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Aos 21 anos, ele era um garçom no Rio de Janeiro. Anos depois, liderou a guerra que venceu a maior potência militar da história
Conheça a trajetória de ‘Tio Ho’, que trabalhou como garçom
Antes de se tornar o homem cujo nome seria associado à reunificação do Vietnã e à resistência contra duas das maiores potências militares do século 20, Ho Chi Minh foi um jovem viajante que conheceu o mundo trabalhando em navios.
Em 1912, aos 21 anos, ele desembarcou no Rio de Janeiro. Ainda não era Ho Chi Minh. Chamava-se Nguyễn Tất Thành e trabalhava como cozinheiro a bordo do navio francês Amiral Latouche-Tréville. A passagem pelo Brasil aconteceu durante sua longa viagem pelo mundo, iniciada no ano anterior, quando deixou a Indochina francesa em busca de uma resposta para uma pergunta que o acompanharia por toda a vida: como libertar seu país do domínio colonial.
A história de sua passagem pelo Rio é cercada de lacunas e controvérsias. Pesquisas acadêmicas apontam que a presença de Ho na cidade é aceita por fontes brasileiras e vietnamitas, mas que a documentação disponível não permite reconstruir com precisão todos os detalhes de sua estadia. O governo vietnamita, contudo, reconhece a passagem de Nguyễn Tất Thành pelo Rio em 1912. Em 2024, uma placa comemorativa foi inaugurada na cidade para marcar o episódio.
Segundo relatos biográficos, o jovem marinheiro ficou doente durante a viagem e desembarcou no Rio para se tratar. Há também relatos de que trabalhou durante sua permanência na cidade. A imagem de um futuro revolucionário servindo mesas no Rio, porém, deve ser tratada com cautela: as fontes mais sólidas o identificam como cozinheiro ou ajudante de cozinha no navio, enquanto detalhes sobre seu eventual trabalho em restaurantes cariocas pertencem a uma tradição biográfica menos documentada.
O episódio, ainda assim, é simbólico. O jovem vietnamita estava diante de um mundo muito maior do que sua terra natal e observava sociedades que, assim como o Vietnã, haviam sido marcadas pelo colonialismo, pela desigualdade e pela exploração.
Um país que não existia
Nguyễn Tất Thành nasceu em 1890, quando o Vietnã fazia parte da Indochina Francesa. Seu pai era um funcionário público que se opunha à dominação francesa, e a experiência familiar ajudou a formar no jovem uma forte consciência nacionalista.
Em 1911, ele deixou o Vietnã trabalhando em um navio francês. Nos anos seguintes, passou por diferentes lugares, entre eles África, Estados Unidos, Reino Unido e França. A viagem não era simplesmente uma aventura pessoal. Seu objetivo era compreender o funcionamento das potências que dominavam seu país.
Na França, depois da Primeira Guerra Mundial, ele tentou levar a questão vietnamita ao centro da política internacional.
Em 1919, utilizando o nome Nguyễn Ái Quốc, apresentou aos representantes reunidos na Conferência de Paz de Versalhes uma reivindicação por direitos políticos para os vietnamitas. O pedido não foi atendido.
A experiência foi decisiva. A promessa de que o fim da guerra inauguraria uma nova era de autodeterminação dos povos não parecia valer para os territórios colonizados.
Foi então que o nacionalista vietnamita começou a se aproximar do marxismo.
Em 1920, participou da fundação do Partido Comunista Francês. Posteriormente, viajou para a União Soviética e passou a atuar no movimento comunista internacional. Em 1930, ajudou a fundar o Partido Comunista da Indochina.
Mas seu projeto político nunca se limitou à construção de uma revolução socialista. Para ele, a independência nacional era inseparável da transformação social.
O retorno ao Vietnã
Em 1941, depois de décadas circulando entre Europa e Ásia, Nguyễn Ái Quốc voltou ao Vietnã. Foi nesse período que passou a utilizar o nome pelo qual entraria para a história: Ho Chi Minh.
Ele organizou, junto com outros dirigentes revolucionários, a Liga pela Independência do Vietnã, conhecida como Viet Minh. A organização combinava nacionalismo e comunismo e tinha como objetivo combater o domínio estrangeiro.
A Segunda Guerra Mundial criou uma oportunidade inesperada.
O Japão havia ocupado a Indochina, enquanto a administração colonial francesa permanecia inicialmente em funcionamento. Ho Chi Minh e o Viet Minh passaram a combater os japoneses e estabeleceram contatos com os Aliados.
Quando o Japão se rendeu, em agosto de 1945, o poder colonial entrou em colapso.
Em 2 de setembro daquele ano, diante de uma enorme multidão em Hanói, Ho Chi Minh proclamou a independência da República Democrática do Vietnã.
Seu discurso começava com uma ideia familiar ao público ocidental: a afirmação de que os seres humanos nascem iguais e possuem direitos fundamentais. A referência à Declaração de Independência dos Estados Unidos não era casual. Ho tentava apresentar a independência vietnamita não apenas como uma revolução comunista, mas como uma luta de um povo pela autodeterminação.
A guerra contra a França
A independência, entretanto, não seria aceita facilmente.
A França tentou recuperar o controle de sua antiga colônia. As negociações entre Ho Chi Minh e os franceses fracassaram e, em 1946, começou a Primeira Guerra da Indochina.
Durante oito anos, o Viet Minh enfrentou uma potência colonial que possuía forças militares muito superiores em equipamentos e recursos.
Ho Chi Minh tornou-se o rosto político da resistência. No campo militar, uma figura fundamental foi o general Võ Nguyên Giáp, responsável por transformar forças guerrilheiras em um exército capaz de enfrentar tropas convencionais.
O confronto chegaria ao ponto decisivo em 1954.
No vale de Dien Bien Phu, no noroeste do Vietnã, os franceses haviam instalado uma grande base militar. A posição deveria funcionar como uma armadilha para as forças de Ho Chi Minh.
O resultado foi exatamente o contrário.
Durante 57 dias, forças do Viet Minh cercaram a guarnição francesa. Em 7 de maio de 1954, Dien Bien Phu caiu. A derrota foi devastadora para a França e tornou insustentável a continuidade de sua guerra colonial na Indochina.
Era uma vitória extraordinária: uma força revolucionária vietnamita havia derrotado militarmente uma das principais potências europeias.
O próximo inimigo era ainda maior
A vitória contra a França, porém, não produziu imediatamente um Vietnã unificado.
Os acordos de Genebra de 1954 estabeleceram uma divisão temporária do país pelo paralelo 17. O Norte ficou sob o governo de Ho Chi Minh; o Sul passou a ser governado por uma estrutura apoiada pelas potências ocidentais. Os acordos previam eleições para reunificar o país em 1956, mas elas nunca aconteceram. Os Estados Unidos apoiaram o governo sul-vietnamita e passaram progressivamente a assumir um papel cada vez maior no conflito.
A guerra que se seguiu seria ainda mais conhecida.
A partir dos anos 1960, os Estados Unidos ampliaram dramaticamente sua intervenção militar no Vietnã. O país mais poderoso do mundo mobilizou centenas de milhares de soldados, aviões, helicópteros e uma enorme capacidade industrial para tentar impedir a vitória das forças comunistas.
Ho Chi Minh tornou-se novamente o principal símbolo político da resistência.
Mas há uma diferença importante entre a imagem popular e a realidade histórica: ele não comandava pessoalmente cada operação militar. A estratégia militar passou em grande medida pelas mãos de dirigentes como Võ Nguyên Giáp, enquanto Ho exercia sobretudo a liderança política e simbólica do movimento.
Mesmo assim, sua figura representava a continuidade da luta iniciada décadas antes.
Para os vietnamitas que o seguiam, tratava-se da mesma batalha: primeiro contra o colonialismo francês; depois, contra a intervenção norte-americana e o governo de Saigon.
A vitória que ele não viu
Ho Chi Minh morreu em 2 de setembro de 1969, aos 79 anos, em Hanói.
Não chegou a testemunhar o desfecho da guerra que havia ajudado a conduzir por décadas.
Em 1975, seis anos depois de sua morte, as forças norte-vietnamitas e seus aliados derrotaram o governo de Saigon. Em 30 de abril, Saigon caiu. A guerra terminou e o Vietnã seria posteriormente reunificado sob o governo comunista. Os Estados Unidos evacuaram sua embaixada em Saigon em 29 de abril, pouco antes da rendição do governo sul-vietnamita.
Ho Chi Minh, portanto, não venceu sozinho uma guerra contra os Estados Unidos. A vitória foi resultado de uma longa estrutura política, militar e social, construída ao longo de décadas, envolvendo o Partido dos Trabalhadores do Vietnã, o Exército Popular do Vietnã, a guerrilha no Sul e uma ampla mobilização da sociedade vietnamita.
Mas seu papel foi central para transformar a independência nacional em um projeto político capaz de sobreviver a diferentes adversários.
A trajetória é quase cinematográfica.
Aos 21 anos, o futuro líder vietnamita era um jovem cozinheiro que atravessava o Atlântico em um navio francês e acabou desembarcando doente no Rio de Janeiro. Não havia ainda um país independente chamado Vietnã em seu horizonte político imediato — e muito menos um exército capaz de derrotar uma potência colonial.
Pouco mais de quatro décadas depois, o homem que um dia havia chegado ao Rio como trabalhador de um navio liderava o governo de um país que havia derrotado a França.
Quando morreu, em 1969, a guerra contra os Estados Unidos ainda estava em andamento.
Seis anos mais tarde, a bandeira de seu movimento seria hasteada em Saigon.
O jovem que havia deixado a Indochina para descobrir como os grandes impérios funcionavam acabaria dedicando toda a sua vida a provar que eles também podiam ser derrotados.