Flávio Bolsonaro usou imóvel que pertenceu a cunhado de Vorcaro em São Paulo durante campanha
Flávio Bolsonaro usou imóvel que pertenceu a cunhado de Vorcaro em São Paulo durante campanha
Apartamento na Vila Nova Conceição foi vendido por Fabiano Zettel à empresa do advogado Willer Tomaz por R$ 3,5 milhões.
O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) usou, na primeira quinzena de agosto, um apartamento que havia pertencido a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, como base para atividades de sua campanha em São Paulo. A informação foi revelada nesta quarta-feira (16) pela revista piauí, que ouviu moradores do edifício e uma funcionária de uma escola próxima sobre a presença do candidato e de agentes da Polícia Legislativa no local. A candidatura de Flávio e Alfredo Gaspar pelo PL foi validada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em setembro.
O imóvel fica no edifício l’Adresse, na Vila Nova Conceição, bairro da zona sul paulistana, e tem 158,87 metros quadrados, três vagas de garagem e varanda. Durante os dias em que esteve no local, Flávio se reuniu com integrantes da equipe, gravou vídeos para o horário eleitoral, participou de podcasts e cumpriu compromissos na região da Faria Lima.
A cerca de cinco minutos de carro do prédio ficava o comitê de campanha do candidato, na Avenida República do Líbano. Era para lá que Flávio se deslocava, entre outros compromissos, para a gravação de transmissões de campanha.
O apartamento havia mudado de proprietário poucos meses antes. Zettel comprou a unidade em 17 de abril de 2025 por R$ 5,5 milhões. Em 10 de fevereiro deste ano, menos de dez meses depois, vendeu o imóvel por R$ 3,5 milhões à WT Administração de Imóveis e Bens, empresa do advogado Willer Tomaz.
A operação representou para Zettel uma perda nominal de R$ 2 milhões, equivalente a aproximadamente 36% do valor pago na aquisição. A transação imobiliária havia sido revelada anteriormente pela Folha de S.Paulo.
A escritura foi registrada em 4 de março, depois de o Supremo Tribunal Federal determinar o bloqueio dos bens de Zettel. O registro ocorreu na mesma data em que ele foi preso na terceira fase da Operação Compliance Zero. O elemento novo é que, meses depois da transferência, o apartamento passou a ser utilizado nas atividades da campanha presidencial de Flávio.
Moradores relataram que policiais legislativos à paisana fizeram varreduras em áreas comuns do edifício e circularam pelo prédio durante a permanência do candidato. Uma funcionária de uma escola onde ficavam estacionados veículos usados pelos agentes também confirmou a movimentação.
A presença da equipe de segurança levou moradores a pedir ao síndico acesso às imagens das câmeras para verificar o que havia ocorrido nas áreas comuns. Eles receberam a informação de que as gravações haviam sido apagadas acidentalmente.
O síndico foi procurado para explicar as circunstâncias da perda das imagens e informar se a administração do condomínio havia sido comunicada previamente sobre a presença dos policiais legislativos e de Flávio no prédio. Não houve resposta.
Uma influenciadora que havia morado no apartamento quando a propriedade ainda pertencia a Zettel também confirmou que o empresário frequentava o local quando estava em São Paulo.
Willer Tomaz negou inicialmente, em contato telefônico, que Flávio tivesse utilizado seu apartamento. No dia seguinte, encaminhou uma nota na qual afirmou não conhecer Fabiano Zettel nem Daniel Vorcaro e declarou nunca ter mantido qualquer “relação pessoal, comercial ou societária” com os dois.
A nota não mencionou Flávio, apesar de questionamento específico sobre o candidato. A assessoria de imprensa do senador, por sua vez, afirmou que ele havia se hospedado apenas em hotéis da região. Questionada posteriormente sobre qual uso Flávio teria feito do apartamento, não respondeu até a publicação da reportagem.
Zettel e a investigação do Banco Master
Fabiano Zettel aparece nas investigações relacionadas ao Banco Master. Segundo relatório da Polícia Federal reproduzido no material, Daniel Vorcaro exercia controle sobre pagamentos feitos a partir de empresas em nome do cunhado.
Em um dos relatórios, os investigadores afirmaram ter ficado “cabalmente constatado” que Zettel atuava como interposta pessoa, ou “laranja”, de Vorcaro.
Mensagens apreendidas pela PF também mostram o banqueiro recorrendo ao cunhado em tratativas financeiras relacionadas a personagens políticos e a negócios investigados, entre eles o financiamento do filme Dark Horse e transações ligadas ao resort Tayayá.
Relação de Willer Tomaz com Flávio
Willer Tomaz não é investigado no caso Master. O advogado aparece, segundo a apuração, no inquérito sobre fraudes no INSS.
A relação de Tomaz com Flávio vem de anos anteriores. Quando o senador era investigado no caso das chamadas rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, o advogado chegou a ser consultado para assumir sua defesa. Ele não aceitou, alegando estar ocupado com outros processos.
Posteriormente, Tomaz participou de articulações de Flávio relacionadas a indicações para tribunais superiores e outros órgãos do Judiciário. Interlocutores do advogado afirmaram que foi em sua casa que Flávio conheceu Kassio Nunes Marques.
Letícia Caetano dos Reis, que administra o escritório de advocacia de Flávio, afirmou em entrevista à Agência Pública ter chegado à função por indicação de Tomaz.
A proximidade também se estendeu à vida pessoal. Segundo relatos reunidos na apuração, Tomaz já viajou a lazer com Flávio e com a mulher do senador, Fernanda. Após Flávio sofrer uma queda de quadriciclo em uma praia do Ceará, o candidato retornou a Brasília em um avião do advogado para receber atendimento no hospital DF Star.
Em fevereiro, Flávio comemorou os 12 anos da filha caçula em uma casa em Angra dos Reis pertencente à empresa de Tomaz, conforme havia revelado o ICL Notícias.
O imóvel também está registrado em nome da WT Administração de Imóveis e Bens, com participação de outros investidores. Um deles é o fundo Sharks FIP Multiestratégia, administrado pela Trustee DTVM e relacionado a Maurício Quadrado, ex-sócio de Vorcaro e investigado no caso Master.
Também aparecem entre os cotistas o empresário Fabrício Bloisi, presidente do conselho do iFood, e o ex-fiscal Márcio Miranda Maia, investigado em operação do Ministério Público que apura suspeitas de corrupção na Secretaria da Fazenda de São Paulo.
A propriedade de Angra é administrada pela Prime You, empresa de compartilhamento de bens de luxo da qual Vorcaro foi sócio até setembro de 2025. Tomaz também foi cotista, por meio da Prime You, de um jato Legacy 650 que teve Vorcaro entre seus proprietários.
Questionado sobre sua relação com a Prime You, Tomaz afirmou ter tratado diretamente com executivos e integrantes da área comercial da empresa, sem intermediação de Vorcaro.
Imóveis em Angra e disputa judicial
Tomaz possui outros dois imóveis em Angra dos Reis, município onde Flávio também mantém atuação política. O senador é autor de um projeto de lei que flexibiliza regras de licenciamento ambiental para empreendimentos turísticos na região.
Em evento de campanha realizado em Angra no fim de agosto, Flávio afirmou:
“Temos muitas obras de infraestrutura que podem ser trazidas para essa região, em especial destravar as questões ambientais que têm impedido o desenvolvimento de Angra de uma forma correta. Tem milhões de brasileiros que gastam milhares de dólares para ir para Cancún, para a Indonésia, e a gente podia fazer a mesma coisa na região de Angra, Mangaratiba e Paraty”.
Outro imóvel do advogado em Angra, uma casa em Ilha Comprida, é alvo de uma disputa judicial e também foi frequentado por Flávio durante anos.
O ex-deputado estadual e atual conselheiro do Tribunal de Contas de Minas Gerais Alencar Silveira Júnior tentou envolver o candidato na tentativa de solucionar a controvérsia. Em 1º de junho, durante um encontro de Flávio com empresários em Belo Horizonte, Alencar abordou o senador.
“Eu falei para ele: ‘Você podia resolver o negócio lá da ilha’”, relatou Alencar.
Flávio respondeu: “Eu não tenho nada com isso.”
Alencar insistiu: “Mas você pode conversar com ele.”
Segundo o relato, a conversa terminou com a aproximação de um segurança. Pouco depois, Alencar procurou novamente o candidato e disse: “Você podia olhar isso, Flávio.” O senador deixou o local sem prosseguir com a conversa.
Três anos antes, Alencar havia abordado o então presidente Jair Bolsonaro durante uma visita a Belo Horizonte. Segundo ele, carregava documentos sobre a disputa judicial envolvendo a casa em Angra dos Reis.
“Eu pedi para ele resolver essa questão da casa, mas o presidente disse ter sido abandonado pelos amigos e que seria preso. Não aceitou pegar nenhum papel. Pediu para eu resolver com o Willer Tomaz”, contou Alencar.
A origem da disputa remonta à compra de direitos sobre o imóvel. Alencar havia adquirido 25% da casa, enquanto a Sport 70, sociedade do jogador Richarlison com seu antigo agente Renato Velasco, ficou com os outros 75%.
Posteriormente, surgiu um problema relacionado à documentação: os vendedores dos direitos não detinham a titularidade definitiva da propriedade. Um deles chegou a ser condenado por estelionato.
Richarlison já ocupava o imóvel e havia investido em reformas quando Tomaz adquiriu de um dos herdeiros direitos possessórios sobre a propriedade. O advogado obteve posteriormente autorização para a transferência do direito de ocupação junto à Secretaria do Patrimônio da União, ainda durante o governo Jair Bolsonaro.
A disputa seguiu para a Justiça, onde as decisões citadas na apuração têm sido favoráveis a Tomaz. Flávio, que passou a visitar o imóvel a partir de 2020, foi arrolado como testemunha do advogado no processo.
Em mensagem enviada a Alencar e obtida pela reportagem original, Tomaz afirmou:
“Ganhei tudo na justiça. Vcs não têm direito a nada […] E vc fica criando essa narrativa envolvendo a política que nada tem a ver. Vc está escolhendo a pessoa errada para cobrar. Vai cobrar de quem recebeu. Comprou da pessoa errada. Nunca pagou IPTU, FORO, nada. Para de malandragem. Fica rodeando todo mundo. Que coisa feia.”