A ciência encontrou o freio que trava a motivação: e não é a preguiça
A ciência encontrou o freio que trava a motivação: e não é a preguiça
Érika Almeida
Toda pessoa que já adiou uma tarefa importante conhece a cena: a apresentação está marcada, o trabalho precisa ser entregue e, mesmo sabendo da urgência, o corpo simplesmente não se move, mas a cabeça não para de pensar na atividade que a cada minuto vai se atrasando mais.
Um estudo publicado em janeiro de 2026 na revista científica Current Biology, conduzido por pesquisadores da Universidade de Kyoto, oferece uma explicação diferente. Ao mapear a atividade cerebral de macacos diante de tarefas associadas a desconforto, os cientistas identificaram um circuito que funciona como um freio: ele não impede que o cérebro reconheça o valor de uma recompensa, mas bloqueia o primeiro passo quando antecipa sofrimento.
Os pesquisadores treinaram macacos para realizar tarefas em troca de água. Em algumas condições, a recompensa vinha acompanhada de um estímulo desagradável, um jato de ar no rosto. Sempre que esse desconforto estava presente, os animais hesitavam mais ou simplesmente não iniciavam a tarefa, mesmo sabendo que a recompensa era a mesma.
Vale uma ressalva importante: o estudo foi conduzido com dois macacos, um modelo animal. Ele oferece uma base biológica plausível para entender o adiamento diante do desconforto, mas não comprova que toda procrastinação humana tenha essa mesma origem.
E o que o comportamento dos macacos tem de familiar na sua rotina?
Abrir uma planilha complexa, começar uma redação do zero, se preparar para uma conversa difícil: são situações que carregam avaliação, cobrança ou incerteza sobre o resultado. Situações que aumentam o peso emocional de uma tarefa.
Isso tem relação com duas regiões do cérebro, que às vezes disputam espaço. O sistema límbico, responsável por processar as emoções e regular comportamentos instintivos, busca alívio imediato diante de qualquer ameaça, enquanto o córtex pré-frontal, responsável pelas nossas funções executivas, sustenta metas de longo prazo.
Quando uma tarefa complexa aciona desconforto, é comum que uma rede social ou uma tarefa doméstica sem urgência pareça, de repente, muito mais atraente. O alívio é real, mas curto.
Na prática clínica, é comum observar que a resistência a começar algo carrega uma informação, sobre medo de julgamento, expectativas rígidas demais, experiências anteriores de fracasso, entre outros. Calar esse sinal à força tende a gerar exaustão, decisões impulsivas ou até mesmo um novo processo traumático. Por isso, a necessidade de entender e abrir espaço para agir de outro jeito.
Como o bloqueio acontece antes da ação, reduzir o tamanho do primeiro passo costuma ajudar mais do que tentar se convencer a “ter mais disciplina”. Escrever só o título, abrir só a primeira aba da planilha, começar por qualquer parte que exija menos de dois minutos, o objetivo é diminuir a ameaça percebida, não a tarefa inteira, mesmo que o tempo de execução seja muito maior.
Outra medida eficaz é dificultar o acesso às recompensas imediatas que competem com a tarefa: notificações desligadas, celular fora de alcance, aplicativos de distração restritos. Esse pequeno atraso entre o impulso e a ação dá ao córtex pré-frontal (as nossas funções executivas) mais espaço para atuar.
Nenhuma dessas estratégias elimina o desconforto. A ideia é fortalecer que quem deve decidir o caminho é você, e não o seu sintoma.
Sobre Érika Almeida – Psicóloga – CRP 06/144615 (http://www.psibilidades.com.br)
Erika Almeida é psicóloga, neuropsicóloga e palestrante, com ampla experiência em saúde mental, atendimento clínico online para adultos e promoção do bem-estar em ambientes corporativos. Possui graduação em Psicologia pela Universidade Anhembi Morumbi, pós-graduação em Neuropsicologia pelo Instituto Neurológico de São Paulo, e tecnólogo em Gestão de Recursos Humanos pela Universidade Bandeirante de São Paulo. Com especializações em oratória, inteligência emocional e cannabis medicinal, atua em palestras que abordam saúde mental, estresse, síndrome de burnout e inclusão, com o objetivo de promover ambientes mais saudáveis e inclusivos.