{"id":129953,"date":"2026-07-06T22:24:15","date_gmt":"2026-07-07T01:24:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=129953"},"modified":"2026-07-06T22:24:15","modified_gmt":"2026-07-07T01:24:15","slug":"infidelidade-ou-disputa-hegemonica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2026\/07\/06\/infidelidade-ou-disputa-hegemonica\/","title":{"rendered":"Infidelidade ou disputa hegem\u00f4nica?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Entre a fidelidade partid\u00e1ria e a disputa pela hegemonia: o caso Diogo Azevedo revela muito mais do que uma cassa\u00e7\u00e3o de mandato.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Por Herberson Sonkha<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pol\u00edtica raramente se explica pelos fatos que aparecem na superf\u00edcie. A cassa\u00e7\u00e3o do mandato do vereador mais votado da hist\u00f3ria recente de Vit\u00f3ria da Conquista, Diogo Azevedo, \u00e9 um desses acontecimentos que n\u00e3o podem ser compreendidos apenas pelo texto da legisla\u00e7\u00e3o eleitoral ou pela decis\u00e3o judicial que encerrou, ao menos formalmente, o caso. Toda decis\u00e3o jur\u00eddica importante nasce dentro de uma determinada realidade pol\u00edtica, e \u00e9 essa realidade que merece ser analisada.<br \/>\nEm recente coment\u00e1rio, o jornalista Paulo Nunes apresentou uma interpreta\u00e7\u00e3o que vai al\u00e9m do aspecto jur\u00eddico da perda do mandato. Seu argumento central \u00e9 que a cassa\u00e7\u00e3o foi o desfecho de uma disputa de poder iniciada quando o vereador passou a construir um projeto pol\u00edtico pr\u00f3prio, rompendo, segundo sua leitura, a rela\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o existente entre ele e a prefeita Sheila Lemos.<br \/>\nIndependentemente de se concordar integralmente ou n\u00e3o com essa interpreta\u00e7\u00e3o, ela oferece uma importante chave de leitura para compreender a pol\u00edtica conquistense: as institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o funcionam isoladamente das rela\u00e7\u00f5es concretas de poder.<br \/>\nDiogo Azevedo construiu sua proje\u00e7\u00e3o p\u00fablica exercendo a dire\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Esa\u00fa Matos, equipamento estrat\u00e9gico da pol\u00edtica municipal de sa\u00fade. Sua expressiva vota\u00e7\u00e3o em 2024 representou muito mais do que um \u00eaxito eleitoral; transformou-o em uma lideran\u00e7a emergente dentro do pr\u00f3prio grupo governista. Na pol\u00edtica, entretanto, votos n\u00e3o significam, por si s\u00f3s, autonomia. O poder eleitoral precisa ser convertido em poder organizacional, partid\u00e1rio e institucional.<br \/>\n\u00c9 justamente nesse ponto que a an\u00e1lise de Paulo Nunes ganha relev\u00e2ncia. Segundo sua interpreta\u00e7\u00e3o, o vereador acreditou que o capital pol\u00edtico conquistado nas urnas seria suficiente para lhe permitir construir uma carreira independente, inclusive alterando sua posi\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria para disputar novos espa\u00e7os eleitorais. Entretanto, na pol\u00edtica brasileira, especialmente nos munic\u00edpios, a for\u00e7a de um mandato frequentemente encontra limites na estrutura partid\u00e1ria e no comando das organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<br \/>\nA tentativa de migra\u00e7\u00e3o para o PSDB, sem que houvesse as condi\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas e pol\u00edticas necess\u00e1rias para tanto, teria colocado em evid\u00eancia um aspecto cl\u00e1ssico da Ci\u00eancia Pol\u00edtica: partidos n\u00e3o s\u00e3o apenas legendas eleitorais; s\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es de poder. Controlar um partido significa controlar candidaturas, alian\u00e7as, recursos, tempo de televis\u00e3o, apoios institucionais e, sobretudo, o futuro pol\u00edtico de seus quadros.<br \/>\nNesse contexto, a recusa da Carta de Anu\u00eancia, apontada por Paulo Nunes como elemento decisivo para a configura\u00e7\u00e3o da infidelidade partid\u00e1ria, deixa de ser apenas um procedimento burocr\u00e1tico e passa a representar um instrumento de afirma\u00e7\u00e3o da autoridade pol\u00edtica da lideran\u00e7a municipal.<br \/>\nOutro aspecto relevante da an\u00e1lise diz respeito ao papel desempenhado por ACM Neto. Conforme sustenta Paulo Nunes, o dirigente estadual do Uni\u00e3o Brasil encontrava-se diante de uma escolha pol\u00edtica delicada: prestigiar os interesses do PSDB ou preservar a alian\u00e7a estrat\u00e9gica com Sheila Lemos, lideran\u00e7a considerada fundamental para o projeto estadual do partido. Sob essa perspectiva, a decis\u00e3o n\u00e3o seria orientada por crit\u00e9rios pessoais, mas pela racionalidade eleitoral que estrutura as coaliz\u00f5es pol\u00edticas contempor\u00e2neas.<br \/>\nA Ci\u00eancia Pol\u00edtica denomina esse comportamento de c\u00e1lculo estrat\u00e9gico. Os agentes pol\u00edticos raramente tomam decis\u00f5es apenas em fun\u00e7\u00e3o de afinidades individuais. Eles calculam custos, benef\u00edcios, capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o eleitoral e perspectivas futuras de poder. \u00c9 exatamente essa racionalidade que parece atravessar todo o epis\u00f3dio.<br \/>\nOutro elemento destacado pelo jornalista refere-se \u00e0 perman\u00eancia do vereador, por aproximadamente quarenta dias, em cargo comissionado na Prefeitura enquanto exercia simultaneamente o mandato parlamentar. Caso essa situa\u00e7\u00e3o tenha efetivamente ocorrido nos termos narrados, ela suscita relevantes questionamentos jur\u00eddicos e administrativos. Entretanto, mais importante do que discutir a eventual irregularidade \u00e9 compreender seu significado pol\u00edtico. Paulo Nunes interpreta esse epis\u00f3dio como demonstra\u00e7\u00e3o de que as rela\u00e7\u00f5es entre Executivo e Legislativo, muitas vezes, ultrapassam os limites da separa\u00e7\u00e3o formal entre os Poderes e passam a integrar estrat\u00e9gias de acomoda\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<br \/>\nSob a perspectiva sociol\u00f3gica, esse epis\u00f3dio revela a exist\u00eancia de complexas redes de interdepend\u00eancia entre lideran\u00e7as, partidos e institui\u00e7\u00f5es. Como ensinava Max Weber, o poder pol\u00edtico n\u00e3o se sustenta apenas na legalidade; depende tamb\u00e9m da legitimidade e da capacidade de comando. J\u00e1 Pierre Bourdieu demonstraria que votos representam capital pol\u00edtico, mas esse capital somente produz autonomia quando articulado ao controle das estruturas institucionais.<br \/>\nA filosofia pol\u00edtica igualmente oferece importantes contribui\u00e7\u00f5es para compreender esse epis\u00f3dio. Desde Nicolau Maquiavel sabemos que conservar o poder exige prud\u00eancia, c\u00e1lculo e capacidade de administrar alian\u00e7as. A ruptura de pactos pol\u00edticos quase sempre produz consequ\u00eancias que ultrapassam o campo das rela\u00e7\u00f5es pessoais. N\u00e3o se trata de moralizar a pol\u00edtica, mas de reconhecer que ela possui uma l\u00f3gica pr\u00f3pria, frequentemente distinta da \u00e9tica privada.<br \/>\nEntretanto, \u00e9 a tradi\u00e7\u00e3o marxista que talvez ofere\u00e7a a interpreta\u00e7\u00e3o estrutural mais profunda desse caso. Para Karl Marx, o Estado n\u00e3o constitui um espa\u00e7o neutro de administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, mas um terreno permanente de disputa entre grupos que procuram dirigir politicamente a sociedade. J\u00e1 Antonio Gramsci amplia essa compreens\u00e3o ao demonstrar que o poder n\u00e3o se exerce apenas pela coer\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, mas principalmente pela constru\u00e7\u00e3o da hegemonia.<br \/>\n\u00c9 justamente sob essa lente que a conjuntura conquistense pode ser interpretada. O conflito entre Diogo Azevedo e Sheila Lemos n\u00e3o seria apenas um desentendimento entre duas lideran\u00e7as. Representaria uma disputa pela dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pr\u00f3prio grupo governante. De um lado, uma lideran\u00e7a consolidada buscando preservar sua hegemonia, organizar sua sucess\u00e3o e manter sob controle os instrumentos partid\u00e1rios e administrativos. De outro, uma lideran\u00e7a emergente procurando converter expressiva vota\u00e7\u00e3o em autonomia pol\u00edtica.<br \/>\nNesse sentido, a fidelidade partid\u00e1ria deixa de ser apenas uma categoria jur\u00eddica para transformar-se em instrumento de organiza\u00e7\u00e3o da hegemonia. A legisla\u00e7\u00e3o eleitoral atua como media\u00e7\u00e3o institucional de conflitos que, em sua ess\u00eancia, s\u00e3o disputas pol\u00edticas.<br \/>\nTamb\u00e9m merece aten\u00e7\u00e3o a leitura apresentada por Paulo Nunes sobre o projeto sucess\u00f3rio da prefeita. Segundo sua interpreta\u00e7\u00e3o, a elei\u00e7\u00e3o de seu marido para deputado estadual integraria uma estrat\u00e9gia de longo prazo voltada \u00e0 continuidade do grupo pol\u00edtico no comando do munic\u00edpio. Independentemente de tal hip\u00f3tese vir ou n\u00e3o a se confirmar, ela dialoga com um fen\u00f4meno amplamente estudado pela Ci\u00eancia Pol\u00edtica brasileira: a forma\u00e7\u00e3o de grupos dirigentes locais que buscam reproduzir seu poder por meio da ocupa\u00e7\u00e3o sucessiva de cargos eletivos e do fortalecimento de alian\u00e7as familiares e partid\u00e1rias.<br \/>\nO caso revela, portanto, que a pol\u00edtica municipal n\u00e3o pode ser reduzida \u00e0 disputa entre indiv\u00edduos. Ela expressa rela\u00e7\u00f5es estruturais de poder, controle institucional, organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, forma\u00e7\u00e3o de elites dirigentes e constru\u00e7\u00e3o permanente da hegemonia.<br \/>\nPor essa raz\u00e3o, a cassa\u00e7\u00e3o do mandato de Diogo Azevedo constitui apenas a face mais vis\u00edvel de um processo pol\u00edtico muito mais profundo. A verdadeira disputa n\u00e3o estava apenas no Tribunal Eleitoral, mas no interior das estruturas de poder que organizam a pol\u00edtica de Vit\u00f3ria da Conquista.<br \/>\nComo reflex\u00e3o cr\u00edtica, sugere-se (ou deveria) compreender que epis\u00f3dios dessa natureza n\u00e3o devem ser analisados exclusivamente pela dimens\u00e3o moral das condutas individuais. Eles precisam ser inseridos na din\u00e2mica hist\u00f3rica da reprodu\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico, das estrat\u00e9gias de domina\u00e7\u00e3o, da organiza\u00e7\u00e3o das elites locais e da permanente luta pela dire\u00e7\u00e3o do Estado.<br \/>\nNo fim das contas, talvez Paulo Nunes tenha apontado a quest\u00e3o essencial de toda essa conjuntura: n\u00e3o foi apenas um vereador que perdeu um mandato. O que estava em disputa era quem possui, de fato, a capacidade de dirigir politicamente um projeto de poder em Vit\u00f3ria da Conquista e de definir quem pode \u2014 e quem n\u00e3o pode \u2014 ascender dentro dele.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre a fidelidade partid\u00e1ria e a disputa pela hegemonia: o caso Diogo Azevedo revela muito mais do que uma cassa\u00e7\u00e3o de mandato. Por Herberson Sonkha A pol\u00edtica raramente se explica pelos fatos que aparecem na superf\u00edcie. 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