Como a sombra da milícia volta a rondar Flávio antes da eleição
Como a sombra da milícia volta a rondar Flávio antes da eleição
Gabinete negociou emenda com condenado no caso Marielle. Senador já empregou parentes de miliciano. Sociólogos discorrem sobre o que isso diz dele e do país que pode elegê-lo.
Flávio Bolsonaro (PL) enviou uma emenda parlamentar do Senado a um projeto esportivo numa área dominada pela milícia no Rio de Janeiro, atendendo a um pedido feito em 2023 por Robson Calixto, conhecido como “Peixe”, um dos homens condenados pelo assassinato da vereadora Marielle Franco. As conversas foram reveladas pela revista piauí e pelo jornal O Estado de S. Paulo.
A Polícia Federal afirma que há indícios de desvio de recursos das emendas no valor de R$ 200 mil. O hoje candidato à Presidência nega irregularidades e diz que os repasses seguiram critérios técnicos. É a segunda vez, no entanto, que o nome do presidenciável aparece em investigações da PF — já que Flávio também está no inquérito que apura o pedido de recursos a Daniel Vorcaro sob a justificativa de financiar o filme “Dark Horse”.
Neste texto, o Nexo explica as novas revelações, retoma os vínculos anteriores de Flávio Bolsonaro com a milícia e analisa como isso impacta a sua candidatura.
A emenda de Flávio
De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo e a revista piauí, a assessora parlamentar Maria de Fátima Bezerra Castro negociou, em 2023, a liberação de emendas parlamentares de Flávio com o miliciano Robson Calixto, conhecido como “Peixe”, um dos condenados pelo Supremo Tribunal Federal, em fevereiro de 2026, pelos assassinatos da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes.
Os crimes, que ocorreram em março de 2018 e ganharam repercussão mundial, tiveram sua investigação marcada por idas e vindas antes de o caso chegar ao Supremo e as autoridades concluírem que os irmãos Brazão — Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio, e Chiquinho Brazão, ex-deputado federal pelo União Brasil — foram os mandantes do assassinato da vereadora.
“Peixe”, que foi preso pela Polícia Federal em maio de 2024, foi citado na delação premiada de Ronnie Lessa, assassino confesso da vereadora. Ele disse que foi o miliciano quem o apresentou aos irmãos Brazão e forneceu a submetralhadora utilizada na execução de Marielle.
Na época em que negociou a emenda com a assessora de Flávio, em 2023, “Peixe” trabalhava com Domingos Brazão no Tribunal de Contas do Rio. Os diálogos entre o miliciano e a funcionária do senador integram uma investigação da Polícia Federal aberta em julho de 2026 para apurar desvios de emendas enviadas a entidades do Rio de Janeiro vinculadas aos Brazão.
R$ 200 mil
foi o valor da emenda parlamentar destinada por Flávio Bolsonaro a um projeto de futebol do Ifop (Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio)
O Ifop (Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio), que recebeu a emenda parlamentar no valor de R$ 200 mil, fica no bairro Taquara e tem o projeto social “Jogadores do Futuro” para a inserção de crianças no futebol.
A região é uma área de influência dos Brazão e foi descrita no relatório final da CPI das Milícias — presidida em 2008 pelo então deputado estadual do Rio Marcelo Freixo (na época no PSOL, hoje no PSB) — como um “curral eleitoral” controlado por milicianos.
Segundo a PF, “Peixe” iniciou negociações sobre a construção de imóveis em Taquara em setembro de 2023. Um mês depois, pediu dinheiro a Flávio para a ONG que fica no bairro. As conversas entre ele e a assessora de Flávio, de acordo com a investigação, duraram cerca de cinco meses, de outubro de 2023 a fevereiro de 2024.
“Amiga, vê com o nosso senador se consegue nos ajudar”
Robson Calixto, o “Peixe”
em mensagem para Maria de Fátima Bezerra Castro, assessora parlamentar de Flávio Bolsonaro no Senado, em outubro de 2023
Após um primeiro pedido no dia 23 de outubro de 2023 e uma nova cobrança de “Peixe” sete dias depois, o Ifop recebeu a emenda de quase R$ 200 mil em 23 de novembro de 2023.
De acordo com um relatório do TCU (Tribunal de Contas da União), houve irregularidades em contratações feitas com o recurso, como um contrato firmado com o escritório de advocacia de Rômulo Oliveira Alves, presidente do Ifop, sem relação com o projeto esportivo. O TCU definiu a situação como “inusitada” pelo fato de Alves ser gestor do dinheiro público e, ao mesmo tempo, beneficiário indireto da contratação.
Em nota, Flávio disse que a emenda foi destinada de acordo com a legislação e atendeu aos critérios técnicos do Ministério do Esporte. O senador também afirmou que a responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade, não dele.
O histórico do senador
Quando era deputado estadual, Flávio apresentou na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), em 2003, uma moção de louvor ao policial militar Adriano da Nóbrega.
Anos depois, Nóbrega seria apontado pelo Ministério Público como parte da milícia de Rio das Pedras e um dos chefes do “Escritório do Crime”, grupo de matadores de aluguel formado por milicianos, policiais e ex-policiais. Ele foi morto em 2020 em confronto com policiais na Bahia.
A justificativa apresentada por Flávio para homenagear Nóbrega era que o então policial exercia sua função com “dedicação, brilhantismo e galhardia”.
Em 2005, enquanto estava preso por homicídio de um guardador de carros, Adriano da Nóbrega recebeu da Alerj a medalha Tiradentes, principal honraria do Poder Legislativo estadual, também proposta por Flávio.
O então deputado disse que a medalha era cabível pelo fato de o policial ter tido êxito ao prender 12 criminosos e ao apreender armamentos e drogas na cidade.
Questionado sobre as homenagens durante sabatina no Jornal Nacional na campanha de 2026, Flávio disse que as fez antes das acusações de que Adriano da Nóbrega integrava milícias e o “Escritório do Crime”.
“A homenagem foi feita no momento em que ele era um policial reconhecido. Eu conheci ele dentro do Bope [Batalhão de Operações Especiais]. Não tinha nada contra ele nesta época”
Flávio Bolsonaro
senador e candidato à Presidência pelo PL, em sabatina no Jornal Nacional
Além de homenagear o miliciano, Flávio empregou seus parentes na Alerj, incluindo:
a esposa do policial, Danielle Mendonça
a mãe do policial, Raimunda Veras Magalhães
Em 2018, ambas foram exoneradas quando Flávio foi eleito para o Senado e se tornaram públicas as suspeitas de um esquema de desvio de verbas em seu gabinete na Alerj — caso conhecido como o das rachadinhas.
Em 2008, quando a Assembleia Legislativa debatia a CPI das Milícias, Flávio foi favorável à instauração do colegiado, mas se posicionou publicamente a favor dos grupos paramilitares. “Eles se organizam para que o tráfico não impere nessas regiões”, afirmou na época.
A relação de Flávio com a milícia sob análise
Para analisar como os vínculos com a milícia impactam Flávio Bolsonaro, o Nexo conversou com os pesquisadores:
José Cláudio Alves, professor do Departamento de Ciências Sociais da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro)
Camila Rocha, cientista política e diretora científica do CCI-Cebrap (Centro para Imaginação Crítica do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)
O que a nova revelação envolvendo um miliciano diz sobre Flávio como candidato à Presidência da República?
JOSÉ CLÁUDIO ALVES A base dele, que estimula, aceita e reforça o vínculo com a estrutura miliciana — que é uma estrutura conservadora, de execução sumária, que leva a vínculos com as formas mais bárbaras e nefastas de eliminação de pessoas na sociedade —, vai sempre apoiar a lógica da violência extrema. É o discurso do “bandido bom é bandido morto”, de que é matando que se resolve. [É a base] que faz arminha em púlpito de igreja evangélica.
Flávio sempre cultivou proximidades com essa base. Homenageou Adriano da Nóbrega, colocou a mãe e esposa dele em seu gabinete [da Alerj], circula nesse meio e faz disso seu palanque. Por outro lado, faz esse discurso de que não tem nada a ver com isso e é um cara sem vínculos com essas pessoas, com essa violência, que é um cara pacífico.
Esse jogo de luz e sombra, de sim e não, sempre dúbio, que se assiste também no caso Daniel Vorcaro [do Banco Master, envolvido nos repasses ao filme “Dark Horse”], é típico da figura de Flávio. Ele se esconde atrás dessa dimensão, assim como a milícia faz.
CAMILA ROCHA A informação de destinação de emenda a miliciano contribui para aumentar a rejeição de Flávio entre eleitores indecisos [que não se identificam nem como bolsonaristas, nem como petistas]. Uma das principais desconfianças desses eleitores em relação a ele tem a ver justamente com acusações de seu envolvimento com as milícias e a criminalidade violenta. Na avaliação desses eleitores, isso seria um diferencial negativo que apenas Flávio tem, e isso assusta essas pessoas.
Para quem já decidiu que vai votar nele para a Presidência da República, mas não está tão empolgado, também é algo que pega. O discurso desse eleitor é de que o senador é a única opção, muito atrelado ao fato de ele ser filho de Jair Bolsonaro. É esperado que Flávio se esquive das denúncias de envolvimento com milícias, porque isso pega muito mal para ele. Quanto menos ele falar sobre o assunto, melhor.
As relações de Flávio com milicianos são conhecidas há tempos. Por que isso não parece render prejuízos políticos?
JOSÉ CLÁUDIO ALVES Flávio está mergulhado na essência miliciana, que é uma essência de que nunca se tem certeza e segurança. Ao mesmo tempo que está ao lado da lei e da Justiça — porque o miliciano vem da estrutura de segurança pública —, [a milícia] tem uma face ilegal, criminosa e informal. É da combinação dessas duas dimensões, do legal e ilegal, do formal e informal, que a milícia é aceita e reconhecida na sociedade. Quem tem vínculos com a milícia se projeta na política.
Estruturas milicianas já estão funcionando na Baixada Fluminense e no Rio de Janeiro há 30 ou 40 anos. Por isso, mesmo que se consiga dizer que Flávio tem vínculos diretos com a milícia, isso, para a base política dele, nada mais é do que uma forma de estar no mundo. É essa dubiedade que dá ganhos, que possibilita que ele ande no meio de tudo isso e diga que não faz parte de tudo isso. É essa dimensão que interessa a Flávio, e essa estrutura miliciana cresce eleição após eleição.
CAMILA ROCHA Isso rende prejuízos políticos para ele. Por exemplo: quando foi divulgada [em julho, pelo portal ICL] uma foto de Flávio ao lado de um criminoso conhecido como “Sicário” [que seria o chefe de uma espécie de milícia privada de Daniel Vorcaro, que ordenava intimidações a adversários e jornalistas], aumentou o medo e a desconfiança dos eleitores indecisos — justamente porque esse é um perfil que afasta as pessoas. Elas entendem que todo mundo é corrupto e minimizam alguns fatos, mas o envolvimento com a criminalidade violenta é outro nível.
Há muito tempo, os eleitores de Jair Bolsonaro falam mal dos filhos dele. Dizem que são imaturos, corruptos, envolvidos com o crime. Não é algo desconhecido. Mas essas pessoas optam por Flávio simplesmente para não votarem em Lula.
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