Vereador do PL diz que “estudar não deveria ser para todo mundo”
Esquema de corrupção no MEC escondia propina no pneu de caminhonete, diz jornal
Empresário da construção relatou episódio envolvendo pastores evangélicos ao “Estadão”
O ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, demitido pelo presidente Jair Bolsonaro em março, autorizou dois pastores evangélicos negociarem, em troca de propina, contratos de obras federais de escolas. O dinheiro do acordo, de R$ 5 milhões, seria escondido na roda de uma caminhonete, segundo relatou um empresário do setor da construção civil ao jornal “O Estado de S. Paulo”.
O empresário Ailson Souto da Trindade relatou à publicação que a propina seria levada de Belém (PA) a Goiânia (GO), onde fica a sede da igreja dos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura.
Santos e Moura são os pastores que, também segundo revelou o “Estado”, em março, comandavam um tipo de gabinete paralelo no Ministério da Educação durante a gestão de Milton Ribeiro, mesmo sem ocuparem cargos oficiais na pasta. Prefeitos disseram à época receber cobrança de propina para que os pastores agilizassem a liberação de recursos federais.
Em uma gravação obtida pelo jornal “Folha de S.Paulo”, Ribeiro dizia que pedidos negociados pelos pastores tinham prioridade, em atendimento a uma solicitação do presidente Jair Bolsonaro.
As suspeitas levaram à saída de Ribeiro do MEC. O ex-ministro negava ter envolvimento com irregularidades e o caso motivou a abertura de inquérito, que tramita sob sigilo no Supremo Tribunal Federal (STF).
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Presidente Bolsonaro com o então ministro da Educação, Milton Ribeiro — Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo
De acordo com a reportagem desta quinta-feira publicada pelo “Estado”, o empresário que relata a propina escondida num pneu é a 12ª pessoa a detalhar o esquema de corrupção no MEC.
“Funcionou assim: o ministro fez uma reunião com todos os prefeitos (no prédio do MEC, dia 13 de janeiro de 2021). Depois houve o coquetel, num andar mais acima. Lá, a gente conversou, teve essa conversa com o ministro. Eu não sabia nem quem era o ministro. Ele se apresentou: ‘Eu sou Milton, o ministro da Educação, e o Gilmar já me passou o que ele propôs para você e eu preciso colocar a tua empresa para ganhar licitações, para facilitar as licitações. Em troca você ajuda a igreja. O pastor Gilmar vai conversar com você em relação a tudo isso’, disse o empresário à publicação.
Trindade atualmente é candidato a deputado federal pelo Pará e responde a crime de estelionato. As datas dos encontros que ele diz ter participado coincidem com registros oficiais do MEC da agenda de Milton Ribeiro.
A reportagem teve acesso a uma proposta de contrato, fictício, entre a empresa dele e a igreja dos pastores por meio do qual a propina seria disfarçada. “‘A gente faz um contrato, entendeu? Faz o contrato com a empresa, a igreja contrata a tua empresa e eu consigo articular para tua empresa fazer as obras do governo federal’”, teria ouvido o empresário.
Ainda de acordo com a versão dele, os R$ 5 milhões eram referentes à primeira parcela do acordo. “Eles queriam que eu colocasse no pneu de uma caminhonete e mandasse para lá. Eu disse: ‘não, gente, vamos fazer em conta porque como é que eu vou saber… se não der certo, como vou provar que eu paguei?’ Aí eu fiquei com medo desse tipo de negociata. Daí queriam R$ 5 milhões logo e depois de 15 dias queriam mais R$ 50 milhões”, afirmou.
À reportagem, Souto disse que resolveu relatar os pedidos de propina em razão de intimidações e ameaças de ex-aliados. Ele não relatou nomes.