{"id":130839,"date":"2026-10-01T01:00:38","date_gmt":"2026-10-01T04:00:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=130839"},"modified":"2026-10-01T01:00:38","modified_gmt":"2026-10-01T04:00:38","slug":"no-olhar-do-passado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2026\/10\/01\/no-olhar-do-passado\/","title":{"rendered":"No olhar do passado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Fico aqui olhando cabreiro essas campanhas eleitorais, como um matuto sertanejo desconfiado e calejado de tanto apanhar na vida, e tudo me faz voltar ao passado hist\u00f3rico de um Brasil arcaico e que ainda continua atrasado, num rumo incerto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Para alguns, n\u00e3o adianta muito olhar para tr\u00e1s sen\u00e3o o sujeito vira uma pedra de sal, se temos que nos agarrar \u00e0 sobreviv\u00eancia do dia a dia, \u00e0 luta renhida para garantir a vida nesse bruto sistema! \u201cCada um por si e Deus por todos n\u00f3s\u201d.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Revisito tamb\u00e9m minha vida desde aqueles tempos de menino na \u00e1rdua labuta da ro\u00e7a, as primeiras letras do b\u00ea-\u00e1-b\u00e1, com cenas marcantes que se fixaram para sempre em meu subconsciente, como o desespero de encontrar aqueles trocados tost\u00f5es perdidos no areal calorento dos tropeiros mercantes.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0Eram uns simples trocados de umas pequenas compras na venda do vizinho (farinha, sal, feij\u00e3o e a\u00e7\u00facar), mas que faziam grande falta, como ainda at\u00e9 hoje. Traquinagens de crian\u00e7as que meu pai punia no cinto do couro cru. Hoje os pais n\u00e3o ralham mais com os filhos porque n\u00e3o t\u00eam mais tempo para isso e se entret\u00eam com o celular ou com seu cachorro de estima\u00e7\u00e3o como se fosse do seu mesmo sangue.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00c9pocas duras, carrancudas e dif\u00edceis e que n\u00e3o mudaram muito, meu camarada! De tantas amarrotadas pelo sol escaldante deste sert\u00e3o profundo, apenas foram repintadas com outras cores das ilus\u00f5es. Acreditamos que elas v\u00e3o nos dar sustan\u00e7a e recarregar nossas esperan\u00e7as e energias combalidas.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0Nascemos com o medo e ele est\u00e1 sempre nos acompanhando. Temos medo do que ser\u00e1, do que vir\u00e1 nesse futuro pr\u00f3ximo duvidoso de tanta ebuli\u00e7\u00e3o na humanidade desumanizada, das cat\u00e1strofes do aquecimento global e das elei\u00e7\u00f5es, que at\u00e9 esquecemos do carrasco da morte batendo de supet\u00e3o em nossas portas.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0Ainda ou\u00e7o gritos estridentes de seus mandat\u00e1rios colonizadores do poder, tanto de um lado como do outro, dando ordens aos seus escravos e s\u00faditos, como donos das extensas sesmarias, ainda apinhadas de \u00edndios que foram barbaramente massacrados.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Veio o Senhor Imp\u00e9rio do monarca absoluto com sua nobreza de elites, seguindo o mesmo roj\u00e3o no tocar da tropa estropiada de tanta carga pesada sobre o lombo. As masmorras e os troncos para aqueles que contestavam suas arbitrariedades.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0Depois nasceu um novo raiar do dia avermelhado cheio de tons no dorso de um cavalo malhado para anunciar a chegada deslumbrante de uma Senhora sorridente chamada de Rep\u00fablica, prometendo aliviar os gemidos dos doentes das injusti\u00e7as e at\u00e9 curar as feridas abertas na fraca carne dos esquecidos e abandonados pelos tiranos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0Ap\u00f3s um olhar mais capcioso e atento, vimos que na garupa do belo animal de ra\u00e7a desta Senhora da esperan\u00e7a l\u00e1 estava uma outra dama presun\u00e7osa de nome oligarquia trazendo consigo o ferro de ferrar o gado que apenas havia mudado de pasto, mas os donos eram os mesmos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0Os propriet\u00e1rios dessa burguesia s\u00f3 mudaram seus m\u00e9todos, de acordo com o tempo. Eram ainda mais astutos, brutais, sagazes, luxuriosos, gulosos, avarentos e com mais gan\u00e2ncia, apetite e ambi\u00e7\u00e3o, do tipo do querer mais e mais para empanturrar suas pan\u00e7as gordas cheias de tripas grossas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Mais mentes malignas e mais ingredientes em seus intestinos de \u00a0 merdas para cagar em nossos peda\u00e7os mirrados de ch\u00e3o ou nossos quintais maltratados onde at\u00e9 o orvalho do amanhecer foi ficando cada vez mais seco e escasso. Cad\u00ea as flores do nosso jardim? O que fizeram delas? Arrancaram at\u00e9 os nossos sonhos e jogaram no monturo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0Como consequ\u00eancia, o ambiente ficou fedorento, de odor insuport\u00e1vel, mas fomos nos acostumando ao ponto de n\u00e3o sentirmos mais nada, nem raiva, nem indigna\u00e7\u00e3o e dor de cabe\u00e7a. O pr\u00f3prio organismo foi se adaptando ao ambiente dos esgotos a c\u00e9u aberto. Nos criamos sendo produtos do pr\u00f3prio meio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Nos intervalos desses Senhores e dessa Senhora, com suas botas de chumbo nos esmagaram com suas opress\u00f5es, ditaduras, torturas e mortes. Rasparam praticamente nossos pratos da liberdade; nos deixaram fam\u00e9licos; e roubaram nossos maiores bens que foram a educa\u00e7\u00e3o, a cultura, o conhecimento e o saber.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0Oh quanta melancolia! Ainda vivemos e nos alimentamos do sabugo do milho, raspando os \u00faltimos farelos do tacho. Dos seus banquetes, sentada na cabeceira da mesa, ainda est\u00e1 l\u00e1 aquela Senhora, outrora elegante que h\u00e1 muitos anos apareceu em seu cavalo galopante.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0Hoje, esta dita Senhora se encontra obesa, troncha, manca, feiosa, toda enrugada, ranzinza e malvada, prostrada em sua surrada poltrona, confabulando e tramando entre seus pares Senhores como usurpar nossas riquezas e surrupiar o pouco que temos. Ela nos afian\u00e7ou que era coisa p\u00fablica, mas sempre foi privada.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Como ato de sarcasmo e sadismo, cada um comendo como b\u00e1rbaros, eles jogam as migalhas para a plebe como forma de divers\u00e3o e apreciam em gargalhadas a disputa acirrada pelos restos ou sobras, na maioria ossos e cartilagens.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0Oh elei\u00e7\u00e3o, filhota bastarda daquela Senhora, de olhar vesgo e trai\u00e7oeiro, que nos faz voltar ao passado, refletir o presente e buscar o futuro perdido no horizonte! Todas as vezes que aparece em sua janela, nos faz acreditar nas mudan\u00e7as e em dias melhores para os desamparados e desvalidos.\u00a0 <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fico aqui olhando cabreiro essas campanhas eleitorais, como um matuto sertanejo desconfiado e calejado de tanto apanhar na vida, e tudo me faz voltar ao passado hist\u00f3rico de um Brasil arcaico e que ainda continua atrasado, num rumo incerto. 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