{"id":129141,"date":"2026-05-10T17:30:28","date_gmt":"2026-05-10T20:30:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=129141"},"modified":"2026-05-10T17:30:28","modified_gmt":"2026-05-10T20:30:28","slug":"maioria-de-empresarios-que-apoiou-ditadura-vem-de-familias-escravistas-afirma-cnv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2026\/05\/10\/maioria-de-empresarios-que-apoiou-ditadura-vem-de-familias-escravistas-afirma-cnv\/","title":{"rendered":"Maioria de empres\u00e1rios que apoiou ditadura vem de fam\u00edlias escravistas, afirma CNV"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Estudo ainda indica que a perman\u00eancia dessas elites familiares contribui para a persistente desigualdade social e baixa mobilidade no Brasil<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por: Eliane Gon\u00e7alves e Sumaia Villela &#8211; Rep\u00f3rteres da Radioag\u00eancia Nacional &#8211; Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/p>\n<p>Pelo menos dois de cada tr\u00eas empres\u00e1rios documentados pela Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV) como apoiadores da ditadura militar t\u00eam origem em fam\u00edlias escravistas. <img title=\"Maioria de empres\u00e1rios que apoiou ditadura vem de fam\u00edlias escravistas, afirma CNV 1\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1687432&amp;o=node\" alt=\"ebc\" \/><img title=\"Maioria de empres\u00e1rios que apoiou ditadura vem de fam\u00edlias escravistas, afirma CNV 2\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1687432&amp;o=node\" alt=\"ebc\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cap\u00edtulo\u00a0<em>Civis que Colaboraram com a Ditadura<\/em>\u00a0do relat\u00f3rio final da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/memoriasreveladas\/pt-br\/assuntos\/comissoes-da-verdade\/volume_2_digital.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">CNV<\/a>\u00a0lista as empresas que financiaram a ditadura de diferentes formas.<strong>\u00a0Dos 62 empres\u00e1rios citados no documento e que a reportagem conseguiu refazer a \u00e1rvore geneal\u00f3gica, pelo menos 40 s\u00e3o de fam\u00edlias de senhores de escravos.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O levantamento in\u00e9dito foi feito para o epis\u00f3dio\u00a0<em>Como Nossos Pais<\/em>, da segunda temporada do podcast\u00a0<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/radioagencia-nacional\/golpe-de-1964-perdas-e-danos\/heranca-de-poder-do-passado-escravocrata-ao-apoio-a-ditadura-de-1964\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Perdas e Danos<\/em><\/a>, que investiga o apoio dado pelas empresas \u00e0 ditadura militar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO que n\u00f3s observamos \u00e9 que a classe dominante tradicional no Brasil tem um n\u00facleo duro desde o per\u00edodo colonial em todas as regi\u00f5es\u201d, explica o coordenador do N\u00facleo de Estudos Paranaenses\u00a0e refer\u00eancia na pesquisa da genealogia do poder,\u00a0Ricardo Oliveira.<\/p>\n<blockquote data-rocket-lazy-bg-6b0cd246-6230-4d82-9656-c29611906c90=\"loaded\"><p>\u201cQuando a gente volta algumas gera\u00e7\u00f5es, \u00e0s vezes um av\u00f4 ou bisav\u00f4, de quem nasceu em 1950, voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 no senhoriato escravista das suas regi\u00f5es\u201d, relata.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 entraram na conta os empres\u00e1rios dos quais a reportagem conseguiu confirmar os antepassados, checando certid\u00f5es de nascimento, atestados de \u00f3bito, livros de batismo e outros documentos dispon\u00edveis no\u00a0Family Search,\u00a0site de genealogia, mantido pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos \u00daltimos Dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobrenomes famosos como o da fam\u00edlia Guinle de Paula Machado, que j\u00e1 foi dona do Porto de Santos; Batista Figueiredo, que al\u00e9m do \u00faltimo ditador militar, tamb\u00e9m tinha entre os herdeiros o vice-presidente da Bolsa de Mercadorias de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda est\u00e3o na lista a Fam\u00edlia Beltr\u00e3o, de Pernambuco\u00a0 que tem entre os herdeiros H\u00e9lio Beltr\u00e3o, executivo do Grupo Ultra e ministro do Planejamento do ditador Costa e Silva; e a fam\u00edlia Vidigal, dona do Banco Mercantil e da Cobrasma, a Companhia Brasileira de Material Ferrovi\u00e1rio.<\/p>\n<h2>L\u00f3gica da extra\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o\u00a0professor de filosofia pol\u00edtica da Unifesp\u00a0e coordenador do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) Edson Teles,\u00a0<strong>a l\u00f3gica da extra\u00e7\u00e3o marca o modelo econ\u00f4mico da ditadura<\/strong>:<\/p>\n<blockquote data-rocket-lazy-bg-6b0cd246-6230-4d82-9656-c29611906c90=\"loaded\"><p>\u201cExtrair \u00e9 o verbo fundamental do modelo econ\u00f4mico da ditadura. Extrair como a\u00e7\u00e3o fundamental e, por muitas vezes, quase que exclusiva.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Teles tra\u00e7a o paralelo entre o modelo e a tradi\u00e7\u00e3o escravista onde n\u00e3o\u00a0s\u00f3 se extrai\u00a0da terra, do min\u00e9rio, da \u00e1gua, da mat\u00e9ria-prima, mas\u00a0dos pr\u00f3prios trabalhadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cUsar o corpo do trabalhador sem considerar os seus direitos, a sua dignidade humana, que \u00e9 o trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o, a viola\u00e7\u00e3o de direitos diretamente, ou mesmo as viol\u00eancias mais graves. Isso tamb\u00e9m \u00e9 parte de um processo de extra\u00e7\u00e3o\u201d, conclui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Edson liderou o grupo de pesquisadores respons\u00e1veis pelo mais amplo estudo feito at\u00e9 agora no pa\u00eds sobre as rela\u00e7\u00f5es\u00a0entre a ditadura militar e as empresas nacionais e multinacionais. Para ele,\u00a0<strong>a uni\u00e3o entre o poder econ\u00f4mico e o regime de opress\u00e3o tinha um alvo: os trabalhadores.\u00a0<\/strong><\/p>\n<blockquote data-rocket-lazy-bg-6b0cd246-6230-4d82-9656-c29611906c90=\"loaded\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA rela\u00e7\u00e3o mais \u00edntima entre empresas e ditadura se deu justamente no ataque \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Logo que se deu o golpe, no m\u00eas de abril de 1964, 20 mil pessoas foram presas em um m\u00eas. \u00c9 muita coisa. A grande maioria, trabalhadores sindicalizados\u201d, lembra.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o professor Marco Ant\u00f4nio Rocha, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp),<strong>\u00a0dois anos depois do golpe, o poder de compra do sal\u00e1rio m\u00ednimo cai pela metade.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO que o governo fez foi modificar a pol\u00edtica de indexa\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo frente \u00e0 infla\u00e7\u00e3o. Com uma infla\u00e7\u00e3o j\u00e1 bem elevada, o sal\u00e1rio m\u00ednimo ficou defasado de forma muito r\u00e1pida. Em um a dois anos, perdeu cerca de 50% do poder de compra\u201d, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 a desigualdade aumentou. Segundo o IBGE, em 1960, 5% dos brasileiros mais ricos concentravam 28% da renda do pa\u00eds. Em 1972, respondiam por quase 40%.<\/strong><\/p>\n<h2>Imobilidade<\/h2>\n<p>A perman\u00eancia das mesmas fam\u00edlias por s\u00e9culos nas altas esferas do poder \u00e9 o retrato de um pa\u00eds em que o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.oecd.org\/content\/dam\/oecd\/en\/publications\/reports\/2018\/06\/a-broken-social-elevator-how-to-promote-social-mobility_g1g8e196\/9789264301085-en.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">elevador social est\u00e1 quebrado<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Segundo o OCDE, o f\u00f3rum formado por 38 pa\u00edses, conhecido como clube dos ricos, no Brasil, uma pessoa que nasce pobre precisa de nove gera\u00e7\u00f5es para chegar na classe m\u00e9dia. Algo como 300 anos. Brasil, Col\u00f4mbia e \u00c1frica do Sul se destacam na imobilidade social.\u00a0<\/strong><\/p>\n<blockquote data-rocket-lazy-bg-6b0cd246-6230-4d82-9656-c29611906c90=\"loaded\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPara entender o Brasil, para entender a nossa grande desigualdade social, para entender a viol\u00eancia simb\u00f3lica, social, pol\u00edtica e real, a gente precisa entender essas fam\u00edlias\u201d, avalia Ricardo Oliveira<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2>Fam\u00edlia Bueno Vidigal<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi para entender melhor o mecanismo da manuten\u00e7\u00e3o das desigualdades\u00a0que a reportagem do Perdas e danos investigou\u00a0a\u00a0<strong>fam\u00edlia Bueno Vidigal.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A escolha atendeu a tr\u00eas crit\u00e9rios: uma fam\u00edlia que durante a ditadura militar teve grande influ\u00eancia pol\u00edtica e econ\u00f4mica; atuava em v\u00e1rios setores da economia \u2013 ind\u00fastria, servi\u00e7os e sistema financeiro; e que marcou presen\u00e7a em v\u00e1rias frentes de apoio ao regime, desde o golpe at\u00e9 o financiamento da tortura.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No come\u00e7o do s\u00e9culo XX, o patriarca Gast\u00e3o Vidigal foi um dos fundadores da Cobrasma, que se destacava na produ\u00e7\u00e3o de trilhos e trens. Ele tamb\u00e9m fundou o Banco Mercantil, que j\u00e1 foi o maior banco privado do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Cobrasma foi herdada pelo filho e, depois, pelo neto de Gast\u00e3o Vidigal: Lu\u00eds Eul\u00e1lio Bueno Vidigal e Lu\u00eds Eul\u00e1lio Bueno Vidigal Filho. J\u00e1 o Banco Mercantil era presidido pelo filho de Gast\u00e3o, Gast\u00e3o Eduardo de Bueno Vidigal, at\u00e9 ele morrer em 2001 e o banco ser vendido para o Bradesco.<\/p>\n<h2>Greve de 1968<\/h2>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><img title=\"Acervo\/Memorial da Democracia\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/2XjjqiLckMi1_ks2ReE-kO49IQk=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2026\/04\/27\/image.jpg?itok=zqvrLe3N\" alt=\"S\u00e3o Paulo (SP) - FOTO DE ARQUIVO - Empres\u00e1rios que apoiaram a ditadura. Grevistas s\u00e3o rendidos e presos na desocupa\u00e7\u00e3o da Cobrasma pelo Ex\u00e9rcito, Osasco 1968. Foto: Acervo\/Memorial da Democracia\" \/><\/div>\n<div class=\"dnd-caption-wrapper\">\n<h6 class=\"meta\">Grevistas s\u00e3o rendidos e presos na desocupa\u00e7\u00e3o da Cobrasma pelo Ex\u00e9rcito, Osasco 1968.\u00a0\u2013\u00a0<strong>Acervo\/Memorial da Democracia<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A historiadora e professora da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp) Cl\u00e1udia Moraes de Souza\u00a0encontrou registros da Cobrasma no Minist\u00e9rio do Trabalho que mostram condi\u00e7\u00f5es de trabalho que se aproximavam de situa\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o, \u201c<\/strong>uma grandios\u00edssima companhia e as condi\u00e7\u00f5es de trabalho sempre foram vergonhosas\u201d.<\/p>\n<blockquote data-rocket-lazy-bg-6b0cd246-6230-4d82-9656-c29611906c90=\"loaded\"><p>\u201cN\u00e3o havia sanit\u00e1rios suficientes para o n\u00famero de trabalhadores, n\u00e3o havia refeit\u00f3rio, o trabalhador, na hora do almo\u00e7o, sa\u00eda para a cal\u00e7ada e almo\u00e7ava com a marmita no ch\u00e3o. N\u00e3o havia material de seguran\u00e7a, \u00e1gua filtrada ou pelo menos \u00e1gua, para se beber durante o expediente. Ent\u00e3o, quest\u00f5es m\u00ednimas, ligadas \u00e0 higiene e \u00e0 seguran\u00e7a do trabalhador\u201d, relata a professora.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi nesse cen\u00e1rio de precariedade que a Cobrasma virou epicentro de um dos maiores levantes oper\u00e1rios do pa\u00eds, em plena ditadura militar. A greve de Osasco de 1968:<\/p>\n<blockquote data-rocket-lazy-bg-6b0cd246-6230-4d82-9656-c29611906c90=\"loaded\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9 na greve que a gente enxerga claramente, os empres\u00e1rios chamando Ex\u00e9rcito brasileiro para atuar como repressor dentro da f\u00e1brica,\u201d ressalta\u00a0Cl\u00e1udia.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cerca de 400 trabalhadores foram presos na greve que \u00e9 considerada um dos estopins\u00a0 para Ato Institucional 5, AI-5, publicado cinco meses depois da paralisa\u00e7\u00e3o.\u00a0O\u00a0AI-5 fechou o Congresso Nacional, cassou mandatos de parlamentares, censurou a imprensa, e proibiu a concess\u00e3o de\u00a0<em>habeas corpus<\/em>.<\/strong><\/p>\n<h2>Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes \u2013 Oban \u2013\u00a0foi criada meses depois do AI-5, um dos\u00a0principais aparatos de tortura da ditadura.\u00a0Considerada o embri\u00e3o dos DOI-CODIs, o sistema de repress\u00e3o foi implantado a partir de 1970 em 10 capitais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tanto a OBAN quanto os DOI-CODIs foram financiados por empresas nacionais e multinacionais. Entre os s\u00f3cios das financiadoras estava o Banco Mercantil, de Gast\u00e3o Eduardo de Bueno Vidigal.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jornalista Ivan Seixas tinha 16 anos quando foi preso e torturado com o pai, Joaquim Seixas, no DOI-CODI de S\u00e3o Paulo. Dentro do aparelho de tortura eles descobriram\u00a0que outra forma de financiamento da repress\u00e3o eram\u00a0os pr\u00eamios oferecidos na ca\u00e7a a opositores do regime:<\/p>\n<blockquote data-rocket-lazy-bg-6b0cd246-6230-4d82-9656-c29611906c90=\"loaded\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cFizeram uma parceria com o empresariado para fazer uma caixinha de premia\u00e7\u00e3o. Cada um que era capturado tinha um valor a cabe\u00e7a. O Capit\u00e3o Carlos Lamarca, quando esteve na minha casa, a cabe\u00e7a dele valia U$ 750 mil. Um ano depois, quando foi assassinado, valia um U$ 1,5 milh\u00e3o.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele conta que sua pris\u00e3o tamb\u00e9m foi premiada. Na \u00e9poca, um carcereiro falou para o Ivan que recebeu U$ 300 pela pris\u00e3o do adolescente. Para ele, esse sistema fortaleceu os militares linha-dura e prolongou a ditadura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fam\u00edlia Bueno Vidigal tamb\u00e9m esteve \u00e0 frente do Grupo Permanente de Mobiliza\u00e7\u00e3o Industrial (GPMI), que tinha a fun\u00e7\u00e3o de estudar meios de adaptar as ind\u00fastrias para a produ\u00e7\u00e3o de materiais militares. A Cobrasma \u00e9 acusada de ter transformado carros da PM em blindados de guerra que seriam usados para conter manifesta\u00e7\u00f5es de rua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em troca de todo o esses apoios, os empres\u00e1rios recebiam incentivos fiscais, contratos com o governo e empr\u00e9stimos bilion\u00e1rios. No auge, a Cobrasma, chegou a faturar cerca de\u00a0 U$470 milh\u00f5es por ano.\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEsse\u00a0 benef\u00edcio se dava atrav\u00e9s dos bancos estatais. O BNDE [atual BNDES], por exemplo, no mesmo momento em que uma pol\u00edcia militar, uma for\u00e7a paramilitar e a empresa est\u00e3o se alocando num territ\u00f3rio, por exemplo, dentro de uma reserva ind\u00edgena, o BNDE est\u00e1 transportando para as contas da empresa um mega empr\u00e9stimo com regras econ\u00f4micas totalmente fora do mercado ou de qualquer outra pr\u00e1tica que o pr\u00f3prio Estado fazia na sua normalidade\u201d, explica Edson Teles.<\/p>\n<h2>Heran\u00e7a escravocrata<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gast\u00e3o Vidigal nasceu em 1889, em S\u00e3o Paulo, herdeiro de uma fam\u00edlia bem posicionada do Nordeste brasileiro e casado com Maria Am\u00e9lia Pontes Bueno,\u00a0herdeira de uma fam\u00edlia muito tradicional de S\u00e3o Paulo, os Buenos.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-medio_4colunas type-image atom-align-left\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><img title=\"Acervo\/Memorial da Democracia\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/rOugAHWU_-TG-5noXnnM9LjvHxw=\/365x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2026\/04\/27\/image_4.jpg?itok=HDN37Q7L\" alt=\"S\u00e3o Paulo (SP) - FOTO DE ARQUIVO - Empres\u00e1rios que apoiaram a ditadura. An\u00fancio de interesse de compra de escravizado no Jornal o Liberal (SE), em 1853, publicado por Ant\u00f4nio Pedro Vidigal,\u00a0bisav\u00f4 de Gast\u00e3o Eduardo de Bueno Vidigal e Lu\u00eds Eul\u00e1lio de Bueno Vidigal. Foto: Acervo\/Memorial da Democracia\" \/><\/div>\n<div class=\"dnd-caption-wrapper\">\n<h6 class=\"meta\"><b>Reprodu\u00e7\u00e3o Arquivo Nacional<\/b><\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Buscando os antepassados dos Vidigal, a reportagem do Perdas e Danos encontrou em jornais do s\u00e9culo XIX de Sergipe\u00a0registros que confirmam a pr\u00e1tica escravista. Em 1853, em um an\u00fancio classificado no jornal\u00a0<em>Uni\u00e3o Liberal<\/em>, o av\u00f4 de Gast\u00e3o Vidigal, Ant\u00f4nio Pedro Vidigal, informa que tem\u00a0<a href=\"https:\/\/memoria.bn.gov.br\/docreader\/DocReader.aspx?bib=383252&amp;pasta=327%201853&amp;pagfis=327\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">interesse em comprar um escravo<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1882,\u00a0<a href=\"https:\/\/memoria.bn.gov.br\/docreader\/DocReader.aspx?bib=710989&amp;pagfis=10\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o jornal\u00a0<em>O Libertador<\/em><\/a>, tamb\u00e9m de Sergipe, publicou a not\u00edcia de uma mulher que enfrentava dificuldades para comprar a liberdade da pr\u00f3pria filha e do neto, que teoricamente j\u00e1 tinha at\u00e9 nascido livre. Na hora da compra, os avaliadores convocados pelo tribunal para definir o pre\u00e7o da mulher escravizada aumentaram o pre\u00e7o em 33%, com a justificativa de que seria uma transa\u00e7\u00e3o que daria a alforria \u00e0 filha e a ao neto da compradora. Um dos avaliadores encarregados do superfaturamento era um Vidigal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ramo materno da fam\u00edlia, os Bueno, tamb\u00e9m \u00e9 marcado pela explora\u00e7\u00e3o do trabalho escravo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A esposa de Gast\u00e3o Vidigal, Maria Am\u00e9lia Bueno, \u00e9 descendente de Amador Bueno da Ribeira, capit\u00e3o-mor da Capitania de S\u00e3o Vicente, no s\u00e9culo XVII. No final do s\u00e9culo XIX, o av\u00f4 da Maria Am\u00e9lia, Augusto Xavier Bueno de Andrade fez um empr\u00e9stimo jno Banco do Brasil e como garantia ofereceu uma fazenda de caf\u00e9 em Campinas, com tudo o que tinha dentro, incluindo 75 pessoas escravizadas, segundo a pesquisa\u00a0<a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/rh\/a\/jRyTZKVdrBXjpNDpdRtWFsH\/?format=pdf&amp;lang=pt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Escravos Hipotecados<\/a>..<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Hoje, o nome Gast\u00e3o Vidigal batiza centenas de endere\u00e7os pelo pa\u00eds afora: avenidas, ruas, travessas, becos, pra\u00e7as, um aeroporto e at\u00e9 uma cidade no interior de S\u00e3o Paulo.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para Jos\u00e9 Marciano Monteiro, professor da Universidade\u00a0 Federal de Campina Grande (PB), s\u00e3o demarca\u00e7\u00f5es feitas pelas elites que n\u00e3o s\u00e3o apenas nomes de ruas, mas lugares de mem\u00f3ria\u00a0que ajudam a manter as desigualdades<\/strong><\/p>\n<blockquote data-rocket-lazy-bg-6b0cd246-6230-4d82-9656-c29611906c90=\"loaded\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAs disputas pol\u00edticas n\u00e3o se d\u00e3o t\u00e3o somente entre os vivos.\u00a0 Elas tamb\u00e9m se d\u00e3o entre os mortos, quando se disputam as mem\u00f3rias. Isso alimenta o capital simb\u00f3lico. Imaginemos o que \u00e9 voc\u00ea chegar em determinado lugar e dizer assim: esta avenida \u00e9 em homenagem ao meu bisav\u00f4. Isto aciona toda uma rede de contatos, de prest\u00edgio, de status do ponto de vista do imagin\u00e1rio e, do ponto de vista da representa\u00e7\u00e3o que \u00e9 totalmente diferente do sujeito que vai disputar e ele n\u00e3o tem refer\u00eancias\u201d, explica Marciano Monteiro.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele lembra que foram justamente essas refer\u00eancias que tentaram ser apagadas no sistema escravista: \u201cNo caso das pessoas que foram historicamente escravizadas, o que mais tentaram destruir foi exatamente a mem\u00f3ria dos seus antepassados. Porque quando voc\u00ea destr\u00f3i a mem\u00f3ria, voc\u00ea n\u00e3o tem mais refer\u00eancia\u201d.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Outro lado<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00a0Cobrasma encerrou as opera\u00e7\u00f5es em 1998. J\u00e1 Gast\u00e3o Eduardo de Bueno Vidigal, do Banco Mercantil, morreu em 2001, aos 82 anos, como um dos homens mais ricos do pa\u00eds. A fam\u00edlia voltou \u00e0s manchetes em 2019, quando um outro banco do cl\u00e3, o Banco Paulista, criado em 1990 por \u00c1lvaro Augusto Vidigal, sobrinho de Gast\u00e3o Vidigal, foi investigado pela Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, acusado de lavar R$ 48 milh\u00f5es para a Odebrecht.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reportagem do\u00a0<em>Perdas e Danos<\/em>\u00a0entrou em contato com a assessoria de imprensa do Banco Paulista e perguntou\u00a0se algu\u00e9m da fam\u00edlia aceitaria\u00a0falar sobre a tradi\u00e7\u00e3o escravista na origem da riqueza do cl\u00e3 e se, depois de 60 anos teriam interesse em fazer uma revis\u00e3o sobre o apoio dado por integrantes da fam\u00edlia \u00e0 ditadura. Tamb\u00e9m foi perguntado sobre as acusa\u00e7\u00f5es feitas pela Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato. A assessoria de imprensa do banco, esclareceu apenas que o presidente do Banco Paulista, Guti Vidigal, n\u00e3o \u00e9 herdeiro direto do financiador da OBAN e nem tem rela\u00e7\u00e3o com a Cobrasma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reportagem tamb\u00e9m entrou\u00a0em contato com a dire\u00e7\u00e3o da Cobrasma para\u00a0fazer as mesmas perguntas a\u00a0Lu\u00eds Eul\u00e1lio Vidigal. Tamb\u00e9m foi enviado questionamento sobre a ocupa\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica pelo Ex\u00e9rcito em 1968, o crescimento da empresa durante a ditadura e o encerramento das atividades fabris a partir da abertura democr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o houve resposta pra nenhuma das\u00a0quest\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estudo ainda indica que a perman\u00eancia dessas elites familiares contribui para a persistente desigualdade social e baixa mobilidade no Brasil Por: Eliane Gon\u00e7alves e Sumaia Villela &#8211; Rep\u00f3rteres da Radioag\u00eancia Nacional &#8211; Ag\u00eancia Brasil Pelo menos dois de cada tr\u00eas empres\u00e1rios documentados pela Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV) como apoiadores da ditadura militar t\u00eam origem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":129142,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[86,105],"tags":[158,3886,291],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/129141"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=129141"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/129141\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":129143,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/129141\/revisions\/129143"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/129142"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=129141"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=129141"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=129141"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}