{"id":130083,"date":"2026-07-19T17:49:41","date_gmt":"2026-07-19T20:49:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=130083"},"modified":"2026-07-19T17:49:41","modified_gmt":"2026-07-19T20:49:41","slug":"o-moralismo-seletivo-e-a-falencia-da-etica-como-discurso-politico-na-bahia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2026\/07\/19\/o-moralismo-seletivo-e-a-falencia-da-etica-como-discurso-politico-na-bahia\/","title":{"rendered":"O moralismo seletivo e a fal\u00eancia da \u00e9tica como discurso pol\u00edtico na Bahia"},"content":{"rendered":"<p>Por Herberson Sonkha<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe uma diferen\u00e7a profunda entre defender a \u00e9tica na pol\u00edtica e utilizar a \u00e9tica como instrumento de disputa pol\u00edtica.<br \/>\nA primeira postura fortalece a democracia. A segunda a corr\u00f3i.<br \/>\nNos \u00faltimos anos, o Brasil assistiu \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma narrativa segundo a qual a corrup\u00e7\u00e3o possuiria endere\u00e7o ideol\u00f3gico. A partir dessa l\u00f3gica simplificadora, consolidou-se no imagin\u00e1rio pol\u00edtico a ideia de que haveria partidos naturalmente vocacionados para a corrup\u00e7\u00e3o e outros que se apresentariam como guardi\u00f5es exclusivos da moralidade p\u00fablica.<br \/>\nA hist\u00f3ria, entretanto, nunca confirmou essa tese.<br \/>\nA ci\u00eancia pol\u00edtica ensina que corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o nasce da ideologia. Ela prospera onde h\u00e1 concentra\u00e7\u00e3o de poder, baixa transpar\u00eancia, fragilidade dos mecanismos de controle e pouca capacidade institucional de fiscaliza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o importa se o governo se declara de direita, de esquerda ou de centro. Quando essas condi\u00e7\u00f5es se estabelecem, o risco de desvios cresce.<br \/>\n\u00c9 justamente por isso que a recente investiga\u00e7\u00e3o conduzida pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado da Bahia (MPBA), por meio do Gaeco, merece aten\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<br \/>\nSegundo o Minist\u00e9rio P\u00fablico, est\u00e3o sob investiga\u00e7\u00e3o contratos p\u00fablicos que, somados, alcan\u00e7am aproximadamente R$ 321 milh\u00f5es, envolvendo empresas como G3 Polaris Servi\u00e7os Ltda, Podium Distribuidora, LN Distribuidora e Com\u00e9rcio, WLSP Log\u00edstica e Transportes e MP2 Constru\u00e7\u00f5es. As apura\u00e7\u00f5es examinam suspeitas de fraude em licita\u00e7\u00f5es, direcionamento de contratos, superfaturamento e poss\u00edvel atua\u00e7\u00e3o coordenada entre empresas. Essas hip\u00f3teses investigativas ainda ser\u00e3o submetidas ao devido processo legal, e n\u00e3o h\u00e1 decis\u00e3o judicial definitiva sobre a responsabilidade dos investigados.<br \/>\nO aspecto politicamente relevante, contudo, n\u00e3o reside apenas na investiga\u00e7\u00e3o em si.<br \/>\nOs contratos mencionados alcan\u00e7am administra\u00e7\u00f5es municipais conduzidas por diferentes lideran\u00e7as pol\u00edticas, entre elas Bruno Reis e ACM Neto (Uni\u00e3o Brasil), em Salvador; Z\u00e9 Coc\u00e1 (PP), em Jequi\u00e9; e contratos celebrados durante as gest\u00f5es de Herzem Gusm\u00e3o e Sheila Lemos em Vit\u00f3ria da Conquista. Tamb\u00e9m h\u00e1 refer\u00eancia a contratos firmados em outras administra\u00e7\u00f5es municipais e a contratos celebrados com o Governo do Estado.<br \/>\nA exist\u00eancia desses contratos, por si s\u00f3, n\u00e3o constitui prova de irregularidade. \u00c9 exatamente isso que cabe \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o esclarecer.<br \/>\nMas o debate pol\u00edtico que emerge desse cen\u00e1rio \u00e9 inevit\u00e1vel.<br \/>\nDurante anos, setores da direita brasileira constru\u00edram boa parte de sua identidade pol\u00edtica sobre uma ret\u00f3rica de superioridade moral. O Partido dos Trabalhadores transformou-se no s\u00edmbolo permanente de todos os males da Rep\u00fablica. Muitas vezes, bastava uma opera\u00e7\u00e3o policial, uma den\u00fancia ou mesmo uma suspeita para que condena\u00e7\u00f5es pol\u00edticas fossem pronunciadas antes das decis\u00f5es judiciais.<br \/>\nHoje, quando investiga\u00e7\u00f5es alcan\u00e7am administra\u00e7\u00f5es vinculadas a partidos como Uni\u00e3o Brasil e PP \u2014 legendas que, em diferentes momentos, integraram alian\u00e7as e bases de sustenta\u00e7\u00e3o do governo Jair Bolsonaro no plano nacional \u2014 o discurso muda de tom. A cautela jur\u00eddica, corretamente invocada agora, deveria ter sido o padr\u00e3o em todos os epis\u00f3dios da vida p\u00fablica brasileira.<br \/>\n\u00c9 justamente essa diferen\u00e7a de tratamento que merece cr\u00edtica.<br \/>\nN\u00e3o porque exista prova definitiva contra este ou aquele agente pol\u00edtico, mas porque a coer\u00eancia democr\u00e1tica exige crit\u00e9rios universais.<br \/>\nQuem defendia que toda investiga\u00e7\u00e3o era suficiente para condenar advers\u00e1rios precisa explicar por que, diante de investiga\u00e7\u00f5es envolvendo aliados, passa a sustentar que somente a senten\u00e7a final pode autorizar qualquer ju\u00edzo pol\u00edtico.<br \/>\nA mudan\u00e7a n\u00e3o decorre do Direito.<br \/>\nDecorre da conveni\u00eancia.<br \/>\nSob a perspectiva da sociologia pol\u00edtica, esse comportamento representa aquilo que diversos estudiosos descrevem como moralismo seletivo: a utiliza\u00e7\u00e3o instrumental da \u00e9tica p\u00fablica para produzir capital pol\u00edtico, enquanto os mesmos princ\u00edpios s\u00e3o relativizados quando alcan\u00e7am grupos considerados ideologicamente pr\u00f3ximos.<br \/>\nA consequ\u00eancia \u00e9 devastadora.<br \/>\nA popula\u00e7\u00e3o deixa de acreditar que o combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o seja um compromisso republicano e passa a perceb\u00ea-lo como mera ferramenta eleitoral.<br \/>\nEssa percep\u00e7\u00e3o enfraquece as institui\u00e7\u00f5es, reduz a confian\u00e7a na democracia e alimenta um ciclo permanente de polariza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTamb\u00e9m merece reflex\u00e3o o comportamento de parte da imprensa brasileira.<br \/>\nEm uma democracia madura, investiga\u00e7\u00f5es envolvendo recursos p\u00fablicos devem receber cobertura proporcional \u00e0 sua relev\u00e2ncia institucional, independentemente da identidade partid\u00e1ria dos investigados. A independ\u00eancia editorial exige que o mesmo rigor empregado em casos anteriores seja aplicado \u00e0s investiga\u00e7\u00f5es atuais, sempre respeitando a presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia e o direito ao contradit\u00f3rio.<br \/>\n\u00c9 esse equil\u00edbrio que diferencia o jornalismo da milit\u00e2ncia.<br \/>\nAo final, permanece uma li\u00e7\u00e3o que a hist\u00f3ria insiste em repetir.<br \/>\nA corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o possui partido.<br \/>\nN\u00e3o possui ideologia.<br \/>\nN\u00e3o possui cor.<br \/>\nEla encontra espa\u00e7o sempre que controles institucionais falham e sempre que a sociedade aceita substituir o compromisso com a \u00e9tica pelo conforto das conveni\u00eancias pol\u00edticas.<br \/>\nPor isso, o verdadeiro combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o come\u00e7a quando abandonamos a ideia de que ela pertence exclusivamente ao advers\u00e1rio.<br \/>\nEnquanto houver dois pesos e duas medidas, n\u00e3o haver\u00e1 moralidade p\u00fablica.<br \/>\nHaver\u00e1 apenas disputa pol\u00edtica travestida de virtude.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Herberson Sonkha Existe uma diferen\u00e7a profunda entre defender a \u00e9tica na pol\u00edtica e utilizar a \u00e9tica como instrumento de disputa pol\u00edtica. A primeira postura fortalece a democracia. A segunda a corr\u00f3i. Nos \u00faltimos anos, o Brasil assistiu \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma narrativa segundo a qual a corrup\u00e7\u00e3o possuiria endere\u00e7o ideol\u00f3gico. A partir dessa l\u00f3gica [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":119838,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[67,71],"tags":[8584,8585],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/130083"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=130083"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/130083\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":130084,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/130083\/revisions\/130084"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/119838"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=130083"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=130083"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=130083"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}