{"id":130469,"date":"2026-08-23T14:00:45","date_gmt":"2026-08-23T17:00:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=130469"},"modified":"2026-08-23T14:00:45","modified_gmt":"2026-08-23T17:00:45","slug":"artigo-ensaio-os-autocratas-a-banalidade-do-mal-e-a-necropolitica-do-seculo-xxi-crise-hegemonica-neoliberalismo-canibal-e-a-erosao-das-democracias-globais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2026\/08\/23\/artigo-ensaio-os-autocratas-a-banalidade-do-mal-e-a-necropolitica-do-seculo-xxi-crise-hegemonica-neoliberalismo-canibal-e-a-erosao-das-democracias-globais\/","title":{"rendered":"Artigo ensaio: os autocratas, a banalidade do mal e a necropolitica do s\u00e9culo XXI: crise hegem\u00f4nica, neoliberalismo canibal, e a eros\u00e3o das democracias globais"},"content":{"rendered":"<p><strong><em><b>(Prof. DsC. Dirlei A. Bonfim).*<\/b><\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em><b>RESUMO<\/b><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>O presente ensaio cr\u00edtico-reflexivo investiga a converg\u00eancia entre a crise estrutural do capitalismo<\/em><\/strong>\u00a0<strong><em>contempor\u00e2neo, a ascens\u00e3o do neofascismo e as transforma\u00e7\u00f5es nos mecanismos de domina\u00e7\u00e3o e<\/em><\/strong>\u00a0aniquila\u00e7\u00e3o social no s\u00e9culo XXI. A partir do di\u00e1logo interdisciplinar entre a teoria pol\u00edtica, a filosofia moral e a sociologia cr\u00edtica, articulam-se os conceitos seminais de banalidade do mal (Hannah Arendt), racionalidade <strong><em>instrumental e barb\u00e1rie (Zygmunt Bauman), biopol\u00edtica e necropol\u00edtica (Michel Foucault; Achille <\/em><\/strong><strong>Mbembe), capitalismo canibal (Nancy Fraser) e psicopol\u00edtica digital (Byung-Chul Han; Shoshana Zuboff).<\/strong>\u00a0Analisa-se como o esgotamento do pacto liberal e a intensifica\u00e7\u00e3o da concentra\u00e7\u00e3o de renda produzem uma subjetividade reativa e ressentida, catalisada por l\u00edderes autocratas e oligarquias financeiras. Conclui-se que o enfrentamento dessa trag\u00e9dia civilizat\u00f3ria exige a recomposi\u00e7\u00e3o do tecido democr\u00e1tico substantivo, a regula\u00e7\u00e3o da infraestrutura algor\u00edtmica e a supera\u00e7\u00e3o das din\u00e2micas predat\u00f3rias do <strong><em>neoliberalismo. Al\u00e9m do adensamento do processo \u00e9tico, educacional e da consci\u00eancia cr\u00edtica da sociedade humana, sobre si mesma e para al\u00e9m dos processos alienat\u00f3rios cotidianos.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><b>Palavras-chave:<\/b><\/strong>\u00a0Banalidade do Mal. Neofascismo. Necropol\u00edtica. Capitalismo Canibal. Autocracia. Democracia.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li><strong><em><b> INTRODU\u00c7\u00c3O: A TRAG\u00c9DIA ANUNCIADA E A FRATURA DA ORDEM LIBERAL<\/b><\/em><\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>O alvorecer da terceira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI n\u00e3o consagra o fim da hist\u00f3ria proclamado pelo triunfalismo liberal do p\u00f3s-Guerra Fria; ao contr\u00e1rio, desvela uma era de convuls\u00f5es sist\u00eamicas, marcada<\/em><\/strong>\u00a0<strong><em>pela exacerba\u00e7\u00e3o de impulsos autocr\u00e1ticos,<\/em><\/strong>\u00a0pelo colapso das media\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas institucionais e pela reemerg\u00eancia virulenta de ret\u00f3ricas neofascistas e neonazistas em escala planet\u00e1ria. Longe de constituir um desvio acidental ou um anacronismo passageiro, a ascens\u00e3o da extrema-direita global opera como sintoma manifesto de uma fratura org\u00e2nica nas estruturas do capitalismo financeirizado e globalizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Nesse cen\u00e1rio de policrise \u2014 que entrela\u00e7a desregula\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica predat\u00f3ria, emerg\u00eancia clim\u00e1tica,<\/em><\/strong>\u00a0precariza\u00e7\u00e3o do mundo do trabalho e esfacelamento dos la\u00e7os de solidariedade social \u2014, testemunha-se a normaliza\u00e7\u00e3o de discursos de \u00f3dio, a eros\u00e3o de garantias constitucionais basilares e a difus\u00e3o generalizada de uma postura de indiferen\u00e7a \u00e9tica. O que se desenha n\u00e3o \u00e9 apenas uma crise de governabilidade conjuntural, mas uma encruzilhada civilizat\u00f3ria em que as conquistas democr\u00e1ticas e os direitos fundamentais s\u00e3o subordinados \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o desmedida e \u00e0 gest\u00e3o sacrificial da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Para decifrar a anatomia dessa trag\u00e9dia anunciada, faz-se indispens\u00e1vel mobilizar um referencial te\u00f3rico<\/em><\/strong>\u00a0capaz de articular a microf\u00edsica das atitudes cotidianas \u00e0s engrenagens macroecon\u00f4micas e geopol\u00edticas. O presente ensaio debru\u00e7a-se sobre essa problem\u00e1tica articulando as formula\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas e contempor\u00e2neas sobre o totalitarismo, a burocratiza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, a necropol\u00edtica de Estado, a espolia\u00e7\u00e3o socioecol\u00f3gica e a media\u00e7\u00e3o psicopol\u00edtica digital, delineando caminhos cr\u00edticos para a resist\u00eancia \u00e9tico-pol\u00edtica.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li style=\"text-align: justify;\"><strong><em><b> A ARQUITETURA CONCEITUAL DO MAL MODERNO: DE ARENDT E BAUMAN \u00c0 NECROPOL\u00cdTICA DE MBEMBE<\/b><\/em><\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>A elucida\u00e7\u00e3o dos mecanismos pelos quais regimes e lideran\u00e7as autocr\u00e1ticas conquistam ades\u00e3o social<\/em><\/strong>\u00a0repousa, primordialmente, na desconstru\u00e7\u00e3o da natureza do mal na modernidade. Ao cobrir o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusal\u00e9m, Hannah Arendt (1999) subverteu a concep\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica e metaf\u00edsica do mal demon\u00edaco ao formular a tese da <strong><b>banalidade do mal<\/b><\/strong>. Arendt demonstrou que as maiores atrocidades da hist\u00f3ria humana n\u00e3o demandam, necessariamente, monstros s\u00e1dicos ou psicopatas fan\u00e1ticos em sua execu\u00e7\u00e3o cotidiana; exigem, sim, burocratas zelosos e cidad\u00e3os comuns que abdicaram da faculdade do pensamento cr\u00edtico (<em><i>thinking<\/i><\/em>), limitando-se a cumprir ordens, reproduzir clich\u00eas e ignorar as consequ\u00eancias morais e humanas de suas a\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>O problema com Eichmann era exatamente que muitos eram como ele, e muitos n\u00e3o eram nem pervertidos<\/em><\/strong>\u00a0nem s\u00e1dicos, mas eram, e continuam a ser, terr\u00edvel e assustadoramente normais. Do ponto de vista de nossas institui\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas e de nossos padr\u00f5es de julgamento moral, essa normalidade era muito mais aterrorizante que todas as atrocidades postas juntas, pois implicava [&#8230;] que esse novo tipo de criminoso [&#8230;] comete seus crimes em circunst\u00e2ncias que tornam quase imposs\u00edvel para ele saber ou sentir <strong><em>que est\u00e1 agindo de maneira errada (ARENDT, 1999, p. 299). Essa incapacidade de pensar a partir da perspectiva do Outro encontra terreno f\u00e9rtil na racionalidade<\/em><\/strong>\u00a0burocr\u00e1tica moderna. Conforme demonstrou Zygmunt Bauman (1998) em <em><i>Modernidade e Holocausto<\/i><\/em>, o exterm\u00ednio sistem\u00e1tico n\u00e3o representou uma ruptura irracional com a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, mas o \u00e1pice da racionalidade instrumental e da divis\u00e3o t\u00e9cnica do trabalho, que despersonalizam a v\u00edtima e isolam o executor de qualquer responsabilidade \u00e9tica. A tecnologia e a fragmenta\u00e7\u00e3o administrativa operam como blindagens morais, convertendo vidas humanas em dados estat\u00edsticos descart\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>No s\u00e9culo XXI, essa din\u00e2mica de descarte biol\u00f3gico atinge sua formula\u00e7\u00e3o mais contundente no conceito<\/em><\/strong>\u00a0de <strong><b>necropol\u00edtica<\/b><\/strong>, cunhado pelo fil\u00f3sofo camaron\u00eas Achille Mbembe (2018). Desdobrando as investiga\u00e7\u00f5es de Michel Foucault (2005) sobre a biopol\u00edtica \u2014 o poder soberano exercido como regula\u00e7\u00e3o da vida (&#8220;fazer viver e deixar morrer&#8221;) \u2014, Mbembe evidencia que a soberania contempor\u00e2nea reside <strong><em>fundamentalmente no &#8220;poder de ditar quem pode viver e quem deve morrer&#8221; (MBEMBE, 2018, p. 123). Nas periferias do Sul Global, nas fronteiras militarizadas e nas zonas de exce\u00e7\u00e3o urbana, o Estado e <\/em><\/strong><em>for\u00e7as<\/em>\u00a0paramilitares operam sob a l\u00f3gica da elimina\u00e7\u00e3o material e simb\u00f3lica de corpos racializados e empobrecidos, tratados como &#8220;excedente populacional&#8221; sem valor de mercado. A banalidade do mal contempor\u00e2nea transmuda-se em necropol\u00edtica institucionalizada.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong><em><b> O CAPITALISMO CANIBAL E A HIPERCONCENTRA\u00c7\u00c3O DE RENDA: O NEOLIBERALISMO EM GUERRA CONTRA A VIDA<\/b><\/em><\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>A normaliza\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie n\u00e3o ocorre no v\u00e1cuo ideol\u00f3gico; ela \u00e9 a express\u00e3o necess\u00e1ria de um arranjo<\/em><\/strong>\u00a0econ\u00f4mico que atenta contra a pr\u00f3pria base reprodutiva da exist\u00eancia humana e n\u00e3o humana. A <strong><em>te\u00f3rica cr\u00edtica Nancy Fraser (2024), ao cunhar o conceito de <\/em><\/strong><strong><em><b>Capitalismo Canibal<\/b><\/em><\/strong><strong><em>, diagnostica que a<\/em><\/strong>\u00a0acumula\u00e7\u00e3o de capital no est\u00e1gio neoliberal tornou-se predat\u00f3ria de suas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de possibilidade:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><u>CAPITALISMO CANIBAL<\/u><\/strong><\/p>\n<p><strong><u>(Nancy Fraser)<\/u><\/strong><\/p>\n<p><strong>Canibaliza\u00e7\u00e3o do Capital Neoliberal<\/strong><\/p>\n<p><strong><u>REPRODU\u00c7\u00c3O \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0ECOLOGIA &amp; \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0SOBERANIA \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/u><\/strong><\/p>\n<p><strong>SOCIAL &amp; \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0NATUREZA N\u00c3O \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0POL\u00cdTICA &amp; \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>CUIDADO \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0HUMANA \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0DEMOCRACIA \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0(Trabalho) \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0(Extrativismo) \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0(Subordina\u00e7\u00e3o) \u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong> <strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0(Invisibilizado) \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0(predat\u00f3rio) \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0(aos mercados) \u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Fraser (2024) argumenta que o capital n\u00e3o se limita a explorar o trabalho assalariado fabril (como<\/em><\/strong>\u00a0na leitura marxiana cl\u00e1ssica), mas &#8220;devora&#8221; vorazmente:<\/p>\n<ol>\n<li><b><\/b><strong><b>A Reprodu\u00e7\u00e3o Social:<\/b><\/strong>A mercantiliza\u00e7\u00e3o precariza as redes de cuidado, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e assist\u00eancia familiar;<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><b><\/b><strong><b>A Ecologia Planet\u00e1ria:<\/b><\/strong>O extrativismo f\u00f3ssil e predat\u00f3rio rompe os equil\u00edbrios metab\u00f3licos da biosfera;<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><b><\/b><strong><b>O Poder P\u00fablico Democr\u00e1tico:<\/b><\/strong>As institui\u00e7\u00f5es estatais s\u00e3o esvaziadas e subordinadas aos ditames do capital financeiro internacional.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>O resultado emp\u00edrico desse modelo \u00e9 uma assimetria socioecon\u00f4mica sem precedentes hist\u00f3ricos. Como<\/em><\/strong>\u00a0evidenciam sucessivos relat\u00f3rios globais de distribui\u00e7\u00e3o de riqueza (OXFAM, 2024; PIKETTY, 2014), a riqueza detida pelo restrito grupo dos maiores bilion\u00e1rios supera o patrim\u00f4nio somado de mais da metade <strong><em>da popula\u00e7\u00e3o global \u2014 cerca de 5 bilh\u00f5es de seres humanos expostos \u00e0 vulnerabilidade extrema. Nem<\/em><\/strong>\u00a0<strong><em>mesmo Karl Marx (2013), em suas formula\u00e7\u00f5es sobre a lei geral da acumula\u00e7\u00e3o capitalista, anteviu<\/em><\/strong><strong>\u00a0uma<\/strong>\u00a0taxa de extra\u00e7\u00e3o e polariza\u00e7\u00e3o t\u00e3o desmedida em escala planet\u00e1ria. <strong><em>No cora\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio norte-americano e nas pot\u00eancias do Atl\u00e2ntico Norte, essa engrenagem de espolia\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong>\u00a0interna e externa \u2014 exacerbada por pol\u00edticas tarif\u00e1rias protecionistas agressivas, guerra comercial e unilateralismo coercitivo de lideran\u00e7as reacion\u00e1rias \u2014 desmontou a rede de bem-estar social, endividou a classe trabalhadora e empurrou as classes m\u00e9dias precarizadas para o desespero existencial e para o niilismo pol\u00edtico.<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><strong><em><b> A MORTE DA DEMOCRACIA E O RESURGIMENTO DA EST\u00daPIDA EXTREMA-DIREITA GLOBAL<\/b><\/em><\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>A desagrega\u00e7\u00e3o das bases materiais de subsist\u00eancia preparou o solo sociol\u00f3gico para a eros\u00e3o das<\/em><\/strong>\u00a0democracias liberais representativas. Como diagnosticam Steven Levitsky e Daniel Ziblatt (2018) em <em><i>Como <\/i><\/em><strong><em><i>as Democracias Morrem<\/i><\/em><\/strong><strong><em>, as rupturas democr\u00e1ticas contempor\u00e2neas n\u00e3o decorrem precipuamente de<\/em><\/strong>\u00a0pronunciamentos militares cl\u00e1ssicos com tanques nas ruas, mas de um processo paulatino de degenera\u00e7\u00e3o por vias institucionais e eleitorais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>L\u00edderes autocr\u00e1ticos s\u00e3o eleitos pelas urnas e, progressivamente, utilizam as pr\u00f3prias<\/em><\/strong><strong>\u00a0<\/strong><strong><em>prerrogativas da legalidade para desmantelar os freios e contrapesos do Estado de Direito<\/em><\/strong>\u00a0(<em><i>institutional forbearance<\/i><\/em>), aparelhando cortes judiciais, deslegitimando o sistema eleitoral, atacando a imprensa profissional e demonizando advers\u00e1rios pol\u00edticos como traidores da p\u00e1tria:<\/p>\n<p><strong><em><u>RUPTURA CL\u00c1SSICA (S\u00e9culo XX) \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0EROS\u00c3O CONTEMPOR\u00c2NEA (S\u00e9culo XXI)<\/u><\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0\u00a0Golpe de Estado \/ Tanques nas ruas \u00a0\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>\u2794<\/em><\/strong><strong><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Elei\u00e7\u00e3o formal de autocratas<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0\u00a0Fechamento do Parlamento \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>\u2794<\/em><\/strong><strong><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Destrui\u00e7\u00e3o paulatina de freios institucionais<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0\u00a0Censura direta aos jornais \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>\u2794<\/em><\/strong><strong><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Guerra de desinforma\u00e7\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o judicial<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>No entanto, essa autocratiza\u00e7\u00e3o s\u00f3 se sustenta pela mobiliza\u00e7\u00e3o e canaliza\u00e7\u00e3o do ressentimento social. Conforme adverte o historiador Yuval Noah Harari (2016, 2018), a revolu\u00e7\u00e3o das tecnologias de<\/em><\/strong>\u00a0intelig\u00eancia artificial e a automa\u00e7\u00e3o do trabalho geram o risco de constituir uma vasta &#8220;classe de in\u00fateis&#8221; sob a \u00f3tica da valoriza\u00e7\u00e3o do capital. Quando amplos contingentes populacionais percebem que o sistema pol\u00edtico tradicional n\u00e3o oferece respostas substantivas \u00e0s suas afli\u00e7\u00f5es materiais, a extrema-direita global mobiliza a gram\u00e1tica do neofascismo e do nacionalismo xen\u00f3fobo: elegem-se bodes expiat\u00f3rios convenientes \u2014 imigrantes, minorias \u00e9tnicas, movimentos feministas, popula\u00e7\u00f5es LGBTQIA+ e povos origin\u00e1rios \u2014 para desviar o foco da concentra\u00e7\u00e3o olig\u00e1rquica de renda. <strong><em>Na esteira de Chantal Mouffe (2015), o consenso tecnocr\u00e1tico neoliberal esvaziou a pol\u00edtica de seu conflito<\/em><\/strong>\u00a0leg\u00edtimo distributivo, transformando elei\u00e7\u00f5es em altern\u00e2ncias gerenciais sem alternativa de modelo econ\u00f4mico. Esse v\u00e1cuo da soberania popular abriu caminho para o &#8220;populismo de extrema-direita&#8221;, que substitui o agonismo democr\u00e1tico por um antagonismo moral belicista e excludente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li><strong><em><b> A INFRAESTRUTURA DIGITAL DO \u00d3DIO: PSICOPOL\u00cdTICA E CAPITALISMO DE VIGIL\u00c2NCIA<\/b><\/em><\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>A acelera\u00e7\u00e3o e efic\u00e1cia dessa autocracia contempor\u00e2nea seriam invi\u00e1veis sem a muta\u00e7\u00e3o das tecnologias<\/em><\/strong>\u00a0da informa\u00e7\u00e3o e da comunica\u00e7\u00e3o. A transi\u00e7\u00e3o da m\u00eddia tradicional anal\u00f3gica para as redes de media\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica transformou radicalmente a esfera p\u00fablica, degradando os crit\u00e9rios de reflex\u00e3o e veridi\u00e7\u00e3o. <strong><em>Shoshana Zuboff (2020), em <\/em><\/strong><strong><em><i>A Era do Capitalismo de Vigil\u00e2ncia<\/i><\/em><\/strong><strong><em>, revela como as grandes corpora\u00e7\u00f5es de<\/em><\/strong>\u00a0tecnologia operam a captura massiva da experi\u00eancia humana cotidiana como mat\u00e9ria-prima para a predi\u00e7\u00e3o e modifica\u00e7\u00e3o deliberada de comportamentos. A aten\u00e7\u00e3o e as emo\u00e7\u00f5es humanas tornaram-se commodities transacionadas em mercados de futuros comportamentais. <strong><em>Paralelamente, o fil\u00f3sofo Byung-Chul Han (2018, 2022) formula o conceito de <\/em><\/strong><strong><em><b>Psicopol\u00edtica<\/b><\/em><\/strong><strong><em>\u00a0para explicar a<\/em><\/strong>\u00a0supera\u00e7\u00e3o da sociedade disciplinar descrita por Foucault. Se a biopol\u00edtica dominava o corpo pela repress\u00e3o externa, a psicopol\u00edtica opera no interior da mente por meio da sedu\u00e7\u00e3o, do est\u00edmulo \u00e0 autoexposi\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria e da mercantiliza\u00e7\u00e3o da intimidade. Nas redes sociais, a cidadania e a capacidade reflexiva dissolvem-se na <strong><em>din\u00e2mica do &#8220;enxame digital&#8221;: O enxame digital n\u00e3o \u00e9 uma massa porque n\u00e3o lhe \u00e9 inerente uma alma, um esp\u00edrito de massa. A massa \u00e9<\/em><\/strong>\u00a0estruturada por um padr\u00e3o comum de sentimentos e a\u00e7\u00f5es. [&#8230;] O enxame digital, ao contr\u00e1rio, \u00e9 composto <strong><em>de indiv\u00edduos isolados. Falta-lhe o N\u00f3s (HAN, 2018, p. 25). Nessa arquitetura informacional, os algoritmos s\u00e3o desenhados para maximizar o engajamento econ\u00f4mico<\/em><\/strong>\u00a0priorizando conte\u00fados polarizadores, indutores de f\u00faria, medo e desinforma\u00e7\u00e3o deliberada. As <em><i>fake news<\/i><\/em>\u00a0e as teorias conspirat\u00f3rias deixam de ser anomalias informacionais e passam a constituir o modelo de neg\u00f3cio central das plataformas. Nesse ambiente hiperconectado, por\u00e9m cognitivamente empobrecido, a complexidade sociol\u00f3gica \u00e9 reduzida a slogans rasos, operando como o motor prim\u00e1rio da banalidade do mal na era digital.<\/p>\n<ol start=\"6\">\n<li><strong><em><b> CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS, LONGE DA CONCLUS\u00c3O: HORIZONTES DE RESIST\u00caNCIA E <\/b><\/em><\/strong><strong><em>O IMPERATIVO \u00c9TICO DO PENSAR E AGIR A PR\u00c1TICA DA <\/em><\/strong><strong><em><b>EMANCIPA\u00c7\u00c3O SOCIAL<\/b><\/em><\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O panorama delineado neste nosso ensaio comprova que a ascens\u00e3o da extrema-direita autocr\u00e1tica, <\/strong><strong><em>a banaliza\u00e7\u00e3o do sofrimento e a expans\u00e3o da necropol\u00edtica no s\u00e9culo XXI n\u00e3o representam eventos isolados<\/em><\/strong>\u00a0ou desvios morais passageiros. Trata-se da express\u00e3o terminal de uma crise civilizat\u00f3ria e hegem\u00f4nica, na qual o capitalismo neoliberal \u2014 transformado em sua vertente canibal e predadora \u2014 mostra-se incompat\u00edvel com a manuten\u00e7\u00e3o de democracias substanciais, direitos humanos incondicionais e com a pr\u00f3pria homeostase ecol\u00f3gica do planeta. <strong><em>Para conjurar a trag\u00e9dia que se afigura no horizonte hist\u00f3rico do s\u00e9culo XXI, a reflex\u00e3o \u00c9tica, sociol\u00f3gica e filos\u00f3fica<\/em><\/strong>\u00a0cr\u00edtica aponta para a inadiabilidade de tr\u00eas tarefas hist\u00f3ricas estruturantes:<\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\"><b><\/b><strong><b>Reconstru\u00e7\u00e3o das Bases Materiais da Cidadania:<\/b><\/strong>A recomposi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica n\u00e3o se dar\u00e1 pela via do formalismo jur\u00eddico vazio ou do mero apelo ret\u00f3rico \u00e0s institui\u00e7\u00f5es liberais que naufragaram. \u00c9 imperativo articular a democracia ao enfrentamento radical da desigualdade econ\u00f4mica, mediante tributa\u00e7\u00e3o progressiva das grandes fortunas, soberania distributiva e prote\u00e7\u00e3o universal dos bens comuns;<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><b><\/b><strong><b>Regula\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica da Esfera Digital:<\/b><\/strong>A infraestrutura de comunica\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica n\u00e3o pode permanecer como propriedade de monop\u00f3lios privados que lucram com o \u00f3dio social, a desinforma\u00e7\u00e3o e a corros\u00e3o da esfera p\u00fablica. Faz-se indispens\u00e1vel a soberania de dados, a auditoria algor\u00edtmica e o letramento midi\u00e1tico emancipat\u00f3rio nas escolas e comunidades;<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><b><\/b><strong><b>\u00c9tica da Solidariedade e Epistemologias do Cuidado:<\/b><\/strong>\u00c9 urgente opor \u00e0 necropol\u00edtica de descarte uma bio\u00e9tica afirmativa e decolonial (articulando as li\u00e7\u00f5es de pensadores ind\u00edgenas e afro-diasp\u00f3ricos), que reafirme a interdepend\u00eancia entre todos os seres vivos e a centralidade da reprodu\u00e7\u00e3o da vida sobre a l\u00f3gica sacrificial do capital.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Ao percorrer a cartografia da barb\u00e1rie contempor\u00e2nea, desvela-se com clareza cristalina que a ascens\u00e3o da extrema-direita autocr\u00e1tica, o avan\u00e7o do neofascismo e a gest\u00e3o necropol\u00edtica de popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis<\/em><\/strong>\u00a0n\u00e3o constituem meros acidentes conjunturais ou disfun\u00e7\u00f5es morais passageiras. Trata-se do esgotamento terminal de um modelo civilizat\u00f3rio erigido sobre o neoliberalismo canibal, cuja voracidade espoliativa canibaliza os ecossistemas, degrada as redes de reprodu\u00e7\u00e3o social da vida e destr\u00f3i os alicerces institucionais da democracia substantiva em prol de uma concentra\u00e7\u00e3o de capital obscena e ecocida. <strong><em>Neste crep\u00fasculo institucional, a advert\u00eancia filos\u00f3fica de Hannah Arendt em <\/em><\/strong><strong><em><i>Eichmann em Jerusal\u00e9m: um relato sobre a banalidade do mal<\/i><\/em><\/strong><strong><em>\u00a0(1999) imp\u00f5e-se n\u00e3o apenas como diagn\u00f3stico hist\u00f3rico de um s\u00e9culo<\/em><\/strong>\u00a0<strong><em>pret\u00e9rito,<\/em><\/strong>\u00a0mas como imperativo \u00e9tico urgente para o tempo presente. Arendt desvelou que a condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via para a emerg\u00eancia do totalitarismo e a perpetra\u00e7\u00e3o do exterm\u00ednio em escala industrial n\u00e3o foi a maldade sat\u00e2nica excepcional de poucos, mas a conforma\u00e7\u00e3o d\u00f3cil, a cumplicidade silenciosa e a recusa volunt\u00e1ria de milh\u00f5es em exercer a atividade do pensamento reflexionante. Em suas p\u00e1ginas finais, a fil\u00f3sofa sintetiza a natureza aterradora dessa aus\u00eancia de pensamento (<em><i>thoughtlessness<\/i><\/em>). <strong>Portanto, conjurar a trag\u00e9dia que se afigura no horizonte hist\u00f3rico do s\u00e9culo XXI exige muito mais do que a<\/strong>\u00a0restaura\u00e7\u00e3o melanc\u00f3lica dos consensos da democracia <strong><em>liberal formal \u2014 a qual gerou as pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de sua fal\u00eancia ao submeter a soberania popular \u00e0 tirania<\/em><\/strong>\u00a0<strong><em>dos mercados financeiros. Exige uma refunda\u00e7\u00e3o \u00e9tico-pol\u00edtica e emancipat\u00f3ria articulada em quatro frentes estrat\u00e9gicas inadi\u00e1veis:<\/em><\/strong><\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\"><b><\/b><strong><em><b>O Resgate do Ju\u00edzo Cr\u00edtico e do Pensamento Desobediente:<\/b><\/em><\/strong><em>Recuperar a faculdade do pensar arendtiano como ato de interrup\u00e7\u00e3o moral, capaz de distinguir o justo do injusto para al\u00e9m das normas positivas ou dos imperativos de efici\u00eancia econ\u00f4mica. O ensino de Sociologia, Filosofia e das humanidades nas escolas e universidades deixa de ser mera transmiss\u00e3o curricular para configurar-se como trincheira de resist\u00eancia democr\u00e1tica e defesa ontol\u00f3gica da dignidade humana;<\/em><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><b><\/b><strong><em><b>Reconstru\u00e7\u00e3o das Bases Materiais da Democracia:<\/b><\/em><\/strong><em>A democracia s\u00f3 subsiste se for substantiva e materialmente percept\u00edvel no cotidiano das maiorias sociais. Isso imp\u00f5e enfrentar radicalmente a fratura da desigualdade mediante a tributa\u00e7\u00e3o internacional progressiva sobre super-ricos e heran\u00e7as bilion\u00e1rias, a garantia de direitos sociais universais incondicionais e a desmercantiliza\u00e7\u00e3o de bens essenciais como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, moradia, saneamento e cultura;<\/em><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><b><\/b><strong><em><b>Descoloniza\u00e7\u00e3o e Regula\u00e7\u00e3o P\u00fablica da Esfera Digital:<\/b><\/em><\/strong><em>A \u00e1gora p\u00fablica e as ferramentas de intelig\u00eancia artificial n\u00e3o podem continuar sob a cust\u00f3dia monopolista de bilion\u00e1rios do Vale do Sil\u00edcio que lucram com o cultivo do \u00f3dio, a desinforma\u00e7\u00e3o e a militariza\u00e7\u00e3o da psicopol\u00edtica. Urge estabelecer a soberania digital popular, auditorias algor\u00edtmicas transparentes, desarticula\u00e7\u00e3o de monop\u00f3lios corporativos e rigorosa responsabiliza\u00e7\u00e3o jur\u00eddica das plataformas;<\/em><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><b><\/b><strong><em><b>Alian\u00e7a Bioc\u00eantrica e Justi\u00e7a Socioambiental:<\/b><\/em><\/strong><em>Em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 necropol\u00edtica de Estado e \u00e0 ontologia predat\u00f3ria do Antropoceno, \u00e9 imperativo incorporar as epistemologias origin\u00e1rias, afro-diasp\u00f3ricas e ecossociais que colocam o cuidado com a Terra, os rios e a reprodu\u00e7\u00e3o da vida no \u00e1pice da hierarquia pol\u00edtica, repudiando o sacrif\u00edcio de comunidades e biomas em nome do crescimento econ\u00f4mico extrativista.<\/em><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Somente ao reatar o pensamento cr\u00edtico com a a\u00e7\u00e3o coletiva encarnada nos territ\u00f3rios, nas periferias e nos<\/em><\/strong>\u00a0movimentos sociais organizados ser\u00e1 poss\u00edvel retirar a sociedade da apatia conformista, desmantelar <strong><em>as ilus\u00f5es sedutoras do neofascismo, do neoliberalismo desvairado e resgatar o futuro como um horizonte<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em><strong><em>compartilhado de emancipa\u00e7\u00e3o, \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de pontes e n\u00e3o de muros, justi\u00e7a e dignidade para toda a humanidade.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em><b>ALGUMAS REFER\u00caNCIAS:<\/b><\/em><\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><em>ARENDT, Hannah. <\/em><strong><em><b>Eichmann em Jerusal\u00e9m:<\/b><\/em><\/strong><em>um relato sobre a banalidade do mal. Tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Rubens Siqueira. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1999.<\/em><\/li>\n<li><em>ARENDT, Hannah. <\/em><strong><em><b>Origens do totalitarismo:<\/b><\/em><\/strong><em>antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. Tradu\u00e7\u00e3o de Roberto Raposo. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2012.<\/em><\/li>\n<li><em>BAUMAN, Zygmunt. <\/em><strong><em><b>Modernidade e Holocausto<\/b><\/em><\/strong><em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.<\/em><\/li>\n<li><em>FOUCAULT, Michel. <\/em><strong><em><b>Em defesa da sociedade:<\/b><\/em><\/strong><em>curso no Coll\u00e8ge de France (1975-1976). Tradu\u00e7\u00e3o de Eduardo Brand\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2005.<\/em><\/li>\n<li><em>FRASER, Nancy. <\/em><strong><em><b>Capitalismo canibal:<\/b><\/em><\/strong><em>como nosso sistema est\u00e1 devorando a democracia, o cuidado e o planeta \u2014 e o que podemos fazer a respeito. Tradu\u00e7\u00e3o de Cec\u00edlia Camargo Bartalotti. S\u00e3o Paulo: Autonomia Liter\u00e1ria, 2024.<\/em><\/li>\n<li><em>HAN, Byung-Chul. <\/em><strong><em><b>No enxame:<\/b><\/em><\/strong><em>perspectivas do digital. Tradu\u00e7\u00e3o de Lucas Machado. Petr\u00f3polis: Vozes, 2018.<\/em><\/li>\n<li><em>HAN, Byung-Chul. <\/em><strong><em><b>Infocracia:<\/b><\/em><\/strong><em>digitaliza\u00e7\u00e3o e a crise da democracia. Tradu\u00e7\u00e3o de Gabriel Salvi Philipson. Petr\u00f3polis: Vozes, 2022.<\/em><\/li>\n<li><em>HARARI, Yuval Noah. <\/em><strong><em><b>Homo Deus:<\/b><\/em><\/strong><em>uma breve hist\u00f3ria do amanh\u00e3. Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo Geiger. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2016.<\/em><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><em>HARARI, Yuval Noah. <\/em><strong><em><b>21 li\u00e7\u00f5es para o s\u00e9culo 21<\/b><\/em><\/strong><em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo Geiger. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2018.<\/em><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><em>LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. <\/em><strong><em><b>Como as democracias morrem<\/b><\/em><\/strong><em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.<\/em><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><em>MARX, Karl. <\/em><strong><em><b>O capital:<\/b><\/em><\/strong><em>cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. Livro I: O processo de produ\u00e7\u00e3o do capital. Tradu\u00e7\u00e3o de Rubens Enderle. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013.<\/em><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><em>MBEMBE, Achille. <\/em><strong><em><b>Necropol\u00edtica:<\/b><\/em><\/strong><em>biopoder, soberania, estado de exce\u00e7\u00e3o, pol\u00edtica da morte. Tradu\u00e7\u00e3o de Renata Santini. S\u00e3o Paulo: n-1 edi\u00e7\u00f5es, 2018.<\/em><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><em>MOUFFE, Chantal. <\/em><strong><em><b>Sobre o pol\u00edtico<\/b><\/em><\/strong><em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Fernando Santos. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2015.<\/em><\/li>\n<li><strong><em><b>Desigualdade S.A.:<\/b><\/em><\/strong><em>Como o poder corporativo divide o nosso mundo e a necessidade de uma nova era de a\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Oxford: Oxfam International, 2024.<\/em><\/li>\n<li><em>PIKETTY, Thomas. <\/em><strong><em><b>O capital no s\u00e9culo XXI<\/b><\/em><\/strong><em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Monica Baumgarten de Bolle. Rio de Janeiro: Intr\u00ednseca, 2014.<\/em><\/li>\n<li><em>ZUBOFF, Shoshana. <\/em><strong><em><b>A era do capitalismo de vigil\u00e2ncia:<\/b><\/em><\/strong><em>a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Tradu\u00e7\u00e3o de George Schlesinger. Rio de Janeiro: Intr\u00ednseca, 2020.<\/em><\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Prof. DsC. Dirlei A. Bonfim).* RESUMO O presente ensaio cr\u00edtico-reflexivo investiga a converg\u00eancia entre a crise estrutural do capitalismo\u00a0contempor\u00e2neo, a ascens\u00e3o do neofascismo e as transforma\u00e7\u00f5es nos mecanismos de domina\u00e7\u00e3o e\u00a0aniquila\u00e7\u00e3o social no s\u00e9culo XXI. 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