocorreu ao longo do período de maior vulnerabilidade do banqueiro. Desde o fim de 2023, Vorcaro buscava proteção de autoridades do alto escalão da República, como a cúpula do Congresso e ministros do STF, entre eles Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques. Sabedor de seus pecados, o banqueiro buscou blindagem em todos os cantos, como dizem fontes ouvidas pela piauí. “Ele acendeu uma vela para Deus e outra para o diabo”, resume um político que pediu para não ser identificado.

Flávio Bolsonaro escondia sua proximidade com Vorcaro até de aliados importantes da política – um sinal de que ele próprio suspeitava de problemas nessas interações. Depois que o escândalo estourou, em maio deste ano, Flávio mentiu repetidas vezes. Disse que não conversava com Vorcaro e que não havia dinheiro do Master no Dark Horse. Afirmou que o último pagamento para a produção do filme ocorrera em maio de 2025 e que sua visita ao banqueiro depois da prisão foi “para botar um ponto final” nos negócios entre eles. A dureza da expressão “ponto final” usada em público contrasta com a forma amável e cordial com que os diálogos eram conduzidos em privado. Por fim, alegou que nunca havia entrado em um avião de Vorcaro. Em todas as ocasiões, foi desmentido pelos fatos.

A relação fugidia entre o senador e o banqueiro está sob investigação desde julho de 2026 em razão da captação de dinheiro de Vorcaro para o Dark Horse envolvendo uma empresa que, agora se sabe, é investigada por suspeita de lavar dinheiro do PCC. O inquérito apura crimes financeiros nos repasses ao fundo americano Havengate, que recebeu dinheiro enviado a mando de Vorcaro por meio da empresa Entre Investimentos, do doleiro Antônio Freixo Junior, bem como o possível uso desses recursos em finalidades que não eram a cinebiografia de Jair.

Entre 16 de dezembro de 2024 e 20 de agosto de 2025, a conversa entre os dois está em branco. A piauí, no entanto, reconstituiu esse intervalo a partir das mensagens que Vorcaro trocou com outros interlocutores: o empresário Thiago Miranda, então presidente do Portal Leo Dias; o deputado Mário Frias (PL-SP), ex-secretário de Cultura de Jair Bolsonaro; o cunhado e operador financeiro do banqueiro, Fabiano Zettel; e o amigo Flávio Carneiro, que chama o senador Flavio Bolsonaro de “meu xará”.

Nessas conversas, Flávio Bolsonaro aparece marcando reuniões, apresentando aliados, oferecendo acesso ao pai e cobrando o dinheiro prometido para a cinebiografia. Ao longo de onze meses, as conversas registram encontros marcados entre os dois em pelo menos seis ocasiões – de uma reunião na casa de Vorcaro em Brasília, em dezembro de 2024, a um jantar com o ator Jim Caviezel, que interpreta Jair Bolsonaro no Dark Horse, na casa do banqueiro em São Paulo, em novembro de 2025.

Uma parte dessas reuniões já foi revelada pelo jornal O Estado de S.Paulo. O único encontro publicamente admitido por Flávio aconteceu depois da prisão, naquela reunião, ocorrida em 4 de dezembro de 2025, na véspera do anúncio da pré-candidatura de Flávio.

Diálogos entre Vorcaro e o publicitário e lobista Thiago Miranda também revelam um desvio na rota do financiamento que suspostamente bancou o filme.  Thiago Miranda foi quem intermediou os contatos do banqueiro com Flávio Bolsonaro e os produtores executivos da cinebiografia, Mário Frias e Eduardo Bolsonaro.

Em 16 de dezembro de 2024, Miranda recebeu uma minuta do contrato da parte dos Bolsonaro e encaminhou para Vorcaro. No papel, os 24 milhões de dólares seriam depositados na conta da produtora do filme, a Go Up Entertainment LLC, registrada nos Estados Unidos.

Por alguma razão ainda desconhecida, no entanto, deu-se uma mudança. Em vez de a produtora receber o dinheiro, optou-se por um caminho mais longo e menos convencional. Em janeiro de 2025, os Bolsonaro elegeram um novo destino para os milhões de Vorcaro. Descartaram a conta corrente da produtora e acionaram a conta do Havengate, o fundo imobiliário registrado no Texas e administrado pelo advogado Paulo Calixto. Essa figura desconhecida no Brasil era não apenas amigo de Eduardo Bolsonaro, mas também responsável por seu processo de imigração. Calixto tinha um parceiro no Havengate: o corretor de imóveis Altieris Santana. Esse fundo foi o caminho do dinheiro que havia sido pedido pessoalmente por Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro.

Os investigadores que acompanham o caso, ouvidos sob condição de anonimato, trabalham com a hipótese de que os dólares – ou parte dos dólares – acabaram não sendo usados no patrocínio do filme. Avaliam que toda a operação pode ter sido, na verdade, uma simulação de investimento que permitiria retirar o dinheiro nos Estados Unidos para outros fins. Além disso, os investigadores detectaram indícios do uso de um meio fraudulento de remessa, via Entre Investimento e Participações.

A aproximação entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro começou no dia 8 de dezembro de 2024. O empresário Flávio Carneiro escreveu a Vorcaro, de quem é frequente conselheiro: “Thiago tá cobrando se você vai num jantar c meu xará e o pai dele pelo que entendi, você tá ciente disso?” E opinou: “Acho uma roubada danada.” Ele falava de Thiago Miranda, o intermediador, e do encontro com Flávio e Jair Bolsonaro. Vorcaro respondeu: “Não sei nem de quem tá falando.” Carneiro explicou que Thiago Miranda insistia em juntá-lo com “o meu xará e o pai”, e o banqueiro encerrou: “Temos que pensar nisso.”

Pouco depois do meio-dia, Thiago Miranda escreveu ao banqueiro sobre “o filme do presidente”: “Flavio, bolso querem sentar com vc. Tem 40 minutos pra matarmos isso na quarta?” Disse ter “dois assuntos” (“Do filme do presidente e do SBT $$”) e que “Flavio [Carneiro] está ciente de tudo”. À tarde, Miranda insistiu: “Confirmei com o Flávio Bolsonaro. Quarta dia 11 às 17:30 aqui na sua casa de Brasília.” Era o começo de tudo.

Em seu estilo de combinar exposição absoluta em alguns casos com discrição severa em outros, Vorcaro escreveu para Carneiro na noite seguinte: “Não fala dessa reunião bolso pra ninguém!” E acrescentou: “Esse negócio acaba comigo.” Carneiro respondeu que estava “morrendo de medo” e que já comentara com ele ter “receio do xará”. À época, Jair Bolsonaro já havia sido indiciado pela Polícia Federal por tentativa de golpe de Estado no processo que o levaria à condenação e prisão no segundo semestre de 2025.

Na véspera do encontro, Miranda encaminhou ao banqueiro uma mensagem do senador, que dizia o seguinte: “Amanhã vou levar o dep Mário Frias por ser o idealizador do projeto. Tem algum problema?” Vorcaro não se opôs.

No dia 11 de dezembro, Flávio Bolsonaro se atrasou para o encontro por causa da votação da reforma tributária no Senado. A partir das 17h59, Frias fez seis chamadas para o banqueiro, que não as atendeu. Às 18h30, Miranda escreveu ao banqueiro pedindo desculpas pelo atraso de Flávio: “Desculpa a confusão que o Flávio fez. Vou conduzir isso da melhor forma.” Pouco depois, Thiago acrescenta: “Isso não se faz. Eu tinha combinado com ele. Como o cara aparece na sua casa assim.” As mensagens não esclarecem que era “o cara”, nem por que sua entrada em cena fora um problema, nem mesmo se a reunião aconteceu.

As mensagens, no entanto, deixam claro que, naquele dia, um pacto foi selado. Isso fica evidente porque às 18h22, depois da sexta chamada não atendida pelo banqueiro, Frias escreveu “Tmj”, abreviação de “estamos juntos”.  Depois de mais duas chamadas não atendidas, finalmente Vorcaro retornou para Frias. Tiveram uma breve conversa. Logo depois disso, Frias gravou um áudio para o banqueiro. “Só te agradecer, meu irmão”. Disse que o projeto iria “mexer com o coração de muita gente” e seria “muito importante para o nosso país”. O deputado terminava a mensagem de áudio de 17 segundos dizendo: “Preciso de vez em quando te falar como as coisas vão andando, tá?” Depois de ouvir o áudio, Vorcaro voltou a falar com Frias. O diálogo durou menos de 2 minutos.

Frias retomou a conversa quatro dias depois com a notícia de que o americano Cyrus Nowrasteh havia aceitado dirigir o filme e que o ator Jim Caviezel poderia interpretar Jair Bolsonaro, desde que o cachê fosse bom. Frias celebrou: “Milagres só são possíveis quando há fé.” E completou, em outra mensagem: “Vai ser a maior superprodução de uma história brasileira.”

No dia seguinte, 16 de dezembro, Frias escreveu ao banqueiro às 12h49: “Fala irmão. Tô com senador aqui. Pode falar ?!?”. A mensagem não identifica o senador, mas o contexto indica que era Flávio Bolsonaro. “Opa. Sim”, diz Vorcaro, e os dois iniciaram uma chamada de áudio que durou dois minutos e dois segundos. Logo depois dessa conversa Frias reforça em três mensagens:

– Tmj

– Aqui só os melhores guerreiros

– Família

Vorcaro responde com um “Bora”.

Uma hora e meia depois, Thiago Miranda escreve para Vorcaro. Disse que tinha acabado de almoçar com o pessoal do filme e que lhe apresentaria “todo o projeto e valores”. Às 19h24 e às 19h25, foram gerados os PDFs de um plano de negócios e de uma minuta de acordo de financiamento de Capitão do Povo, o nome que antecedeu Dark Horse.

Os documentos mostram que o investimento no filme seria de 25 milhões de dólares. Na página 9 do plano de negócios, um único investidor, identificado como “número 3”, aparece com 48 das 50 cotas de 500 mil dólares— o equivalente a 96% do orçamento previsto. A apresentação não permite identificar nominalmente esse investidor, mas nem precisava. Era um banqueiro sem nenhum filme no currículo, cuja experiência com o cinema, até então, se resumia à fantasia de Drácula que usou na festa “Halloween das Suíças”, para o qual convidou algumas das mais altas autoridades da República em 2023. Ele mesmo: Daniel Vorcaro.

A piauí comparou essa versão do plano, de dezembro de 2024, com uma versão anterior, editada pela Go Up em fevereiro do mesmo ano. O documento da Go Up dividia as cotas do filme entre três investidores e prometia concessão de green card, por meio de uma “empresa jurídica de imigração” – a descrição lembra os serviços do advogado Paulo Calixto, que também era o controlador do fundo Havengate. Também previa um quadro de “governança corporativa e compliance”, com prestação de contas, relatórios trimestrais e uma conta de garantia, conhecida no mundo empresarial como “escrow”.

 A versão do plano de negócios que chegou a Vorcaro eliminou o green card, sumiu com as regras de controle e de complicance e reservou 48 das 50 cotas a Vorcaro. Na prática, virou o dono do filme.

Ainda naquele 16 de dezembro, às 22h10, Flávio Bolsonaro fez a primeira ligação para o banqueiro. Era o começo de uma troca que renderia quase uma centena de mensagens. Seis dias depois desse contato inaugural entre banqueiro e senador, Frias escreveu a Vorcaro dizendo que aquele era um filme de “justiça divina” e que “2026 é do Brasil”. A mensagem indica que os recursos para a suposta produção do filme, independentemente de implicações criminais, estava conectada com a futura campanha presidencial do candidato do PL.

Dias depois, Thiago Miranda escreveu para Vorcaro pedindo orientações sobre como proceder. Escreveu: “Já estou com tudo em mãos. Como prossigo?” Vorcaro lhe respondeu: “Tem que mandar 4 mm usd agora”, orientou, referindo-se à quantia de 4 milhões de dólares americanos, que correspondiam às duas primeiras de 2 milhões cada. Miranda avisou que tinha pedido “para o Mario Frias centralizar tudo comigo” e encaminhou dois arquivos. Eram mensagens encaminhadas de outra pessoa. “Aqui está o mapa do fluxo de investimento”, escreveu sobre o acordo.

A minuta, cujo texto foi recuperado da extração do celular de Vorcaro, previa que o financiador comprasse 48 cotas de 500 mil dólares, recebesse o dinheiro de volta com prêmio de 20% e depois uma fatia da receita, sem “direito ou autoridade legal para tomar decisões”. Os 24 milhões de dólares seriam depositados na “conta de produção Capitão do Povo”, da produtora americana Go Up Entertainment, de Karina Gama e Michael Davis, no Bank of America. O documento não tinha as assinaturas, o nome do financiador estava em branco, e o título interno do arquivo dizia: “Acordo financiamento da produção Eduardo final”. É um indício de que o modelo foi reaproveitado de uma versão ligada a Eduardo Bolsonaro. “Analisou algo do filme? Deixamos para resolver em janeiro?”, escreveu Miranda a Vorcaro em 20 de dezembro.

Procurados pela piauí, Karina e Davis não esclareceram a mudança da conta recebedora do dinheiro de Vorcaro. O produtor disse que processaria a revista caso fossem publicadas informações “afirmações materiais sabidamente falsas” a seu respeito.

Depois da ligação de 16 de dezembro de 2024, a conversa entre Flávio e Vorcaro só volta a ter registro em 20 de agosto de 2025. A perícia não recuperou mensagens apagadas no intervalo. Nesse hiato, a rota do dinheiro mudou, os dólares começaram a ser remetidos e depois rarearam, à medida que os rolos financeiros e legais de Vorcaro se agravavam. Mas o hiato pode ser preenchido com outras mensagens.

Logo em 6 de janeiro de 2025, Miranda pediu os dados da “empresa que vamos usar” para o contrato, e Vorcaro mandou o cunhado e operador Fabiano Zettel usar uma empresa dele mesmo, Zettel. E o banqueiro fez questão de alertar o cunhado sobre a relevância do negócio e pediu que não houvesse qualquer interrupção nas remessas de dólares. “Esse é o mais importante disparado. Não pode falhar mais”, disse.

O dia 20 de janeiro marcava o início dos pagamentos do banqueiro para a produção de Dark Horse. “Hoje é a data limite daquele primeiro aporte filme”, escreveu Miranda, referindo-se às duas parcelas que somavam 4 milhões de dólares. Naaquele mesmo dia, Vorcaro recebeu um print de uma mensagem que Flávio Bolsonaro enviou a Thiago Miranda pedindo “um gás” para desembaraçar o pagamento.

Para agilizar, o banqueiro resolveu usar, como fonte pagadora, a empresa Entre Investimentos e Participações, de Antonio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro. Mas o pagamento ainda demorou oito dias para cair, causando bastante inquietude para Flavio Bolsonaro. No dia 11, Miranda escreveu para Vorcaro: “Flavio B e Neypai estão me cobrando”, no que parece ser um referência ao pai de Neymar. O atraso deveu-se a um problema na remessa, que levou mais de uma semana para resolver.

Nos arquivos do celular, não há registro de quem decidiu trocar a conta da produtora Go Up pela conta da Entre Investimentos, nem por quê, criando uma escala na remessa do dinheiro.

O depósito na conta do Havengate, o fundo sediado no Texas, acompanhou a mudança de Eduardo Bolsonaro e família para os Estados Unidos. A primeira remessa saiu no meio de uma licença do então deputado. Três dias depois de o Havengate e a Go Up assinarem o contrato que fez do fundo americano o financiador do filme, em 24 de fevereiro, Eduardo se licenciou e se mudou para a região de Dallas.

Os documentos no celular de Vorcaro mostram também que, no papel, ele não era o financiador do filme. O banqueiro que corrompeu a República virou cotista do fundo Havengate, como mostra uma imagem da cláusula do novo acordo enviada por Miranda em 12 de março. É aí, para os investigadores, que o negócio deixa de ser cinema. Formalmente, Vorcaro não pagou um filme: subscreveu cotas, como quem aplica dinheiro num fundo. O dinheiro, porém, aparentemente não ficou aplicado, e o fundo serviu como ponte de passagem, segundo a PF.

Os investigadores ainda preparam o pedido de cooperação às autoridades americanas para rastrear o caminho do dinheiro. A PF concluiu que Eduardo “orientou” a gestão dos recursos nos Estados Unidos e investiga se parte deles custeou a estadia do ex-deputado no país.

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