{"id":130604,"date":"2026-09-04T20:20:58","date_gmt":"2026-09-04T23:20:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=130604"},"modified":"2026-09-04T20:20:58","modified_gmt":"2026-09-04T23:20:58","slug":"nas-rodovias-do-futuro-o-ativo-mais-valioso-nao-sera-o-asfalto-mas-a-ia-mais-precisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2026\/09\/04\/nas-rodovias-do-futuro-o-ativo-mais-valioso-nao-sera-o-asfalto-mas-a-ia-mais-precisa\/","title":{"rendered":"Nas rodovias do futuro, o ativo mais valioso n\u00e3o ser\u00e1 o asfalto, mas a IA mais precisa"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Avan\u00e7o do Free Flow deve provocar uma nova corrida entre as concess\u00f5es: a disputa pela IA capaz de cobrar corretamente e conquistar a confian\u00e7a do usu\u00e1rio.<\/strong><br \/>\nDurante mais de tr\u00eas d\u00e9cadas desenvolvendo tecnologias para infraestrutura, aprendi uma li\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m conheci na ind\u00fastria aeron\u00e1utica: quando uma inova\u00e7\u00e3o muda completamente a forma como as pessoas interagem com um sistema, o maior desafio raramente est\u00e1 na tecnologia. Est\u00e1 na confian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi assim quando participei do desenvolvimento de sistemas embarcados para aeronaves militares. Um piloto jamais questiona apenas se um equipamento funciona. Ele precisa confiar que funcionar\u00e1 corretamente sob qualquer condi\u00e7\u00e3o. Nas rodovias, come\u00e7a a acontecer exatamente o mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa discuss\u00e3o ganha ainda mais relev\u00e2ncia porque o Brasil atravessa o maior ciclo de investimentos em concess\u00f5es rodovi\u00e1rias da sua hist\u00f3ria. Segundo o Minist\u00e9rio dos Transportes, cerca de R$ 150 bilh\u00f5es devem ser investidos pela iniciativa privada at\u00e9 o fim de 2026, enquanto uma carteira ainda mais ampla prev\u00ea centenas de bilh\u00f5es de reais em novos projetos para modernizar a infraestrutura vi\u00e1ria do pa\u00eds. E, mais do que ampliar a malha concedida, essa nova gera\u00e7\u00e3o de contratos incorpora tecnologias que, at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, eram vistas apenas como tend\u00eancia. O Free Flow \u00e9 uma delas.<\/p>\n<p>Existe, por\u00e9m, uma mudan\u00e7a silenciosa por tr\u00e1s desse movimento. Pela primeira vez, a qualidade de uma rodovia deixar\u00e1 de ser medida apenas por quil\u00f4metros duplicados, pontes ou viadutos constru\u00eddos. Ela tamb\u00e9m passar\u00e1 a ser avaliada pela intelig\u00eancia embarcada capaz de operar essa infraestrutura. Em outras palavras, o ativo mais valioso das futuras concess\u00f5es talvez n\u00e3o esteja no concreto, mas nos algoritmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos anos, o Free Flow se tornou um dos principais s\u00edmbolos da moderniza\u00e7\u00e3o da infraestrutura rodovi\u00e1ria brasileira. O debate p\u00fablico, no entanto, tomou outro rumo no in\u00edcio da implanta\u00e7\u00e3o, com boa parte das discuss\u00f5es concentrada nas multas, nas formas de pagamento, nas cobran\u00e7as posteriores e na dificuldade que muitos motoristas encontraram para entender como o novo sistema funciona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhuma inova\u00e7\u00e3o conquista a confian\u00e7a das pessoas quando exige m\u00faltiplos aplicativos, diferentes meios de pagamento, pouca integra\u00e7\u00e3o entre sistemas e comunica\u00e7\u00e3o insuficiente sobre algo que, por defini\u00e7\u00e3o, deixou de ser f\u00edsico.<\/p>\n<p>Quando existia uma cancela, o motorista enxergava o momento da cobran\u00e7a. No Free Flow, a confian\u00e7a deixa de estar na estrutura e passa a depender integralmente da intelig\u00eancia que opera por tr\u00e1s dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema, ent\u00e3o, nunca esteve no conceito do Free Flow. O que ainda est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o \u00e9 a experi\u00eancia digital que sustenta esse novo modelo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, \u00e0 medida que o pa\u00eds avan\u00e7a na implanta\u00e7\u00e3o do Free Flow e novos contratos de concess\u00e3o passam a incorporar essa IA, uma nova corrida ganha for\u00e7a. E desta vez ela n\u00e3o acontecer\u00e1 na instala\u00e7\u00e3o dos p\u00f3rticos, mas dentro dos algoritmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E isso exige mais do que tecnologia embarcada. Exige integra\u00e7\u00e3o entre concession\u00e1rias, \u00f3rg\u00e3os reguladores e diferentes meios de pagamento. O sucesso do Free Flow no Brasil depender\u00e1 tanto da capacidade de construir um ecossistema digital simples, transparente e interoper\u00e1vel para o usu\u00e1rio quanto da qualidade das IAs em opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e1 pr\u00e9-requisito para todas as concess\u00f5es possuir uma intelig\u00eancia artificial robusta, bem testada e capaz de interpretar corretamente situa\u00e7\u00f5es extremamente complexas do tr\u00e1fego brasileiro. E essa n\u00e3o \u00e9 uma tarefa trivial dentro do mercado atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As rodovias nacionais re\u00fanem caracter\u00edsticas muito diferentes daquelas encontradas em pa\u00edses onde boa parte dessas solu\u00e7\u00f5es nasceu. Temos uma frota altamente diversificada, grande participa\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos comerciais, caminh\u00f5es com m\u00faltiplas configura\u00e7\u00f5es de eixos, placas desgastadas, condi\u00e7\u00f5es severas de luminosidade, chuvas intensas, neblina, diferen\u00e7as regionais e uma enorme variedade operacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse ambiente, identificar corretamente um ve\u00edculo vai muito al\u00e9m da leitura da placa. Os sistemas mais avan\u00e7ados j\u00e1 analisam simultaneamente at\u00e9 centenas de caracter\u00edsticas f\u00edsicas e comportamentais para construir uma identidade digital \u00fanica de cada ve\u00edculo. Cor, volumetria, quantidade de eixos, dist\u00e2ncia entre eles, dimens\u00f5es, modelo, hist\u00f3rico de circula\u00e7\u00e3o, frequ\u00eancia de passagem e in\u00fameras outras vari\u00e1veis passam a compor essa identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto maior a capacidade de interpretar esse contexto, menor o risco de erro. E isso \u00e9 algo que far\u00e1 toda a diferen\u00e7a, porque o usu\u00e1rio n\u00e3o avalia um algoritmo. Ele avalia a cobran\u00e7a. E uma \u00fanica cobran\u00e7a indevida pode comprometer a confian\u00e7a constru\u00edda durante milhares de transa\u00e7\u00f5es corretas, al\u00e9m da previs\u00e3o de multa de valor significativo \u00e0 concess\u00e3o por cobran\u00e7a indevida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, acredito que a palavra mais importante do Free Flow nos pr\u00f3ximos anos ser\u00e1 acur\u00e1cia. A precis\u00e3o deixar\u00e1 de ser apenas um indicador t\u00e9cnico para se tornar um ativo estrat\u00e9gico das concess\u00f5es rodovi\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 a acur\u00e1cia elevada ser\u00e1 capaz de reduzir custos operacionais, diminuir revis\u00f5es manuais, judicializa\u00e7\u00f5es, melhorar a experi\u00eancia do usu\u00e1rio e fortalecer a credibilidade do sistema como um todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe ainda outro aspecto que, a meu ver, ganhar\u00e1 import\u00e2ncia crescente. Durante muitos anos, houve uma ideia de que tecnologias sofisticadas para infraestrutura precisariam necessariamente ser importadas. No entanto, quando falamos de intelig\u00eancia artificial, os dados utilizados para treinar um sistema fazem enorme diferen\u00e7a. Uma IA desenvolvida nacionalmente e para a realidade brasileira tende a compreender muito melhor as situa\u00e7\u00f5es que fazem parte da nossa realidade cotidiana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela aprende com os caminh\u00f5es que circulam aqui, com nossas condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, com nossas configura\u00e7\u00f5es de eixos, com nossa din\u00e2mica operacional. Isso n\u00e3o significa apenas produzir tecnologia no Brasil. Significa desenvolver intelig\u00eancia adaptada ao Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos pr\u00f3ximos anos, dificilmente um motorista perguntar\u00e1 qual empresa instalou determinado p\u00f3rtico de Free Flow. A pergunta ser\u00e1 muito mais simples: posso confiar nesta cobran\u00e7a? Quem responder melhor a essa pergunta n\u00e3o liderar\u00e1 apenas o mercado de ped\u00e1gios. Liderar\u00e1 a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o da infraestrutura rodovi\u00e1ria no Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Ailton Queiroga<\/em><\/strong><em>\u00a0\u00e9 engenheiro, presidente da COMPSIS e uma das refer\u00eancias brasileiras em tecnologias para infraestrutura rodovi\u00e1ria. Na Embraer, participou do desenvolvimento de sistemas embarcados para aeronaves militares italianas, experi\u00eancia que levou para a cria\u00e7\u00e3o de tecnologias de alta precis\u00e3o e intelig\u00eancia artificial voltadas \u00e0s rodovias. H\u00e1 mais de 35 anos atua no setor de infraestrutura e mobilidade e foi um dos pioneiros na implanta\u00e7\u00e3o internacional de sistemas Free Flow, participando, ainda nos anos 2000, de projeto em Sidney, na Austr\u00e1lia, antes mesmo de o modelo chegar ao Brasil.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Avan\u00e7o do Free Flow deve provocar uma nova corrida entre as concess\u00f5es: a disputa pela IA capaz de cobrar corretamente e conquistar a confian\u00e7a do usu\u00e1rio. 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